Terça-feira, Maio 20, 2008

Cannes, 20 de Maio de 2008 (2)

Se me perguntarem, hoje, qual e o mais belo filme do mundo, eu respondo: The Exchange, de Clint Eastwood, com Angelina Jolie. Esta na competicao de Cannes e, se duvidas ainda houvesse, veio mostrar que Eastwood e um dos derradeiros herdeiros na nobreza de Hollywood.
The Exchange baseia-se no caso veridico de Christine Collins (Jolie) que, na sequência do desaparecimento do filho, é confrontada com um outro rapaz que a policia insiste em identificar como o seu filho e que, além do mais, a trata por "mae". Acontece que se trata, de facto, de outra criança — recusando reconhecê-lo, Collins vai ser sujeita a um processo de "normalizaçao", sendo internada num hospital psiquiatrico...
Baseado num facto veridico, ocorrido em 1928, em Los Angeles, o filme possui todas as componentes de uma genuina tragédia: é, de uma so vez, uma muito desencantada cronica sobre as contradiçoes do aparelho judicial e uma viagem à alma de uma mulher confrontada com um absurdo que tudo e todos parecem legitimar. Porventura ainda mais depurado do que nos seus momentos de maior depuraçao, Eastwood faz um filme sobre a frieza metodica do Mal e, por assim dizer, sobre a sua banalidade social e institucional. Fica, entretanto, uma certeza: a de que Angelina Jolie vai estar entre as nomeadas para o proximo Oscar de melhor actriz.

Cannes, 20 de Maio de 2008 (1)

Decididamente, nao sera possivel fazer a historia deste festival sem ter em conta a fascinante duplicidade do registo documental. Dito de outro modo: o documentario deixou de ser um espaco especifico (eventualmente "especializado"), para passar a existir como uma tendencia estetica capaz de contaminar todos os generos e registos de expressao.
Nesse aspecto, e notavel o regresso do ingles Terence Davies [foto em cima], autor de grandes obras (de ficcao) como A Biblia de Neon (1995) ou A Casa da Felicidade (2000). O seu novissimo Of Time and the City e uma fascinante viagem atraves da historia da sua cidade, Liverpool, num tom que combina a cronica historica com as mais delirantes deambulacoes subjectivas. Algo de semelhante se podera dizer de Roman Polanski: Wanted and Desired, de Marina Zenovich, verdadeiro filme-inquerito sobre o caso judicial e mediatico em que, ha tres decadas, o cineasta Roman Polanski [foto em baixo] foi acusado de ter tido relacoes sexuais com uma menor.
Ambos os filmes nao escondem ao que vem. Ou seja: Davies expoe com contundente desencanto a sua visao sobre a evolucao social e cultural da Gra-Bretanha, enquanto o filme de Zenovich e claramente centrado nas arbitrariedades ocorridas no sistema de justica dos EUA. Em todo o caso, nada disso diminui o seu impacto. Bem pelo contrario: afinal de contas, documentar nao e pregar uma neutralidade acima dos homens e das instituicoes, mas sim escolher — filmar e escolher um ponto de vista.

Como numa sala de guerra

O teledisco de avanço para Elephant Shell, o novo disco dos canadianos Tokio Police Club, mostra uma curiosa reinvenção narrativa dos velhos conflitos de escola. Sob acompanhamento, em directo, a partir de uma sala de guerra... Interessante pista visual para servir de fundo a Tesselate, o novo single do grupo.

Novo tema de Beck para ouvir

O MySpace de Beck tem já para escuta, em streaming, um primeiro tema do alinhamento do seu novo álbum de otiginais, com produção de Danger Mouse. Chemtrails, a canção em foco, e com curioso travo psicadélico, não será single. Aqui fica o link para a escutar.

Quando Serge Gainsbourg foi a votos

Hoje em dia os melhores compositores ao serviço da música popular fogem, a sete pés, do Festival da Eurovisão. Nos dias de 60 e 70 o cenário era diferente. E figuras de primeiro plano assinavam canções que então aceitavam levar a votos. Veja-se o caso de Serge Gainsboutg. Com carreira desde finais de 50, já não era ilustre desconhecido quando, em 1965, levou uma canção sua ao festival. E ganhou! Foi repetente duas vezes mais, em 1967 ao serviço do Mónaco, com Boum Badaboum (interpretada por Minouche Barelli) e, em 1989 pela França, com Black And White Blues (por Joele Ursull). Recordamos hoje a vitória de 1965. Pelo Luxemburgo, com France Gall. Aqui fica Poupée de Cire, Poupée de Son.

Brian Wilson regressa aos discos

Brian Wilson vai editar um novo álbum de originais. Trata-se de um disco de características conceptuais, que reflectirá sobre os dias de infância do músico, na Califórnia. That Lucky Old Sun sai a 1 de Setembro e conta entre os colaboradores vom Van Dyke Parks, o autor das letras do mítico Smile, originalmente projectado para 1967.

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Cannes, 19 de Maio de 2008 (2)

Homenagem a Manoel de Oliveira, aqui na companhia de Clint Eastwood. Ou um encontro de duas geracoes, duas sensibilidades, duas culturas — um gosto unido pelo cinema.
...E o cinema portugues ja tem uma Palma de Ouro: a que Manoel de Oliveira recebeu em Cannes, numa cerimonia que teve as vantagens essenciais da simplicidade, da pedagogia e do amor pelo cinema. Gilles Jacob, presidente do certame, enalteceu a perene imprevisibilidade de Oliveira, alias, como ele disse, condensada num dos titulos da sua filmografia: "o principio da incerteza". Oliveira agradeceu, enaltecendo os que continuam a querer fazer filmes, as mostra-los nas salas e a organizar festivais para os descobrir. A sua proclamacao final — "Vive le cinema!" — soou em tom classico, mas o seu eco foi rigorosamente moderno.

Cannes, 19 de Maio de 2008 (1)

Arta Dobroshi. Fixem o nome. Nascida no Kosovo, interpreta no filme Le Silence de Lorna, de Luc e Jean-Pierre Dardenne, uma jovem albanesa que tenta garantir a sua sobrevivência: primeiro, casando com um toxicodependente de modo a adquirir a nacionalidade belga; depois, divorciando-se dele para casar com um russo, desse modo tentando ganhar dinheiro para montar um negocio com o seu verdadeiro namorado... E uma teia dificil de resumir, prolongando esse misto de transparência e mistério, assombramento e redençao, que define o cinema dos irmaos Dardenne.
A especulaçao justifica-se: sera que os Dardenne [em baixo, com a sua actriz] se podem transformar nos primeiros a ganhar três Palmas de Ouro em Cannes? Recorde-se que foram distinguidos em 1999 e 2005, respectivamente com Rosetta e A Criança. Enfim, a questao principal é de outra natureza. Tem a ver, como é obvio, com o facto de os Dardenne serem os inventores de um mundo formal que possui a coerência ambigua de um mapa dramaturgico — tudo nos parece cientificamente ordenado e, ao mesmo tempo, o que eles filmam é a prodigiosa agitaçao da condiçao humana, essa continua proximidade entre a vibraçao da vida e a nitidez da morte. Arta Dobroshi transforma-se, por isso, numa parente cinematografica de Émilie Dequenne (Rosetta) — partilhamos o seu medo e, numa historia de tanto negrume, também a sua esperança.

Duo ele e ela

Chamam-se Mates Of State e são uma dupla de marido e mulher. Acabam de editar o seu quinto álbum de originais, Re-Arrange Us. Em Get Better, o single de avanço, uma pop aparentemente luminosa serve de projecto de fuga a tempos menos fáceis. Aqui fica o teledisco, que tenta traduzir sentidos da canção através de uma pequena narrativa.

Bowie em musical?

Começam a circular (inclusivamente no próprio site oficial do artista), notícias sobre uma eventual adaptação ao palco do filme The Man Who Fell To Earth, de Nicholas Roeg, que tinha David Bowie no papel protagonista. A adaptação, segundo se diz, contaria com canções de Bowie, definindo-se assim um musical em volta da sua obra, um pouco como sucedeu já com os Abba ou Madness... Ui...

Descalça foi para o palco

Em semana de Festival da Eurovisão, sim aquele em que Chipre dá 12 pontos à Grécia e vice-versa, o Sound + Vision mostra que, em tempos idos, outros valores, vozes, bandas e mesmo expectativas musicais por lá passavam. Em 2008, ou seja, em plena idade do euro-lixo, é de espantar a presença de uma canção como Divine, que o francês Sebastien Tellier leva a concurso. Há 41 anos, contudo, a concorrência era forte e, do festival, nasceram alguns êxitos que fizeram parte da história pop de 67. Recordemos, desse ano, a canção vencedora, que levava a palco uma cantora já com alguns anos de carreira pop no Reino Unido, inclusivamente com um número um alcançado em 1964 com Always Something There To Remind Me. Falamos de Sandie Shaw, a mesma que na década de 80 receberia uma carta de dois admiradores (nada mais que Morrissey e Johnny Marr) e conheceria nova etapa de visibilidade ao gravar versões de temas dos Smiths e de Lloyd Cole. Hoje, contudo, aqui fica a memória de Puppet On A String (que Lilly Allen recentemente citou em Alfie). A cantora, que subia descalça ao palco obteve então uma das mais esmagadoras vitórias da história do festival.

Cut Copy no Sudoeste

Os Cut Copy são mais um dos nomes confirmados para a edição deste ano do Festival Sudoeste. Quando será o seu álbum confirmado para edição nos escaparates nacionais? Quando alguém se decidir, por este andar, leia-se ritmo, já os interessados estarão servidos...

Domingo, Maio 18, 2008

Cannes, 18 de Maio de 2008 (3)

E se o documentário for, de facto, o novo género... ficcional? E se este senhor for um dos maiores documentaristas do actual cinema europeu?
Dito de outro modo: Raymond Depardon, fotógrafo de génio (membro da agência Magnum), continua a desenvolver a via documental do seu trabalho, agora com La Vie Moderne, terceira parte de Profils Paysans, sobre a situação actual nos campos franceses. Encontramos aqui um misto fascinante: por um lado, uma deambulação pessoal, "amadorística", aliás fundamentada num conhecimento acumulado, ao longo dos anos, com vários camponeses; por outro lado, uma visão implacavelmente metódica da degradação da vida rural e do triunfo de uma economia que menospreza as especificidades dessa vida e, no sentido mais genuíno do termo, das respectivas tradições. "Perdido" na agitação de Cannes, La Vie Moderne é um objecto de rara sensibilidade formal e cristalina depuração filosófica.

Cannes, 18 de Maio de 2008 (2)

De repente, surge a pergunta: não tera sido um erro insistir numa tão grande expectativa? Afinal de contas, não foi o próprio George Lucas, produtor do capítulo n.º 4 das aventuras de Indiana Jones, que veio garantir que se tratava apenas de um filme?
A questão é esta: nunca será possível olhar para Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Selecção Oficial / extra-competição) como se a trilogia fundadora (1981 + 1984 + 1989) não existisse — e, acima de tudo, como se não fosse uma das grandes concretizações da revisão moderna do conceito clássico de aventura. Que resta, então? Uma espécie de plataforma para os jogos de vídeo: uma longa (longuíssima...) perseguição na selva que pode ser transformada num jogo de variáveis mais ou menos previsíveis; e uma longa (longuíssima...) deambulação final pelo obrigatório templo misterioso, já aqui encenada com efeitos digitais que parecem antecipar, imagem a imagem, as soluções previstas para as consolas de jogos. Nos últimos 30 minutos, dir-se-ia que as personagens — logo, tambem os actores — apenas têm por missão olhar para a proliferação de efeitos imateriais, por vezes de pueril imaginação. O jogo com o chapéu? Estava no trailer... e o filme deixa essa sensação amarga de ser uma mera extensão do trailer.
Não se trata de reavivar a discussão simplista do "Spielberg: génio ou charlatão?" Nada da sua prodigiosa contribuição para o cinema contemporâneo está em causa. Mas, por vezes, e inevitável sentirmos que saber envelhecer é tambem uma arte. E das mais difíceis.

Cannes, 18 de Maio de 2008 (1)

Dois rapazes a brincar aos dramas dos homens crescidos... Mas não há nenhuma redenção poética à espera deles (nem do espectador) — Gomorra, de Matteo Garrone, baseado no livro de Roberto Saviano, é um impressionante retrato da cultura do crime organizado na região de Nápoles.
Podemos deduzir, sem qualquer equívoco, que o grande cinema político italiano está de volta. Aliás, em boa verdade, nunca desapareceu, mesmo se a normalização televisiva tudo tem feito para reduzir as ficções a estereótipos infinitamente repetidos. Acontece que Garrone, com uma energia rara e contundente, agarra de frente um tema dificílimo, oferecendo-nos uma visão de perturbantes contornos. Em última instância, trata-se de perceber como um sistema enraizado na divinização do dinheiro corresponde, afinal, a um conceito ditatorial da vida social e familiar. Na sua contundência temática e formal, Gomorra dificilmente sairá de Cannes sem um prémio.

Numa aldeia, à beira-mar...

Por variadas razões, Peter Grimes somou uma série de estreias, não esgotando contudo essas “primeiras vezes” as razões que de si fazem uma das peças centrais da obra do compositor inglês Benjamin Britten (1913-1976). Estreada em Junho de 1945, foi a primeira produção a subir ao palco em Londres depois do encerramento de palcos durante a guerra (gerando aclamação generalizada na crítica). Foi ainda a primeira que Britten projectou para a voz de Peter Pears, o tenor que recentemente conhecera e que foi depois o seu companheiro de uma vida. Peter Grimes reflecte ainda outra novidade: a chegada de Britten a uma nova vida numa pequena aldeia à beira-mar (regressado dos EUA onde havia residido desde 1939), ambiente no qual curiosamente se projecta também a acção desta ópera que, musicalmente, traduz a síntese de uma série de interesses e referências para o seu autor, da curiosidade pelas temáticas da morte mahlerianas às texturas de um Stravinsky. Inspirada por The Borough, uma colecção de poemas de George Crabbe publicada em 1810, sobre a vida numa pequena aldeia de pescadores, a ópera conta com libreto de Montagu Slater que, tal como Britten e Pears, constroem Peter Grimes como um ambíguo anti-herói que personaliza a luta do indivíduo contra as massas. Em Peter Grimes, em cujas entrelinhas mora uma crítica aos comportamentos da sociedade. Britten assina uma das suas mais marcantes obras. Musicalmente estimulante. Dramaticamente empolgante. A ópera regressa aos escaparates numa gravação de 1992 dirigida por Bernard Haitink, frente à orquestra e coro da Royal Opera House (em Covent Garden), com vozes como as de Anthony Rolfe Johnson (Grimes), Felicity Lott e Thomas Allen.

Sábado, Maio 17, 2008

Cannes, 17 de Maio de 2008 (2)

Por vezes, há imagens que têm o poder de condensar — e, mais do que isso, sugerir de forma elegante — as coordenadas de um determinado momento histórico, de um lugar.
Aqui, por exemplo, num filme da competição. Uma das personagens de 24 City, de Jia Zhang Ke, estaciona o seu precioso automóvel (ela comprou-o para se poder apresentar "melhor" nas suas relações laborais com outras mulheres) face a um parque habitacional em construção. Chama-se o empreendimento "24 City" e está a desenvolver-se na imensa área que, ao longo de muitas convulsões históricas e politicas, pertenceu a uma fábrica (n. de código: 420) ao serviço do exército chinês. Jia Zhang Ke (que conhecemos de vários títulos, incluindo Natureza Morta) filma esse processo num tom de documentário "romanceado" que confirma a vitalidade de uma escrita em permanente sintonia com as convulsões do seu próprio país — assistimos a uma história colectiva, mas sempre através das singularidades dos destinos individuais.
Algo de semelhante se poderá dizer a propósito de Je Veux Voir [foto em baixo], de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige (secção "Un Certain Regard"). Neste caso, filme e personagens empreendem uma viagem muito concreta: nas paisagens devastadas do Líbano, o actor libanês Rabih Mroue serve de guia à actriz francesa Catherine Deneuve (ambos se apresentam com a sua própria identidade). Trata-se, por assim dizer, de reabrir os olhos para alem da formatação televisiva. A expressão do título — "Eu quero ver" — é a primeira frase que Deneuve diz no filme. E o seu programa narrativo, porventura demasiado idealista, é apenas esse: fazer-nos participar de uma viagem breve, mas envolvente, para ver, para querer ver as marcas de destruição interior de um país. É uma espécie de documentário "anti-reportagem" e, no seu didactismo, essa pequena diferença merece ser sublinhada.

Clint Eastwood na primeira pessoa

> Fui presidente do juri [de Cannes] em 1994 (ano em que "Pulp Fiction" ganhou a Palma de Ouro), sem bem como funcionam as coisas. Os membros de um júri têm opiniões diferentes e há uma vintena de filmes em competição. É muito. "Mystic River" foi bem recebido há cinco anos, e isso basta-me. Se "The Changeling" [este ano na competição] receber a mesma recepção, será muito bom. O problema dos prémios é secundário.
São palavras de Clint Eastwood em entrevista exclusiva ao suplemento do jornal Le Monde, Le Monde 2, infelizmente desaparecido (mesmo vendido a parte) das lojas portuguesas. Vale a pena ler.

Cannes, 17 de Maio de 2008 (1)

Infelizmente, por vezes, os festivais de cinema são vistos — entenda-se: noticiados — como meras sessões de fotografias com vedetas mais ou menos reconhecíveis. Será que há jornalistas que estão nas sessões e não veem os filmes?
Isto para dizer que, para alem do ritual obrigatório das fotografias, ou melhor, através dele, por vezes emergem pequenos acontecimentos, plenos de emoção ou simbolismo. Exemplo? O entendimento do cinema como arte das famílias e dos cruzamentos familiares. Aqui [numa imagem do photocall de ontem], duas actrizes daquele que é, para já, o mais belo filme da competição: o melodrama hiper-familiar Un Conte de Noel, de Arnaud Desplechin — são elas Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, la mère et sa fille.

Arqueologia da pop elctrónica

Chega ao mercado nacional, na próxima semana, uma reedição de um dos mais importantes álbuns da etapa de descoberta e afirmação da pop electrónica. Segundo disco dos Tubeway Army (reeditado depois como sendo de Gary Numan, com o grupo, uma vez encetada a sua carreira a solo), Replicas mostra evidentes sinais de como as electrónicas invadiram o espaço outrora dominado pelas guitarras numa banda nascida da euforia pós-punk. Invasão que deitou mudanças formais profundas, acompanhadas por um sentido de cenografia com apelo sci-fi em palco. Sintonias que justificaram a adesão do público, em tempo de expectativa pela chegada de nova década, aqui encontrou nova banda sonora para os seus sonhos de futuro. Are Friends Electric, single extraído do álbum, foi o primeiro número um da história conquistado por uma canção pop electrónica. Aqui fica a sua memória, da canção, numa actuação televisiva, ao vivo, em 1979. Note-se como, ao invés da gravação em disco, as guitarras ainda aqui marcam considerável presença, evidenciando clara etapa intermédia de um processo de mutação em curso.

A paixão, segundo François Ozon

Apresentado na Berlinale em 2007, Angel - Encanto e Sedução, que esta semana finalmente chegou a Portugal, assinala duas estreias na obra do francês François Ozon. É o seu primeiro filme de época. E, também, o seu primeiro em língua inglesa. Foi inspirado por um romance de Elizabeth Taylor (a escritora inglesa e não a actriz norte-americana com o mesmo nome), Angel, publicado em 1957. A narrativa acompanha a história de vida de Angel Deverell, jovem escritora insolente, apaixonada pelas letras desde os dias de escola. Não lê, mas escreve, confiando as palavras ao que a imaginação, fértil, lhe dita. O sucesso literário, que ninguém imaginava a uma filha de merceeiro, traz-lhe fama, fortuna. O dinheiro, por sua vez, dá-lhe a casa senhorial que morava nos seus sonhos desde a infância. A vida guarda-lhe, contudo, dramáticas surpresas, um casamento difícil e a constatação, apenas nos últimos momentos, de que quem lhe votou verdadeiro amor não foi a mesma pessoa a quem entregou o seu.

François Ozon (entretanto já entregue à produção de Ricky, o seu novo filme), explicou já, em entrevistas, que a "sua" Angel deve muito à memória de Marie Corelli, escritora inglesa do século XIX, autora favorita da rainha Victória e que foi uma das primeiras figuras das letras a conhecer o estatuto de estrela. Para o papel protagonista encontrou a jovem actriz britânica Romola Garai. O elenco conta ainda com as presenças de nomes como Sam Neill, Lucy Russell e Charlotte Rampling, outra antiga colaboradora do realizador. Formalmente, Angel - Encanto e Sedução representa a primeira experiência de Ozon no espaço do melodrama de época. Há, contudo, relações evidentes entre este filme e a eloquência da direcção artística de 8 Mulheres, onde o realizador evocava o cinema de Douglas Sirk. Aqui, todavia, citou como modelos os melodramas da Hollywood dos anos 30 e 40. O universo da escrita foi por si antes abordado, em contexto diferente, em Swimming Pool.
(versão editada de um texto publicado no DN)

Sexta-feira, Maio 16, 2008

Cannes, 16 de Maio de 2008 (3)

E se Woody Allen estiver apenas a fazer citações de... Woody Allen? E se a sua passagem por Barcelona for apenas uma versão mascarada de um filme que ele (não) fez em Manhattan?
Não quero ser cruel com um criador que tanto admiro. Nem pretendo apagar o facto de o novo filme de Woody Allen — Vicky Cristina Barcelona (Selecção Oficial / extra-competição) — possuir alguns detalhes que, obviamente, indiciam um genuíno know how dramático e narrativo. Mas esta historia dos desencontros amorosos de duas americanas, Rebecca Hall e Scarlett Johansson [foto], em Barcelona possui qualquer coisa de auto-complacência artística, para mais organizada a partir de uma voz off que serve, acima de tudo, para sublinhar até a redundância as potencialidades de um dispositivo afinal apenas simulado. E, entendam-me, não se trata de esperar mais de Woody Allen... Trata-se, isso sim, de esperar outra coisa de um filme, sobretudo de esperar que não seja um mero jogo do gato e do rato com os proprios clichés que convoca. Como se Mozart tivesse saido de cena e Salieri pretenda, uma vez mais, fazer-se passar por ele...

Cannes, 16 de Maio de 2008 (2)

Salt of this Sea — à letra: "O Sal deste Mar" — é o título de uma das descobertas proporcionadas pela secção paralela "Un Certain Regard". Dirigido por Annemarie Jacir, nele se narra a aventura dramática de uma jovem de 28 anos, nascida nos EUA, que viaja ate à Palestina com o projecto de viver naquela que é a terra dos seus antepassados.
Trata-se, além do mais, de um filme que coloca uma questão premente da nossa actualidade cinematográfica, televisiva e, globalmente, mediática. A saber: que significa filmar — ou melhor, mostrar — um cenário necessariamente complexo, contraditório e, além do mais, desgastado pela banalização televisiva? O filme de Annemarie Jacir responde valorizando as convulsões humanas e não recuando perante a contundência dos factos. É um programa simultaneamente iconográfico e político que, por certo, poderá resumir uma das vias de eleição desta 61.ª edição de Cannes.

Cannes, 16 de Maio de 2008 (1)

Painel da conferência de imprensa do filme Un Conte de Noël, de Arnaud Desplechin: realizador e actores. Desplechin coloca a mão direita em pala, sobre os olhos, para conseguir ver a sala contra as luzes que iluminam a mesa; Catherine Deneuve aguarda, em pose de alguma tensão, as mãos sob o queixo; o jovem Emile Berling, obviamente não habituado a estas lides, permanece imóvel, o olhar fechado; Mathieu Amalric ri com exuberância perante uma resposta de Deneuve. E Emmanuelle Devos? Com uma pequena máquina digital, tira fotografias aos seus companheiros...
Belo momento para simbolizar um belíssimo filme — somos aquilo que somos através dos outros e das imagens que deles guardamos. Un Conte de Noël encena uma reunião familiar natalícia em que os laços afectivos se retomam, ou distanciam, muito por causa de um assombramento particular (a doença óssea partilhada por vários membros da familia). Se dúvidas ainda houvesse sobre a ligação de Desplechin (Esther Kahn, Reis e Rainha) à nobre tradição melodramática francesa que cristaliza em Jean Renoir, este filme bastaria para as esclarecer. Será preciso acrescentar que os actores são, todos, excepcionais? Chiara Mastroianni [foto] representa de forma absolutamente convulsiva a descoberta de que nao escolheu o homem com quem vive, mas... foi escolhida pela acçao conjugada dele e mais dois homens — a cena em que ela se despe para aquele que dela abdicou ficara como um momento sublime deste festival.

Um pequeno filme (com banda sonora)

O primeiro teledisco rodado para acompanhar o álbum Saturday = Youth, o novo do projecto francês M83, escolhe a canção Graveyard Girl como banda sonora. O realizador Mathew Frost segue as sugestões da canção para criar uma curta-metragen, com linha narrativa evidente, em tudo fiel ao conceito dos teen movies de 80 que, muitas vezes, são apontados como uma das heranças da música de M83. Ecos dos Jesus & Mary Chain e New Order servem de cenátrio a episódios protagonizados por uma rapariga pouco vulgar.

Finalmente o número um

Neil Diamond, que iniciou a sua actividade no mundo da música há 50 anos (apesar de só desde 1966 gravar em nome próprio), atingiu esta semana, pela primeira vez, o número um da tabela de vendas de álbuns nos EUA. O feito deve-se ao sucessor de 12 Songs, o novo Home Before Dark, segundo álbum que grava com o produtor Rock Rubin.

O disco do mês é dos...

... Portishead. Terminou mais uma semana de votos. Como sempre, dez títulos pop/rock internacionais e uma mão cheia dos mais significativos lançamentos locais foram propostos aos leitores do Sound + Vision. A expressiva concentração de votos no mais recente álbum dos Portishead deixa bem evidente que o disco será mesmo um dos casos de 2008. Segue-se uma das surpresas da temporada: a estreia dos Last Shadow Puppets, que somaram mais preferências que os veteranos B-52’s e o novo Hard Candy, de Madonna. Surpreendentes as boas classificações dos No Kids e Crystal Castles, dois álbuns de estreia, Na lista nacional a votação foi renhida desde o primeiro instante, tendo os discos de Camané e dos Dead Combo trocado diversas vezes de lugar entre si. A votação terminou com escassos três votos mais para Camané. Para os interessados, aqui fica a lista completa das votações.

INTERNACIONAL
1º Portidhead “Third” – 48%
2º Last Shadow Puppets “The Age Of Understatement” – 12%
3º The B52’s “Funplex” – 11%
4º Madonna “Hard Candy” – 10%
5º Raconteurs “Consolers Of The Lonely” – 6%
6º No Kids “Come Into My House” – 5% (*)
7º Crystal Castles “Crystal Castles” – 5%
8º Breeders “Mountain Battles” – 4%
9º Gnarls Barkley “The Odd Couple” – 1% (*)
10º Clinic “Do It” – 1%

NACIONAL
1º Camané “Sempre de Mim” – 40%
2º Dead Combo “Lusitânia Playboys” – 39%
3º A Naifa “Uma Inocente Inclinação Para o Mal” – 14%
4º Balla “Resumo (2000-2008)” – 9%

(*) Apesar do arredondamento à unidade, os No Kids somaram mais votos que os Crystal Castles. O mesmo acontece com os Gnarls Barkley, com mais dois votos que os Clinic.

Os males da carteira bem recheada

Discografia Duran Duran - 15
'New Moon On Monday' (single), 1984

Numa altura em que os Duran Duran mostravam sinais de ter à sua volta mais em dinheiro que ideias, só o estatuto conquistado nos anos anteriores, assim como o sucesso de uma digressão mundial em curso, mantiveram elevado o seu perfil nos primeiros meses de 1984. Antes de reencontrados reais argumentos pop (o que aconteceria meses depois, com uma remistura de The Reflex), os vários equívocos de Seven And The Ragged Tiger emergiram com mais visibilidade que o desejado. Depois de sovado na crítica, apesar dos bons números de vendas (sobretudo nos EUA e Canadá), o álbum contribuiu para uma relativa perda de terreno do grupo em territórios europeus. O segundo single, New Moon On Monday, lançado em Janeiro de 1984, em nada contrariou a tendência. Apesar de representar uma das melhores canções de um álbum menos inspirado, não revelava qualquer potencialidade para se transformar num clássico. Canção pop sumptuosa, com traços de heranças de um sentido de requinte à la Bryan Ferry, representou, como single, o primeiro tiro ao lado desde Careless Memories. Só um efeito de inércia (e o já citado estatuto que o grupo então vivia) garantiu presenças no top 10 do Reino Unido, EUA, Canadá, Irlanda e Nova Zelândia. Pouco, convenhamos, para quem meses antes “dominava” o mundo... O teledisco, um dos mais caros e inconsequentes da videografia do grupo, contribuiu para alguma perda de visibilidade. Salva-se, contudo, o lado B, remistura de Ian Little para Tiger Tiger, um instrumental presente no álbum na sua versão original.



O teledisco de New Moon On Monday é mais um exemplo claro de um tempo de gastos excessivos (e nada úteis) que o grupo revelou na sua agenda de comportamentos jet set entre 1983 e 84. Rodado por Brian Grant na pequena localidade de Noyers, em França, em pleno Inverno, tenta mostrar o grupo como comando rebelde em acção de protesto num estado dominado por um qualquer regime repressivo. Com ares de pompa de cinema, mas sem real história para contar...

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Cannes, 15 de Maio de 2008 (2)

Será que existe — ou pode existir — um novo realismo que resista ao naturalismo banalizador das televisões? E será esse realismo um novo hiper-realismo?
São perguntas que ficam da descoberta de Hunger, título este ano eleito para abrir oficialmente a secção "Un Certain Regard". Nele se narra o tempo trágico, em pleno consulado de Margaret Thatcher, em que o Governo britânico se recusa a reconhecer aos elementos do IRA o estatuto de prisioneiros políticos, tratando-os como vulgares criminosos de delito comum. É um processo de violência e dor que conduz a greve da fome (e a morte) de Bobby Sands, episódio marcante na história moderna da Irlanda. O filme — realizado pelo artista plastico Steve McQueen — coloca a questão, delicada e perturbante, de como representar o corpo para dar a ver a politica. É, de uma só vez, uma crónica histórica e uma brilhante discussão das novas formas audiovisuais.

O exemplo da "Telerama"

Deixemo-nos de tretas.
Uma ideologia fortíssima — meio televisiva, meio jornalística (e com algumas outras metades pouco recomendaveis) — tem-se esforçado por impor entre nós a "ideia" de que a televisão é como é porque... é assim em todo o lado. Deixemo-nos de tretas: tudo isso é mentira. Basta ver o espaço francês.
Não que eu seja distraído e pretenda negar que a televisão francesa está cheia de monstruosidades, ao mesmo tempo que alguma imprensa acompanha, amplia e vende tais monstruosidades. O certo é que esta é tambem uma Franca em que existe uma revista chamada Telerama. Que é como quem diz: uma publicação inteligente e popular, sem receio de ser uma coisa e outra (não uma coisa contra a outra...). Da abordagem do glamour a análise dos programas, filmes ou livros mais esotéricos, tudo nela tem cabimento, sempre tratado com a preocupação didáctica de quem tem gosto em abrir horizontes.
Um bom exemplo desta estratégia — de sucesso, convém acrescentar — poderá ser o número especial dedicado a Cannes. Tem Ava Gardner na capa e oferece em DVD o primeiro filme de Sean Penn (este ano presidente do júri do festival): chama-se The Indian Runner (1991) e é um insolito western moderno com Viggo Mortensen [foto], Valeria Golino, Patricia Arquette, Charles Bronson e Dennis Hopper.

Cannes, 15 de Maio de 2008 (1)

Foto DELPHINE PINCET / Quinzaine

Chama-se Jerzy Skolimowski e é um dos grandes senhores do cinema europeu, nome chave da "nova vaga" do cinema polaco, no começo da década de 60. O seu novíssimo filme — Quatro Noites com Ana, uma produção de Paulo Branco — abriu a Quinzena dos Realizadores, dezassete anos passados sobre o seu anterior trabalho de realização (Ferdyduke). O minimo que se pode dizer é que se trata de um acontecimento de excepção, mostrando a vitalidade de um criador que sempre se moveu na fronteira tensa entre a crueza da matéria e dos poderes do imaginário.
Quatro Noites com Anna apresenta-nos o Skolimowski retratista do amor — amor louco, entenda-se, no sentido mais intratável que a expressão pode conter. Nesta história quase macabra, mas afinal de uma ternura avassaladora, assistimos as atribulações de um empregado de um hospital que se apaixona por uma enfermeira que vai observando de forma metódica e obsessiva. Skolimowski filma este par (imaginário e, no entanto, de uma insólita carnalidade) como se estivessemos a assistir a um apocalipse cósmico, tudo num universo natural, mas não naturalista, rasgado pelas mais puras pulsões animistas. Quatro Noites com Anna possui a precisão de um retrato e a liberdade de um poema. Ou o contrário.

Discos da semana, 12 de Maio

Numa altura em que ganham visibilidades divas de plástico entregues ao teatro da reinvenção barata da soul (leiam-se as Duffys e Joss Stones que por aí somam e seguem), nada como um reencontro com as verdades profundas de uma das mais importantes “escolas” da canção do século XX. E se há disco que, até ao momento, neste 2008, o saiba fazer, ele é Jim, o novo de Jamie Lidell. Descobrimo-lo há algum tempo, já firme numa identidade que não escondia curiosidades e encantos pelas heranças do rhythm’n’blues. Jim é, todavia, o álbum que o mais aproxima dos modelos que admira, afastando-o, por seu lado, de mecânicas digitais, do beat-box humano, que outrora serviram interessante definição de personalidade. Jim é um disco de evidente apelo pelos modelos clássicos da canção soul, ora espelhando influências dos “gigantes” de 60 como Otis Redding ou Sam Cooke (escute-se Out Of My Systrem), ora revelando uma evidente admiração por essa outra figura incontornável da história de 70 que é Stevie Wonder, pontualmente piscando o olho a Marvin Gaye (All I Want Is You), a Al Green (Green Light), ocasionalmente ao motor rítmico lançado há mais de 30 anos por Sly Stone. Este é um Jamie Lidell que, apesar de formalmente distante de alguns trilhos que percorreu na etapa Super Collider, em nada mostra sinais de real mudança de personalidade. Antes, uma opção pelo enfrentar, de peito, os modelos que sempre o inspiraram, com mais real atitude que o que Jay Kay nos mostrou com os Jamiroquai (excepção para o seu ilustre e magnífico álbum de estreia). De certa maneira, e como o deixa bem claro na sua dedicatória impressa no booklet, este é um disco que, como Bowie o fez com o seu Young Americans de 1975, se afirma como o agradecimento de um músico a quem o inspirou. Um exercício de teatro, vestindo o actor Lidell ecos das personagens que escutou (e assimilou) nos que mais admira. Um teatro verdadeiro, necessariamente feito de referências claras, de heranças evidentes, de citações óbvias. Todavia interpretadas, não meramente recriadas. Nunca pastiche. Sério. Muito sério. E absolutamente saboroso.
Jamie Lidell
“Jim”
Warp
4 / 5
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Ao quinto álbum os M83 são um nome solidamente instalado entre os grupos com maior visibilidade global da França contemporânea, destacando-se entre os demais por uma demarcação formal que privilegia não apenas a evocação de memórias em novo contexto, como, sobretudo, aposta numa reinvenção dos códigos do shoegazing. De resto, bem antes dos Midnight Movies, dos Raveonettes ou, mais recentemente, os Magnetic Fields, já os M83 mostravam exemplos de aplicação das heranças dos My Bloody Valentine (e outros ensaístas do género) num espaço que convocava um sentido de nostalgia muito peculiar e um gosto pelo confronto entre a distorção “ambiental” e a presença das electrónicas. Sarurday = Youth mostra, face ao passado, algumas marcas de continuidade em tempo de desejo de mudança. Não abandona o clima de nostalgia apontada à cultura juvenil dos anos 80, mas mais que nunca aponta o caminho na exploração da canção, afastando as mais longas dissertações ambientais do centro da acção. O disco traduz uma curiosa aproximação aos códigos da pop, sem contudo abandonar o cariz estilizado da construção cénica habitual, sem abafar um sentido de grandiosidade, nem mesmo as histórias que ecoam dias luminosos, fantasias de Verão, nostalgias com tempero doce. Aqui moram heranças de uns Cocteau Twins (evidentes em Skin Of The Night), New Order (que se adivinham em Graveyard Girl) ou, claro, os My Bloody Valentine (Up!). O interesse (antigo) dos M83 pelas novas electrónicas surge menos evidente ao longo do disco, mas domina a longa dissertação de Coleurs. Uma longa construção ambient aos modos do Brian Eno de finais de 70, encerra o disco. Como sempre, a identidade de M83 é a soma ordenada destas memórias com as intenções narrativas (algo cinematográficas) de Anthony Gonzalez que, aqui, consegue o seu melhor disco de sempre.
M83
“Saturday = Youth”

Virgin / EMI
4 / 5
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Os Mesa foram um dos primeiros projectos da geração da presente década a mostrar firme intenção no reencontro da canção pop com a língua portuguesa. Mesa, o seu álbum de estreia, conta-se entre os melhores momentos pop que os últimos anos nos deram a escutar, sem receio de construir canções com palavras que por vezes fogem dos cenários habituais, sem medo de procurar uma identidade de som numa opção pela variedade em vez do mais frequente funil rumo a um só caminho. Ao segundo álbum (com uma das capas menos inspiradas da história do design ao serviço da música portuguesa), a ideia caminhou para destinos mais definidos, perdendo-se algum do apelo da surpreendente variedade da estreia. E é precisamente no resolver dessa opção que o novo Para Todo o Mal ganha primeiros pontos (e acrescente-se que a melhor capa da discografia do grupo também convida, agora, ao reencontro). O sentido de surpresa que se descobriu em Mesa é uma das características estruturais num álbum que mostra um grupo que sabe que a pop é um mundo vasto no qual moram tanto os códigos da familiaridade imediata como os do desafio, do inesperado. Os Mesa podiam ter-se transformado já em fáceis hit makers. Podiam ter uma linha de montagem de "Divagadoras" e "Luzes Vagas". Mas não. Ou não fosse João Pedro Coimbra, melómano, antes mesmo de se descobrir músico. E esse gosto de quem na música quer sentir um prazer de sabores, uns mais imediatos, outros que pedem mais tempo, mora uma das mais fulcrais verdades estruturais do que é esta Mesa pop. Para Todo o Mal mostra quão firme é o entendimento desta música e destas palavras com uma voz que lhes dá visibilidade. Aqui mora uma pop actual, que sabe escutar ideias num espectro largo de fontes, das electrónicas aos domínios da invenção indie pop. Do conhecido ao nem por isso. Cada canção tacteia um caminho, ganhando nós familiaridade com a surpresa ao fim de várias audições. As palavras podem não dizer o que somos, como se sugere a dada altura. Mas estas músicas não escondem quem as faz.
Mesa
“Para Todo o Mal”
Sony BMG
4 / 5
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O primeiro álbum dos Long Blondes revelou, na Sheffield dos nossos dias, uma banda capaz de evocar um dos períodos mais intensos da vida musical da cidade: o pós-punk. Numa curiosa ponte entre a urgência pop das bandas da época e o charme decadente das histórias de uns Pulp (outra das grandes referências locais), mostraram momentos de puro prazer pop dançável, entre os quais esse hino de apelo aos músculos das pernas que foi Giddy Stratospheres. Ao segundo álbum (que levantou uma talvez excessiva onda de aplauso generalizado junto da crítica britânica), o grupo mostra o que parece ser uma vontade em travar a festa e o divertimento, em favor de uma mais cuidada concepção da cenografia que acolhe as canções e a uma demanda de outra... “seriedade”... Nada contra, acrescente-se, que não é aí que a coisa falha. Reduzem a presença de uma certa rugosidade punk em favor de um clima mais próximo dos códigos da pop. Abordam os arranjos com cuidados mais evidentes. Tudo isto sem perder de vista a vontade em não abandonar pontuais incursões pela pista de dança. Contudo, é apenas nesses temas de maior fulgor rítmico (como Century, I’m Going To Hell ou Here Comes The Serious Bit), ou seja, naqueles em que o grupo deixa a janela mais aberta à memória do que nos deu no álbum de estreia, que o álbum respira um fôlego que parece escapar ao disco. Curiosamente, no implosivo (mas intenso) Round The Harpin, um teatro de sombras revela outro momento de surpresa. O grosso do alinhamento, onde se espelha o já citado cuidado cénico, sugere contudo um menos bem aplicado uso das vitaminas pop que haviam iluminado o disco de estreia. Um caso de anemia, portanto...
The Long Blondes
“Couples”
Rough Rrade / Edel
2 / 5
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Os últimos anos assistiram a uma importante descoberta do baú das memórias (durante muito tempo esquecidas) da pop nascida da explosão punk em finais de 70 e inícios de 90. Nomes como os New Order, Human League, Wire, Adam & The Ants, Psychedelic Furs, The Cure ou Duran Duran regressaram à ordem do dia e marcaram a descoberta de novas realidades numa geração que, pelo mundo fora, procurou nesses modelos motivos de entusiasmo para criar uma pop, de alma rock, mas sempre de forte apelo dançável. Criaram-se verdadeiras pérolas. Dos Franz Ferdinand ao álbum de estreia dos The Killers, dos The Faint aos White Rose Movement, a oferta foi intensa e interessante. Depois entrou em cena a engenharia genética. E a clonagem destes novos heróis, juntamente com mais citações dos modelos históricos que os motivaram, criaram casos de pontual interesse mais, na maior parte das situações, estafada exaustão de um filão que, outrora entusiasmante, hoje quase já cansa de tão repetida e desinteressantemente abordado. Veja-se o caso dos The Whip. Surgem com Frustration, um discreto pastiche de New Order (nada contra, não foram os primeiros). Mostram fulgor de pista de dança em clima pop em Sister Siam. E viço disco punk em Trash... Naturalmente esperava-se por álbum excepção. Nada disso! O restante alinhamento de X Marks Destination é mera arrumação de ideias menores, citações idênticas às mais recorrentes, canções sem o “eureka” pop das acima citadas, apostando antes em soluções menos imaginativas de alguma dance music mais banal. Já se ouviu pior. Mas está longe, muito longe, do que o apetite estimulado pelos singles aqui sonhava encontrar.
The Whip
“X Marks Destination”

PIAS / Edel
2 / 5
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Também esta semana:
Martha Wainwright, Martina Topley Bird, White Williams, Liquid Liquid (reedição), Otis Redding (reedição), Cut Copy, The Presets, NIN

Brevemente:
19 de Maio: Rocky Marsiano, The Ting Tings, Paul Weller, Pogues, Scarlett Johansson, Sparks, Mudhoney, Dr Hook (reedições), Death Cab For Cutie, Moonspell, Philip Glass (archives – vol 3)
26 de Maio: Spiritualized, Weddinng Present, Futureheads, Byrds (reedições), Replacements (reedições), Tangerine Dream (antologia), Zutons, Philip Glass (opera), Los Campesinos (ed nacional), El Perro del Mar (ed nacional), The Notwist, Wild Beasts
2 de Junho: Ladytron, Aldina Duarte, Paul Weller, Aimee Mann, Radiohead (best of), Dead Can Dance (reedições), Broadcast

Junho: Coldplay, Joan As Policewoman, Fratellis, Infadels, David Bowie (reedição), U2 (reedições), Black Kids, Yazoo (caixa + reedições), Silver Jews, Young Gods, Joseph Arthur, Weezer, The Music, No-Man

Quarta-feira, Maio 14, 2008

Cannes, 14 de Maio de 2008

Bizarra perversão dos rituais cinematográficos: Blindness, o filme de Fernando Meirelles baseado no romance Ensaio Sobre a Cegueira, de Josá Saramago, á a primeira grande notícia de Cannes 2008. E, no entanto, o primeiro grande filme desta 61.ª edição do festival dá pelo nome de Valse avec Bachir e vem de Israel.
Não me interpretem mal. Nada contra o risco assumido por Meirelles de aceitar lidar com um romance tão rico e tão... "inadaptável". O certo é que a parábola de um mundo de cegos fica reduzida a um tom algo "ilustrativo", muito elaborado no plano cenográfico, mas algo básico nas suas ressonâncias simbólicas — no seu melhor, Blindness faz lembrar uma certa agilidade artesanal de alguns clássicos da ficção científica mais ou menos apocalíptica.
Em paralelo, e por contraste, Valse avec Bachir lida também com as imagens que faltam — as ressonâncias traumáticas da invasão do Líbano, em 1982, pelas tropas israelitas — e, sobretudo, com a necessidade de enfrentar as memórias mal esclarecidas dos massacres de palestinianos. No fundo, o realizador Ari Folman está a fazer uma documentário sobre a sua própria experiência, uma vez que, com apenas 19 anos, ele integrava as tropas israelitas. Só que se trata de um documentário... em desenhos animados! Assim mesmo, literalmente: desenvolver um labor de investigação e representá-lo em registo de animação [ver imagem em cima].
É coisa nunca vista, directa, perturbante, capaz de nos (re)interrogar sobre a verdade das imagens e, sobretudo, o seu efeito de verdade. Fica a pergunta (urgente): alguém vai exibir este filme nas salas portuguesas?

Viver e morrer em São Francisco

Quando um homem ama uma mulher, a quem entrega o seu amor? Aquela que, ali, à sua frente, materializa (ou imaterializa?) a própria ideia do amor? Ou a um ser ausente que parece duplicar o primeiro numa vertigem abstracta que nos devolve a crueldade do mundo concreto?
Como é sabido, tudo isto se pergunta no bem chamado Vertigo, a obra-prima de Alfred Hitchcock em que James Stewart se perde na imagem de Kim Novak, ou nas imagens que o seu corpo transporta. O filme teve a sua primeira apresentação oficial na própria cidade que mitifica: São Francisco. Foi a 9 de Maio de 1958, cumpriram-se agora 50 anos. Terrence Rafferty, do New York Times ajuda-nos a recordar, porque recordar é viver — ou morrer, como poderia dizer a personagem de James Stewart.

100 imagens no feminino

Mais ou menos por altura do Festival de Cannes, a associação não governamental de defesa da liberdade de imprensa Reporteres Sem Fronteiras edita um álbum cujas receitas se destinam a apoiar a sua actividade internacional. Normalmente, é uma antologia de trabalhos de muitos fotógrafos que apoiam a associação através da cedência das suas imagens. Este ano, o album já está disponível, mas possui uma única assinatura: Bettina Rheims — são 100 fotografias de gente conhecida [por exemplo, em cima, Kristin Scott-Thomas] ou anónima, numa viagem luminosa e secreta pelos espaços do feminino.