domingo, abril 19, 2015

Marcelo: comentador ou candidato?

Marcelo Rebelo de Sousa comenta os candidatos à Presidência da República ou é, ele próprio, um candidato? Ou será comentador e candidato? — esta crónica de televisão foi publicada no Diário de Notícias (17 Abril), com o título 'Comentador ou candidato?'.

Há qualquer coisa de profundamente incómodo em deparar, semana após semana, com Marcelo Rebelo de Sousa (TVI) a comentar os candidatos, anunciados ou hipotéticos, à Presidência da República. Porque das duas uma: ou o comentador é um potencial candidato, ou não é. Se é, em nome de que deontologia está a exercer esse poder discursivo? Se não é, porque é que não afirma, de forma inequívoca e definitiva, a sua exterioridade em relação ao processo?
Não se trata de transformar a sua figura mediática em pretexto de (mais) uma algazarra “social”, com ou sem redes, envolvendo reguladores e regulamentos — já basta o que basta. Seja como for, também não pretendo esconder que considero o discurso televisivo de Marcelo Rebelo de Sousa uma cristalização retórica de um entendimento rudimentar da política, reduzindo todas as eventuais clivagens ideológicas a peripécias mais ou menos frívolas e fulanizadas.
O que está em causa é de outra natureza. Acontece que a postura televisiva de Marcelo Rebelo de Sousa não passa de uma variante da imensa pobreza cultural que encontramos à direita e à esquerda. A começar pela patética ausência de pensamento sobre a própria inscrição da política em televisão.
Se tivéssemos uma classe política genuinamente disponível para pensar o imenso poder inerente a alguns dispositivos televisivos, há muito que todos os partidos — a começar pelo partido a que pertence o comentador — teriam suscitado uma salutar reflexão sobre as intervenções de alguém que é parte interessada (ou, pelo menos, não explicitamente excluída) de um processo eleitoral que passou a ser tema constante dos seus comentários.
No limite, a situação criada pode atrair a mais perversa das leituras: a de que a condição de comentador televisivo pode constituir um elemento específico de uma estratégia para chegar à Presidência da República. A acontecer, isso quererá dizer que passámos a viver num país em que a televisão se substituiu à própria República.

Heranças da Segunda Guerra Mundial

Chegaram às salas mais dois filmes marcados pelas heranças traumáticas, individuais e colectivas, da Segunda Guerra Mundial — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Abril), com o título 'A guerra para além do filme de guerra'.

Durante décadas, em particular na Europa e na América, o padrão dominante do filme de guerra foi o do filme sobre a Segunda Guerra Mundial. Mais do que isso: numa generalização necessariamente redutora, mas sugestiva, podemos considerar que o filme de guerra foi também aquele que, directa ou implicitamente, contrapôs os cenários de combate às convulsões da retaguarda.
Duas das estreias desta semana, ambas provenientes da produção alemã — Phoenix, de Christian Petzold, e Labirinto de Mentiras, de Giullio Ricciarelli —, são sintomas esclarecedores de como esse padrão tem vindo a ser, não exactamente contestado, mas em boa verdade ignorado. Aliás, não é verdade que até mesmo Sacanas sem Lei (2009), de Quentin Tarantino, envolvia a ideia de uma decomposição interna do próprio género, agora conduzido a um registo em que tragédia e paródia podem ter os mesmos direitos narrativos?
O caso de Phoenix distingue-se pela perturbação inerente aos factos que encena. Estamos perante a saga de uma mulher, Nelly (a notável Nina Hoss), sobrevivente de um campo de concentração: operada ao rosto, adquire feições que a transformam numa estranha para o próprio marido (Ronald Zehrfeld), situação tanto mais tensa quanto terá sido ele o responsável pela denúncia que levou os nazis a prendê-la. Aquilo que começa por ser uma crónica histórica sobre o período inicial da reconstrução da Alemanha transforma-se numa deambulação intimista em que, escusado será sublinhá-lo, o sentimento da fragilidade dos corpos contamina todos os seres e todas as relações — no limite, a verdade de um corpo, da sua história, da sua irredutibilidade, pode ser insustentável.
Algo de semelhante acontece em Labirinto de Mentiras, por certo mais tradicional na sua construção, mas não menos inovador na abordagem de um contexto marcado pelo peso de um silêncio mentiroso. Falamos de quê? Pois bem, de uma Alemanha em finais da década de 50 em que prolifera um terrível desconhecimento da dimensão dos crimes nazis e, em particular, da existência e do modo de funcionamento dos campos de concentração. O filme possui uma estrutura em parte devedora dos modelos tradicionais de inquérito policial, uma vez que a personagem central, Johann Radmann, é um procurador de justiça que se envolve num processo dantesco de reunião de provas do Holocausto, sobretudo do que aconteceu no campo de Auschwitz. Curiosamente, o excelente intérprete de Radmann, Alexander Fehling, assumia também um pequeno papel em Sacanas sem Lei.
É certo que o mercado cinematográfico nem sempre tem sabido trabalhar filmes com estas características, nem mesmo tirando partido da coincidência (?) das respectivas estreias. Seja como for, o espectador atento poderá compreender que estamos perante obras que pertencem a uma “tendência” que liga, por exemplo, o admirável Lore (2012), de Cate Shortland, sobre a sobrevivência dos filhos de um oficial nazi, a Suite Francesa, de Saul Dibb, a adaptação do livro de Irene Némirovsky que chegou há uma semana às salas.
Para lá das suas diferenças, todos estes filmes integram uma vontade de realismo que aponta, no essencial, para uma revalorização dramática das personagens. Trata-se de representar cada ser humano como uma presença irredutível a qualquer cliché “ideológico” ou “psicológico”. E é significativo que tudo isso aconteça através de uma revalorização do trabalho dos actores, tanto mais importante quanto já não encontramos heróis redentores, mas sim figuras errando pela crueza da própria história.

sábado, abril 18, 2015

"Mundo Jurássico" chega em Junho

Depois de algumas sequelas mais ou menos rudimentares, será possível recuperar o sentido de espectáculo e a energia simbólica que Steven Spielberg soube investir no original Parque Jurássico (1993) e, sobretudo, na sua magnífica continuação, O Mundo Perdido (1997)?
O menos que se pode dizer de Mundo Jurássico (a 11 de Junho nas salas portuguesas) é que tem este sugestivo cartaz, com Bryce Dallas Howard a contemplar um vizinho que não parece muito dado à vida social. E que o trailer propõe uma variação sugestiva sobre a evolução laboratorial dos dinossauros — a realização é de um profissional até agora pouco conhecido, Colin Trevorrow; no elenco, além de Dallas Howard, surgem também os nomes de Chris Pratt, Vincent D'Onofrio e Judy Greer.

Miguel Gomes na Quinzena dos Realizadores

As Mil e uma Noites, o novo filme (em três partes) de Miguel Gomes [foto] vai ter a sua estreia mundial na Quinzena dos Realizadores, no âmbito do Festival de Cannes. Em comunicado oficial, Edouard Waintrop, delegado geral do evento, escreve:

>>> "As Mil e uma Noites, o filme, ou melhor os três maravilhosos filmes de Miguel Gomes, serão programados na Quinzena dos Realizadores. Esta soberba série inspirada pelas histórias contadas por Xerazade e acontecimentos ocorridos no Portugal dos anos 2013 e 2014, país nesse período submetido a uma política de negação de qualquer justiça social, ritmará a nossa programação. Cada filme encenado com uma fantasia delirante e uma grande liberdade terá o seu dia."

A 47ª edição da Quinzena começa a 14 de Maio, um dia depois do arranque do festival, terminando no dia 24 — o seu filme de abertura será L'Ombre des Femmes, de Philippe Garrel.

They Might Be Giants, opus 17

Senhores de um universo criativo que vai desde as divagações mais alternativas do rock até à música para crianças, os americanos They Might Be Giants ilustram, há mais de três décadas, um gosto experimental que nunca perdeu o sentido da ironia e da autocrítica. O seu 17º álbum de estúdio, Glean, nasce de um processo de difusão que a banda impôs como uma espécie de imagem de marca: chama-se 'Dial-A-Song' e corresponde a uma base de canções regularmente partilhadas com os visitantes. Na prática, Glean é um exercício poético de muitos contrastes, como o ilustra o indefinível e sedutor teledisco de End of the Rope.


Vale a pena recordar o teledisco de You're on Fire, do álbum anterior da banda, Nanobots (2013), protagonizado por Lauren Lapkus — a atracção por uma certa "distorção" das matérias vivas (ou mortas...) parece ser uma assinatura do universo visual dos They Might Be Giants.

Max Richter, 2004

A reedição de The Blue Notebooks (2004), segundo álbum a solo do compositor alemão Max Richter, permite-nos revisitar um singularíssimo projecto. Não apenas um exercício incrustado a meio caminho entre um certo classicismo e algumas modernas derivações electrónicas, mas também uma serena coabitação entre instrumentos musicais e voz humana (Tilda Swinton lendo extractos de Kafka).
Para a história, este foi um disco cujo conhecimento ficou muito ligado à inserção de uma das suas faixas, On the Nature of Daylight, no filme Shutter Island (2010), de Martin Scorsese — aqui fica a respectiva memória.

sexta-feira, abril 17, 2015

Lane Bryant e a palavra sexy

A. Ciclicamente, regressa a discussão sobre os padrões de beleza no imaginário feminino da moda (ou no imaginário da moda feminina). Não poucas vezes, com ramificações mais ou menos dantescas que chegam ao ponto de tentar definir as imagens das mulheres no universo global do entertainment a partir de uma "legitimidade" que seria conferida (ou não) pela idade — observe-se, em particular, como Madonna tem sabido reagir aos discursos que a querem encerrar, isto é, silenciar nos seus 56 anos.

B. Há, de facto, em alguns discursos sociais (muitas vezes, em rede) uma censura mais ou menos implícita a todos os modelos — leia-se: a todos os corpos — que não reproduzam padrões que foram tornados absolutos e, nessa medida, restritivos. Não se trata de um problema pueril. Não se trata de saber se Gisele Bündchen é "mais" ou "menos" bonita... Trata-se tão só de celebrar a pluralidade do factor humano, quer se exprima no feminino ou no masculino (ou ainda em qualquer matriz sexual que não caiba num sistema maniqueísta de figuração/pensamento do mundo à nossa volta).

C. Por vezes, o próprio mundo da moda tem sabido reagir à estreiteza dos preconceitos, em última instância favorecendo a proliferação possível de imagens que não esmaguem a identidade daqueles ou daquelas que mostram. Sob o lema #ImNoAngel, a campanha que a marca Lane Bryant tem desenvolvido em torno de corpos "atípicos" é, nessa perspectiva, exemplar — ou como a universalidade da lingerie feminina se pode dizer e mostrar de outro modo, evitando ilusões angelicais e sem deitar fora a palavra sexy.

Madonna & Akerlund

O teledisco de Ghosttwon é mais um exemplo brilhante da colaboração de Madonna com o realizador Jonas Akerlund — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Abril), com o título 'Madonna reinventa-se em cenário pós-apocalíptico'.

Há dias, Madonna esteve no programa da NBC, The Tonight Show, numa conversa com Jimmy Fallon, deambulando desde as singularidades do novo álbum Rebel Heart até à sua estreia como “profissional” de stand-up comedy. Com um guarda-roupa recheado de objectos metálicos, habitualmente associados ao rock mais hard, usava também rendas e meias que, afinal, evocavam a sua imagem de marca no começo da carreira, em meados da década de 80. Aliás, num delicioso exercício revivalista, Madonna, Fallon e The Roots (banda residente do programa) interpretaram uma divertida versão de Holiday, tema de 1983 agora recriado apenas com instrumentos utilizados no ensino infantil da música.
Todos estes elementos reflectem um método de trabalho que Madonna tem apurado e depurado ao longo dos anos, por certo adquirindo uma nova dimensão simbólica no interior do seu próprio envelhecimento (completará 57 anos no dia 16 de Agosto). Habitualmente reconhecida como protagonista de novas tendências, geradora de muitos efeitos de moda, ela só o é através de uma invulgar e inventiva capacidade de integração de elementos mais ou menos primitivos da cultura popular e, em particular, dos seus sistemas iconográficos.
O mais recente exemplo desse vai-vém está no magnífico teledisco de Ghosttown, divulgado também esta semana. A canção pode ser definida como a celebração de um par no cenário pós-apocalíptico da “cidade fantasma” a que se refere o título — a letra descreve os protagonistas como “duas almas” a sobreviver depois da destruição “total” (When it all falls down / We’ll be two souls in a ghost town).
Usando vestes de inspiração vitoriana, Madonna surge num cenário que, por calculado paradoxo, evoca componentes da ficção científica cinematográfica, por fim encontrando um homem (Terrence Howard, protagonista da série televisiva Empire) cuja ameaça se vai dissolver num súbito apelo à dança. Perpassa por Ghosttown um desejo de harmonia que, através da presença de uma criança, envolve a hipótese de reconversão do próprio espaço familiar (numa curiosa rima com o teledisco de Secret, dirigido por Melodie McDaniel em 1994). Mais do que isso: a paisagem urbana, mesmo em ruínas como aqui acontece, volta a emergir como cenário “natural” de Madonna.
Certamente não por acaso, o teledisco de Ghosttown tem assinatura do sueco Jonas Akerlund, tão importante na sua encenação como personagem urbana, desde logo nessa obra-prima que é o teledisco de Ray of Light (1998), numa performance a meio caminho entre o documental e o fantástico cujo tema é, afinal, a pulsação de uma grande metrópole. Akerlund filmou-a, por exemplo, em Music (2000) e Jump (2006), variações irónicas sobre os sinais da cultura urbana, sem esquecer que é também de sua autoria o prodigioso teledisco de American Life (2003), cuja versão original permanece “censurada” (embora disponível no YouTube). Madonna segundo Akerlund é, de uma só vez, uma figura realista e um fantasma errante — a cultura pop vive dessa ambivalência.

Jazz — à espera de Agosto

O Jazz em Agosto regressa à Fundação Gulbenkian e promete, uma vez mais, não desiludir (este ano começando ainda em Julho, no dia 31, e prolongando-se até 9 de Agosto). E vale a pena, destacar, desde já, duas especialíssimas presenças: Mats Gustafsson, saxofonista sueco de muitas e admiráveis transfigurações (estará em dois concertos, com formações distintas) e, sobretudo, o trompetista americano Wadada Leo Smith para interpretar The Great Lakes Suites, obra de fôlego sinfónico, visceralmente jazzística, que foi um dos grandes discos de 2014 — eis a faixa Lake Superior desse álbum.

quinta-feira, abril 16, 2015

Ilusão e felicidade [citação]

>>> A guerra de 1939 tinha um significado espiritual, tratava-se da liberdade, da salvaguarda de um bem moral, e lutar por algo com sentido torna o ser humano duro e decidido. A guerra de 1914, pelo contrário, nada sabia das realidades, estava ainda ao serviço de uma ilusão, do sonho de um mundo melhor, mais justo e mais pacífico. E só a ilusão, não o conhecimento, traz felicidade. Por isso as vítimas daquela época marchavam, ébrias de júbilo, para o matadouro, coroadas de flores e com folhas de castanheiro nos capacetes, e as ruas ressoavam e cintilavam como se de uma festa se tratasse.

STEFAN ZWEIG
in O Mundo de Ontem — Recordações de um Europeu

17 filmes na competição de Cannes

La Tête Haute, de Emmanuelle Bercot [foto], é o título escolhido para a abertura oficial, extra-competição, da 68º edição do Festival de Cannes (13/24 Maio) — o filme marca o reencontro da realizadora com Catherine Deneuve, dois anos depois de Ela Está de Partida.
A selecção oficial das obras que concorrem para a Palma de Ouro inclui 17 títulos, esperando-se que nos próximos dias sejam anunciados mais alguns (para um total de 20/22 filmes). São eles:

* The Assassin (Hou Hsiao-hsien, Taiwan)
* Carol (Todd Haynes, EUA-Reino Unido)
* Le Conte des Contes (Matteo Garrone, Itália-França-Reino Unido)
* Dheepan (Jacques Audiard, França)
* Le Fils de Saul (László Nemes, Hungria)
* The Lobster (Yorgos Lanthimos, Grécia-Reino Unido-Irlanda-Holanda-França)
* La Loi du Marché (Stéphane Brizé, França)
* Louder Than Bombs (Joachim Trier, Noruega-França-Dinamarca)
* Macbeth (Justin Kurzel, Reino Unido-França-EUA)
* Marguerite et Julien (Valerie Donzelli, França)
* Mia Madre (Nanni Moretti, Itália)
* Mon Roi (Maiwenn, França)
* Mountains May Depart (Jia Zhangke, China-Japão-França)
* Notre Petite Soeur (Hirokazu Kore-eda, Japão)
* The Sea of Trees (Gus Van Sant, EUA)
* Sicario (Denis Villeneuve, EUA)
* Youth (Paolo Sorrentino, Itália-França-Suíça-Reino Unido)

>>> Site oficial do Festival de Cannes.

quarta-feira, abril 15, 2015

Memórias de John Boorman

John Boorman é um dos grandes autores ingleses afirmados ao longo da década de 60: com Pela Rainha, ele prolonga as histórias que contou em Esperança e Glória (1987) — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 Abril), com o título 'John Boorman revisita memórias genuinamente inglesas'.

Quase um ano depois da sua apresentação na Quinzena dos Realizadores de Cannes, Pela Rainha, de John Boorman, chega às salas portuguesas. Não será, longe disso, um dos momentos altos de uma filmografia que inclui títulos tão famosos como Zardoz (1974) ou Excalibur (1981). Em todo o caso, este é mais um filme que, na avalancha de estreias que passou a ser uma dramática rotina semanal do mercado, corre o risco de passar completamente ignorado pelos seus espectadores potenciais.
Nascido em Shepperton, na região do Surrey, no ano de 1933, John Boorman constitui um dos mais eloquentes paradoxos da história moderna do cinema inglês. Por um lado, o seu nome pertence a uma brilhante geração (em que também encontramos, por exemplo, Tony Richardson, Richard Lester ou Ken Loach) que assumiu a bandeira do “novo cinema”, questionando os parâmetros tradicionais da produção do seu país e abrindo importantes vias de experimentação; por outro lado, alguns dos trabalhos mais fascinantes de Boorman — À Queima Roupa (1967), um thriller com Lee Marvin, e Fim de Semana Alucinante (1972), assombrosa tragédia em cenários naturais — resultaram do período em que esteve mais directamente inserido na produção de Hollywood. Pela Rainha representa um retorno à sua vertente especificamente inglesa, tanto mais que este é um filme que se assume como continuação de um outro, Esperança e Glória (1987), porventura o mais pessoal de toda a carreira de Boorman.
Integrando muitos elementos autobiográficos, Esperança e Glória centrava-se na experiência de um rapaz, Billy Rohan, e da sua família, durante a Segunda Guerra Mundial, em particular no período em que várias cidades inglesas foram alvo de bombardeamentos da aviação nazi. Pela Rainha reencontra a personagem de Billy (Callum Turner), cerca de dez anos mais tarde, agora a cumprir o serviço militar, enfrentando a possibilidade de ser mobilizado para combater na guerra da Coreia — a alusão à Rainha (título original: Queen and Country) decorre do facto de, por esta altura, mais precisamente a 2 de Junho de 1953, a família Rohan assistir pela televisão à coroação de Isabel II.
Infelizmente, o filme hesita entre a exploração de uma certa lógica melodramática, decorrente do amor platónico de Billy por Ophelia (Tamsin Egerton), e um tom de comédia que parece querer reduzir a vida militar a uma caricatura mais ou menos esquemática e previsível. É pena, tanto mais que há breves momentos em que pressentimos o notável sentido do espaço que distingue os melhores filmes de Boorman. Fica o calor de uma certa nostalgia, afinal indissociável da inscrição da acção na cidade do próprio Boorman: Shepperton é, de facto, o lugar de uma lendária estrutura de estúdios de cinema. Na cena de abertura, num pânico que depois se transfigura em ironia, Billy depara mesmo com um oficial nazi que, afinal, é apenas a personagem de um filme que está a ser rodado nas imediações de sua casa.

Tchekhov made in USA

Como "transpor" A Gaivota para a América dos anos 80? Eis o interessante desafio assumido pelo actor/argumentista/realizador Christian Camargo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 Abril).

Anton Tchekhov nos EUA? Em 1984? Com Ronald Reagan a fazer campanha para a sua reeleição? É verdade: Dias e Noites nasce do projecto de transpor as linhas gerais de A Gaivota (que Tchekhov escreveu em 1895) para uma paisagem rural americana, na Nova Inglaterra, observando as atribulações de uma família marcada por muitas clivagens de gerações, sensibilidades e valores.
ANTON TCHEKHOV
(1860-1904)
Não será por acaso que este é um projecto posto em marcha por um actor, Christian Camargo (nascido em Nova Iorque, em 1971), aqui a assinar o seu primeiro trabalho de realização (conhecemo-lo, por exemplo, de Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow, e também de séries como Dexter e House of Cards). Trata-se de explorar as mais discretas nuances das personagens, criando condições para os actores valorizarem os enigmas do texto, ao mesmo tempo expondo as singularidades de cada corpo, numa dinâmica em que a pose e o silêncio podem ser tão importantes como o fluxo da palavra.
Além de assinar o argumento, Camargo interpreta também uma das personagens. E conta com um leque invulgar de talentos, incluindo as veteranas Allison Janney e Cherry Jones, o bem regressado William Hurt, a admirável Juliet Rylance (mulher de Camargo na vida real) e ainda Katie Holmes, intérprete de delicadas subtilezas que não pode ser reduzida ao rótulo de “ex-mulher de Tom Cruise”.
Vale a pena acrescentar uma nota sobre a má recepção que, na sua estreia, Dias e Noites encontrou junto de alguns críticos americanos (leia-se o texto de Stephen Holden no New York Times, 25/09/2014). Desde logo, para lembrar que falar da “recepção da crítica” (seja a propósito de que filme for) é sempre um gesto mentiroso e demagógico: a “crítica” não é um rebanho de gente que pensa toda para o mesmo lado, estando marcada por muitas e significativas clivagens. Depois, para sublinhar o facto desconcertante de um filme tão enraizado em dois valores fulcrais do classicismo — o actor e a escrita do argumento — poder ser acusado de pretensiosismo. Memória, precisa-se.

SOUND + VISION Magazine — hoje na FNAC

O novo teledisco de Madonna, mais alguns filmes sobre as memórias da Segunda Guerra Mundial (incluindo Phoenix, de Christian Petzold) e a edição em DVD de E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto, são alguns dos temas para a sessão de hoje do nosso SOUND + Vision Magazine — é na FNAC do Chiado, às 18h30.


Percy Sledge (1940 - 2015)

Percy Sledge, o eterno cantor de When a Man Loves a Woman, faleceu no dia 14 de Abril, na sua casa de Baton Rouge, vítima de cancro no fígado — contava 74 anos.
Voz emblemática da soul e do R&B, ganhou fama internacional com When a Man Loves a Woman [video de uma performance televisiva], canção de Calvin Lewis e Andrew Wright gravada em 1966 em Sheffield, Alabama. Warm and Tender Love, It Tears Me Up e Take Time to Know Her são alguns dos outros títulos de sucesso da sua carreira de cerca de meio século. Curiosamente, When a Man Loves a Woman ganhou novo fôlego comercial depois da sua utilização na banda sonora de Platoon (!986), de Oliver Stone. Em 1989, recebeu o prémio de carreira da Rhythm & Blues Foundation, tendo dado entrada no Rock and Roll Hall of Fame em 2005.


>>> Obituário no New York Times.

7 x Oliveira (2)

ACTO DA PRIMAVERA (1963)
[ Douro, Faina Fluvial ]

Se há obra em que o povo existe como entidade, essa é, seguramente, a obra de Manoel de Oliveira. Nada a ver com altivez paternalista ou miserabilismo existencial: o que fascina Oliveira é a espessura simbólica das manifestações populares, enquanto fenómenos anteriores a qualquer formatação mediática. Acto da Primavera, sobre uma representação da Paixão de Cristo na Curalha, aldeia da zona de Chaves, constitui uma expressão modelar de tal postura estética e ética — por vezes, esquecemo-nos que as contaminações "documentário/ficção", tantas vezes assumidas como um sinal da agilidade do cinema digital, já estavam presentes neste filme de 1963. Aliás, pertence-lhe, por direito próprio, um lugar na dinâmica da modernidade europeia, a par de Belarmino (1964), de Fernando Lopes.

terça-feira, abril 14, 2015

Madonna e a crueldade

Este texto/imagem está no Instagram de Madonna — e o mínimo que se pode dizer é que não encontramos muitas vezes as ambivalências da exposição mediática ditas/figuradas com esta cruel contundência.
Em vez da lógica piedosa dos "famosos" — dizendo ao espectador: admirem-me —, este dispositivo não esconde que sabe que do outro lado há alguém a olhar, alguém aproximado pela dinâmica mediática, mas separado por infinitas diferenças de grau, sensibilidade e visão do mundo — estás a olhar para onde?
Encontrámos recentemente algo de semelhante no final de um episódio da série House of Cards, quando Kevin Spacey se vira para a câmara e pergunta: What are you looking at? (momento incluido no final deste trailer). São exemplos preciosos de linguagens que sabem que são... linguagens, recusando promover ilusões demagógicas de unanimismo. Não existem para reproduzir o mundo ou a ilusão da sua reprodução — refazem-no, criticam-no, rasgam uma crise na paisagem ilusória da comunicação global.
O que lemos quando dizemos que estamos a ler?

José James evoca Billie Holiday

Deixando em suspenso a sua identidade hip hop, José James integra-se nas comemorações do centenário do nascimento de Billie Holiday com um belo álbum: Yesterday I Had the Blues, uma genuína homenagem ao espírito da cantora, sem renegar um estilo muito próprio — eis o som de God Bless the Child e, em baixo, o trailer do álbum.



Günter Grass (1927 - 2015)

Nome fulcral da literatura alemã pós-Segunda Guerra Mundial, Günter Grass faleceu no dia 13 de Abril, em Lübeck — contava 87 anos.
Autor de títulos como O Tambor (1959), O Meu Século (1999) ou A Passo de Caranguejo (2002), deixa uma obra em que a temática da identidade da Alemanha é sempre central, em particular através da pesada herança do nazismo — foi distinguido com o Nobel da literatura em 1999. Eis o registo de uma entrevista, disponível na Net, em que a questão do empenhamento político do escritor, sempre ligada à sua responsabilidade história, emerge como fundamental na sua postura intelectual e artística; em baixo, o trailer inglês da adaptação cinematográfica de O Tambor, realizada em 1979 por Volker Schlöndorff.




>>> Obituário no New York Times.

domingo, abril 12, 2015

Laurent Lafitte, actor francês (2/2)

Marina Foïs e Laurent Lafitte
Laurent Lafitte é um actor do cinema francês que mantém uma relação forte com o teatro; como protagonista de Tal Pai, Tal Mãe, encontrou um registo de comédia que não é estranho a um certo realismo social — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Abril).


Cinematograficamente, vivemos numa paisagem informativa dominada pela ideia (?) segundo a qual o mercado só se agita quando estreia algum blockbuster de Hollywood que envolva muitos milhões e explosões. O primeiro resultado prático de tal regra é o desconhecimento da fascinante variedade do actual cinema americano. O segundo envolve algo de tristemente caricato: numa Europa tão dada a exaltações políticas da sua unidade, o cinema europeu é muitas vezes secundarizado (para não dizer ignorado) no espaço mediático.
Laurent Lafitte, talentoso actor francês, pode servir de sintoma das muitas coisas que, europeus por compulsão, não por convicção, tão mal conhecemos. Desde logo, uma tradição de representação que se cruza sempre com o teatro e que, para nos ficarmos por escassos exemplos, é indissociável da trajectória de nomes como Jean Gabin, Jean-Louis Trintignant ou Fanny Ardant. Depois, uma pluralidade de estilos e géneros que faz com que todos os clichés — desde o cinema francês a “imitar” constantemente a herança da Nova Vaga, até ao cinema francês “especializado” em Astérix — revelem o seu carácter inócuo.
A simpática comédia que é Tal Pai, Tal Mãe não será a via mais radical para pôr à prova todos os recursos de Lafitte. Talvez. Ainda assim, estamos perante um filme também ele empenhado em respeitar uma tradição que, através do humor, não perca o contacto com as convulsões do nosso presente (em particular o universo das relações familiares). Como diz o próprio Lafitte, fazer comédia é algo mais do que acumular “gags” — a comédia decorre de uma imensa disponibilidade para olhar o mundo à nossa volta. Afinal de contas, estamos a falar de uma história que envolve nomes como Fernandel, Louis de Funès, Bourvil, Michel Serrault e Jacques Tati.

Matt Damon e Ben Affleck na televisão

Ben Affleck e Matt Damon
23 Março 1998
É mais um caso sintomático da deriva de talentos cinematográficos para o espaço televisivo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Abril), com o título 'Hollywood na televisão'.

Tempos houve em que a actualidade do audiovisual era dominada por essa “coisa” esquisita que dá pelo nome de cinema. Eram, em particular, valorizadas as notícias de novas colaborações entre um determinado actor e um realizador, ou da reunião de uma grande estrela masculina com uma grande estrela feminina... Agora, a monotonia instalou-se e, na melhor das hipóteses, recebemos mails, dia sim, dia não, com novos cartazes, trailers ou teaser-trailers da mais recente produção da Marvel Studios, afogando o planeta inteiro através das peripécias que vai extraindo do seu baú de super-heróis...
As coisas mudam, como diria o grande David Mamet (que não é, definitivamente, o alter-ego de nenhum super-herói). E muitas notícias que envolvem, realmente, novos projectos artísticos de gente que associamos ao universo do cinema vêm do lado da... televisão. Uma das mais recentes possui um desconcertante valor simbólico. São seus protagonistas Matt Damon e Ben Affleck: a dupla de actores (sendo Affleck também realizador) vai partilhar a autoria do argumento de Incorporated, série futurista de espionagem destinada ao canal televisivo SyFy.
Na verdade, a posição de Damon/Affleck na linha da frente de Hollywood foi conquistada através do argumento: foram eles que escreveram o belíssimo Good Will Hunting/O Bom Rebelde (1997), de Gus Van Sant, trabalho que, aliás, lhes valeu o Oscar de melhor argumento original (eram também os nomes principais do elenco, juntamente com Robin Williams).
Que os encontremos, agora, a liderar um projecto especificamente televisivo, eis um sintoma esclarecedor de uma conjuntura em que as fronteiras práticas, técnicas e conceptuais são cada vez mais porosas. Escusado será dizer que tudo isso decorre de uma agilidade de produção que começa num entendimento da ficção televisiva que está muito para além da dependência financeira de formatos repetidos e repetitivos — é uma boa lição de abertura artística e, sobretudo, de saudável aposta na diversificação da oferta.