sexta-feira, maio 22, 2015

Cannes 2015 [assassina]

Na sua pose de elegante frieza, Shu Qi está no centro do filme de Hou Hsiao-Hsien, The Assassin. Que é como quem diz: esta é a história de uma assassina, educada para combater as forças da tirania na China do séc. IX. Filme histórico? Talvez, mas entendendo a história, não como algo que se ilustra, antes como a ilustração de uma perdição, a um tempo temática e formal. Para Hou Hsiao-Hsien, a história não é um "pano de fundo" das personagens, antes uma paisagem de coordenadas em permanente mutação, transformando o espaço e o tempo em vectores para lá de qualquer percepção realista — se o cinema pode redescobrir o seu primitivo poder encantatório, é através de filmes como The Assassin.

quinta-feira, maio 21, 2015

Cannes 2015 [China]

Através de títulos como Plataforma (2000), 24 City (2008) ou Histórias de Shanghai - Quem Me Dera Saber (2010), Jia Zhang-Ke tem sido um exemplar retratista da China, por assim dizer, forçando o realismo a integrar as perturbações de um delírio à beira do fantástico. No caso de Mountains May Depart, a sua solução tem tanto de observação metódica como de ironia política. Assim, seguimos as personagens principais (dois rapazes e uma rapariga) em 1999, celebrando as utopias do novo milénio, em 2014, reflectindo o presente da rodagem, e por fim em... 2025. O resultado é uma ficção científica em que a especulação, paradoxalmente, nunca abandona a mais rigorosa verosimilhança — a China como mãe silenciosa da angústia dos seus filhos.

Cannes 2015 [linguagem]

Admirável empreendimento: a partir das gravações da longa entrevista de François Truffaut a Alfred Hitchcock, na base de um dos mais lendários livros sobre cinema — cuja primeira edição, lançada em 1966, se intitulava Le Cinéma selon Alfred Hitchcock —, Kent Jones fez um documentário que, por assim dizer, aproxima as palavras ditas das cenas dos filmes de Hitchcock. Hitchcock/Truffaut resulta, assim, uma verdadeira lição de imagem e som, celebrando o cinema como linguagem, para mais contando com a colaboração de cinéfilos como Martin Scorsese, David Fincher, Richard Linklater, Arnaud Desplechin, Olivier Assayas, etc.

quarta-feira, maio 20, 2015

Cannes 2015 [Tristeza]

É mesmo com maiúscula: Tristeza é uma das personagens do novo filme dos estúdios Pixar, Inside Out, dirigido por Pete Docter. Faz parte de um quinteto de emoções — completado por Alegria, Medo, Repulsa e Raiva — que habita o cérebro da pequena Joy, tentando equilibrar as tensões do seu crescimento. Mesmo se o filme apresenta alguns desequilíbrios estruturais, não há dúvida que a sua ideia de base é muito sugestiva: as emoções são apresentadas como forças activas de uma espécie de central informática que, melhor ou pior, vai gerindo as atribulações de Joy. A Tristeza (com voz de Phyllis Smith) é um ser comovente que, mesmo contra sua vontade, pode contaminar qualquer evento... entristecendo-o — e derramando a sua cor azul nos outros elementos da memória cerebral. Resta saber porque é que, entre nós, o original Inside Out foi "traduzido" como "Divertida-mente" [estreia a 18 de Junho]. Porque não ter em conta o exemplo do francês Vice-Versa? Ou então recorrer a esse velho recurso que se chama tradução literal, intitulando-o "Dentro e Fora" — assim, é triste.

Cannes 2015 [mercado]

Foi Godard que o disse: os "mercados" são... pessoas; em vez de falar dos "mercados" como uma maldição sem rosto, é tempo de começar a falar das pessoas. Assim acontece em La Loi du Marché (à letra: "A Lei do Mercado"), o filme de Stéphane Brizé sobre um homem que, depois de um longo período de desemprego, tenta a sua sorte como vigilante de uma grande superfície. A questão é que as pessoas vivas são empurradas para relações impessoais, como a de falar para um computador (numa entrevista de emprego), numa cena gélida, filmada de um único ponto de vista — Vincent Lindon é notável e não deixa de ser irónico que o formato scope, nascido para exponenciar a trepidação do espectáculo, possa ser aplicado, assim, como janela para uma perturbante intimidade.

Barthes na "Télérama"

1. Veja-se o panorama das revistas de televisão em Portugal. Uma regular observação dos seus conteúdos e, em particular, das suas capas, conduz-nos a uma grande questão política (que a cobardia intelectual da nossa classe política continua a evitar): porque é que a cultura televisiva portuguesa existe, há décadas, submetida à ditadura da telenovela e ao culto indigente dos "famosos"?

2. Tem de ser assim? Não, não tem — tudo resulta de escolhas. Eis um belíssimo contra-exemplo: esta semana, em França, a Télérama, uma genuína publicação popular sobre televisão, destaca nada mais nada menos que o génio e, mais especificamente, a "lenda" de Roland Barthes (1915-1980), autor de livros como Mitologias e O Prazer do Texto. O pretexto são as comemorações do centenário de Barthes, em particular uma exposição na Biblioteca Nacional e a edição de uma monumental biografia assinada por Tiphaine Samoyault.

3. Não é uma questão de quotas, entenda-se. Não se trata de dizer que deve haver um número x ou y de capas sobre estes ou aqueles "temas". É uma questão de opções, justamente — há formas de cultura popular, ou melhor, modelos populares de cultura que não desistiram da pluralidade do mundo e, sobretudo, prezam a inteligência dos leitores, espectadores & cidadãos. 

Memória de Maria Nobre Franco

A notícia da morte de Maria Nobre Franco [DN] arrasta essa ilusão cruel com que observamos os que nos são queridos: ela era uma daquelas pessoas votadas à eternidade e, mesmo através de longas ausências, esperávamos sempre voltar a vê-la num encontro marcado ou apenas, algures, nos ziguezagues a que a agitação diária nos compele.
Não posso dizer que a conheci intimamente, nem tenho a pretensão de evocar aqui em pormenor a sua dedicação às artes, sua defesa e promoção, primeiro como fundadora e directora da Galeria Valentim de Carvalho, depois na direcção do Sintra Museu de Arte Moderna - Coleção Berardo. Conhecia-a através do Fernando Lopes que, com a objectividade que o distinguia, me explicava que a Maria pertencia, por direito próprio, à história do cinema português das décadas de 1960/70 e que, sem ela, nunca teria feito o seu filme Uma Abelha na Chuva (1972). E não esqueço que, amavelmente, acedeu a registar uma breve conversa comigo, no âmbito do trabalho para um filme sobre o Fernando.
Retenho, sobretudo, a sua alegria de ver e pensar. E o modo como daí emanava uma admirável capacidade de escuta, raridade sempre tocante e enriquecedora. Era uma daquelas pessoas que nos ajuda a olhar o mundo à nossa volta, ensinando-nos a não desesperarmos demasiado dos outros e também, talvez sobretudo, de nós próprios — sei que não a vou esquecer.

Cannes 2015 [Amy]

Não se pode dizer que o documentário Amy, sobre Amy Winehouse, seja um objecto de grandes revelações, muito menos de exaltação do escândalo. O mais impressionante no minucioso trabalho de Asif Kapadia é o facto de ele, em boa verdade, lidar com muitos materiais comuns ao jornalismo que usa e abusa da privacidade daqueles que "noticia". Ora, como se prova, nenhuma matéria informativa possui um sentido único que retire responsabilidade a quem a manipula. No caso de Amy, a reunião de uma incrível variedade de materiais — filmes de família, fotos, registos de concertos, etc. — é feita no sentido de celebrar a dramática pluralidade da pessoa retratada. Ou como a vida de uma das maiores cantoras das últimas décadas, herdeira legítima de Sarah Vaughan, foi escandalosamente breve.

terça-feira, maio 19, 2015

"Alphaville" faz 50 anos

Eddie Constantine + Anna Karina
Nos filmes cinquentenários do ano corrente, Alphaville, de Jean-Luc Godard, constitui um caso à parte: uma ficção científica feita a partir de linguagens do realismo a preto e branco — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Maio), com o título 'Meio século de memórias de Alphaville'.

Um lugar-comum muito popular insiste em proclamar que os críticos de cinema não gostam de filmes “de efeitos especiais”... Não valerá a pena gastar muito tempo com a sua desmontagem: os efeitos especiais não definem nenhum género específico e, além do mais, a sua associação a filmes de super-heróis das últimas duas décadas decorre de uma profunda ignorância histórica, quanto mais não seja porque, graças a Georges Méliès, a prática dos efeitos especiais tem mais de um século.
A própria consideração dos efeitos especiais como “geradores” de fantástico é ainda mais simplista. De facto, nenhuma nave espacial a atravessar o ecrã nem nenhum corpo digital mais ou menos monstruoso garantem qualquer “transcendência” narrativa.
Vem, por isso, a propósito citar um filme fascinante que aposta na criação de um ambiente fantástico a partir de técnicas tradicionalmente associadas ao mais estrito realismo. Está a passar meio século sobre o seu lançamento: Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard, é esse filme que nos projecta numa sociedade futura, com um sistema de controle dos cidadãos que, agora, seremos levados a classificar de ditadura mediática [Criterion].
JLG
Um dado essencial na concepção formal do filme foi mesmo a ausência de efeitos especiais. Dito de outro modo: a criação desse mundo futurista decorre de uma opção eminentemente realista. Como? Godard impôs ao seu director de fotografia, o genial Raoul Coutard, que filmasse sem iluminação complementar, quer dizer, tirando partido apenas das fontes de luz que existiam em cada cenário, exterior ou interior.
Havia uma razão técnica muito particular para o desafio de Godard. Assim, estavam a ser generalizadas películas a preto e branco cada vez mais sensíveis, permitindo registos (fotográficos e cinematográficos) em ambientes de fraca intensidade luminosa. A aposta consistiu em testar até ao limite as possibilidades dessas películas que permitiam até filmar dois rostos a partir do acender de um fósforo (coisa que, no filme, acontece mesmo).
Com Eddie Constantine no papel de Lemmy Caution, o agente do FBI criado pelo escritor Peter Cheyney, Alphaville evolui como um desconcertante filme “noir”. Por um lado, todos os ambientes são típicos de um período de acentuada renovação arquitectónica da cidade de Paris (também reflectido na obra-prima de Jacques Tati, Playtime, lançada dois anos mais tarde); por outro lado, a densidade e os contrastes das imagens geram uma sensação de ambígua proximidade carnal, sem que a história perca a sua dimensão de ficção científica.
No centro de tudo isto está Anna Karina, interpretando Natacha von Braun, uma mulher que ignora as significações da palavra “amor” e que Godard, em alguns planos que ganharam valor iconográfico, mostra a ler o livro de poemas Capitale de la Douleur, do surrealista Paul Éluard. Em última instância, Alphaville não é sobre o futuro, antes celebra os poderes intemporais da poesia. Não poderia ser mais especial.

Cannes 2015 [comboios]

JL
A gare de Cannes já não tem o apelo mitológico de um espaço antigo, acolhedor, porventura cinéfilo; aliás, as obras (muito incómodas) do ano passado ainda não estão concluídas. Em qualquer caso, a reconversão dos seus espaços e, sobretudo, da sua fachada pode fazer pensar em mundos mais ou menos alternativos, dramáticos ou melodramáticos — como num filme.

Cannes 2015 [Therese]

A história de Therese Belivet confunde-se com a saga estética de alguém que, mais do que fazer fotografia, se distingue como paciente, logo vulnerável, observadora do mundo e suas contradições. No princípio dos anos 50, o amor de Therese por Carol é vivido, por isso, como uma viagem de descoberta do mundo, afinal celebrando a irredutibilidade de cada ser como algo que transcende qualquer enquadramento familiar, social ou moral — Rooney Mara representa tudo isso com a precisão de um relógio humano, demasiado humano. Com este admirável Carol, o cinema de Todd Haynes regressa ao carácter mais visceral do melodrama. A saber: expondo o modo como cada um, ao fazer a (sua) história, nunca coincide por inteiro com os respectivos significados.

segunda-feira, maio 18, 2015

Cannes 2015 [Carol]

A história de Carol Aird confunde-se com uma saga familiar e legal, quer dizer, visceralmente política. Ou seja: no princípio dos anos 50, Carol ama Therese e isso não pode ser vivido sem prestar contas a um sistema de vida e pensamento que todos os dias distingue o sexo "puro" do sexo "impuro". Acontece que, ao filmar Carol (a partir do romance The Price of Salt, de Patricia Highsmith), Todd Haynes evita qualquer confusão com o formato do panfleto, fazendo um filme sobre a radicalidade sem nome que o amor instala nos equilíbrios instáveis do quotidiano. Mas então esta não é uma história de duas pessoas do mesmo sexo? Claro que sim. Mas, no limite, tudo se passa como se Carol e Therese pertencessem a um país para além do sexo.

Cannes 2015 [Moretti]

Ele é Nanni Moretti, mais uma vez actor num filme que realiza: Mia Madre narra a odisseia cúmplice de um homem e uma mulher, irmãos (ela é Margherita Buy), lidando com a certeza irreversível da morte da mãe. A imagem, no hospital, sob a limitada luz de um candeeiro, é exemplar do minimalismo de Moretti: uma colagem obsessiva aos elementos e gestos do quotidiano que, em todo o caso, nunca deriva para simbolismos fáceis, muito menos universais. Como sempre, Moretti filma essa muito humana insensatez com que procuramos dar sentido a tudo o que acontece nas nossas vidas — e também, cada vez mais, a capacidade de aceitação do sem sentido das coisas e da liberdade que, incautos, recebemos através de tão gloriosa imperfeição existencial.

Cannes 2015 [multidão]

JL
A barreira separa os carros que acabam de deixar os convidados no começo da passadeira vermelha da multidão que se agita em todos nas ruas e passeios. Mais de metade destas pessoas são curiosos que tentam vislumbrar alguma vedeta ou, erguendo cartazes individuais, perguntam se alguém tem um convite a mais... Por estas alturas, se um jornalista quer percorrer umas escassas centenas de metros (por exemplo, para ir do Palácio até à sala do Théatre Croisette), é melhor contar com sérias restrições de velocidade, uma avalanche de empurrões e sempre, algures, uma nova barreira policial que obriga a um desvio por uma das ruas perpendiculares à Croisette — o paraíso pode esperar.

Na morte de B. B. King

Com a morte de B. B. King (ocorrida a 14 de Maio, contava 89 anos), desapareceu a figura que, por certo de modo mais abrangente e universal, encarnava a tradição do blues — pelo domínio da guitarra, pela energia da voz, pelo carisma da presença. Com mais de quatro dezenas de álbuns de estúdio e um historial imenso de concertos, em que as suas qualidades musicais se combinaram com uma invulgar capacidade de comunicação com o público, B. B. King pertence, afinal, à nobreza da música de todas as origens e sensibilidades — aqui ficam três momentos emblemáticos das suas performances: Sweet Little Angel (registo de televisão, anos 60), Concerto em Dallas (1983) e The Thrill Is Gone (Festival de Montreux, 1993).






>>> Obituário no New York Times.

sábado, maio 16, 2015

Cannes 2015 [Ingrid]


No ano do centenário de Ingrid Bergman o rosto da atriz recebe-nos pelas ruas de Cannes. Não há loja, bar ou restaurante que não exiba o cartaz da 68ª edição do festival, dominado pelo branco, com a fotografia da atriz e discreto lettering a azul claro, os cartões de acreditação de jornalistas ou profissionais da indústria do cinema deixando claro quem pertence à multidão de forasteiros que cruza constantemente as artérias centrais de Cannes. Se as sessões de cinema se espalham por alguns lugares sobretudo entre a Croisette e Rue des Antibes - onde não deve haver loja conhecida que não esteja representada - há eventos em paralelo um pouco por todo o lado, de lançamentos de livros e edições em DVD a acções promocionais quanto baste. Aqui vemos Ingrid Bergman, numa das entradas do Palais (a que dá acesso à sala Debussy, para ser preciso).

Cannes 2015 [Auschwitz]

Espantoso actor: Géza Röhrig interpreta Saul Ausländer, um Sondkommander do campo de Auschwitz, quer dizer, um dos elementos da "elite" judaica que os nazis obrigavam às tarefas correntes da sua máquina de extermínio. No centro de Le Fils de Saul, ele representa a odisseia de alguém que, no meio do horror quotidiano, descobre o cadáver do seu próprio filho. Como descrever o filme do estreante húngaro László Nemes? Talvez começando por dizer que nele se evita a questão da própria "descrição" — esta é a saga terrível de um universo em que a crueldade do vivido está, momento a momento, colada ao silêncio definitivo da morte. Incluir Nemes no palmarés da 68ª edição do Festival de Cannes será, talvez, uma exigência cinematográfica e um gesto eminentemente político.

sexta-feira, maio 15, 2015

Cannes 2015 [Garrel]

Stanislas Merhar e Clotilde Courau definem um casal como qualquer outro... Porventura mais do que nunca, Philippe Garrel procura essa (aparente) banalidade como raiz do seu drama, a ponto de explorar em L'Ombre des Femmes (abertura oficial da Quinzena dos Realizadores) os lugares-comuns do mais básico machismo. Ironizando ou não com as palavras, podemos dizer que o seu cinema continua a mostrar que nenhum lugar é comum — a relação entre dois seres é uma arte pesada, sem determinismos fáceis, todos os instantes ameaçada pela derrocada. Enfin, l'amour — isto não é uma telenovela, podem crer.