segunda-feira, Julho 28, 2014

Ver + ouvir:
The New Pornographers,
War On The East Coast



Antecipação para o novo álbum dos New Pornographers, que tem data de lançamento agendada para finais de agosto.

Sound + Vision Magazine
hoje às 18.30 na Fnac Chiado


O Sound + Vision regresssa hoje à Fnac do Chiado para uma sessão que terá como prato principal um percurso através de filmes e discos que nos contam histórias de verão. Ao mesmo tempo haverá espaço para as novidades e aí não falta a presença de uma referência ao regresso de Perfume Genius. Os 50 anos de A Hard Day's Night, o primeiro filme dos Beatles, fazem as honras de encerramento da sessão.

Novas edições:
Hamilton Leithauser

“Black Hours”
Ribbon Music
4 / 5

Os The Walkmen anunciaram que iam entrar naquilo que descreveram como um “hiato extremo” em 2012. E, com a banda em modo de pausa, os músicos começam aos poucos a mostrar primeiros discos em nome próprio. Depois da estreia de Walter Martin e antes que chegue o álbum de Peter Mathew Bauer, cabe ao vocalista Hamilton Leithauser o momento para se apresentar a solo. Sem surpresa, os textos que têm falado deste seu (bem agradável) álbum a solo apontam a enorme dificuldade que naturalmente sentem os vocalistas para seguir caminhos claramente afastados daqueles que tomavam nas bandas às quais davam a voz, se bem que a veia mais rootsy que Jack White tomou depois dos White Stripes ou a nova demanda de John Grant pós The Czars mostrem que é possível experimentar ideias, umas mais próximas, outras mais distantes. Em Black Hours, apesar de sublinhar a versatilidade com que já tinha sabido abordar os diferentes caminhos ensaiados com os The Walkmen, Hamilton Leithauser foca parte significativa das atenções numa busca de fontes de inspiração num passado que aponta em vários instantes os seus azimutes aos anos 50, não pela via da cultura pop/rock, mas pelo terreno da canção de charme que então cabia às vozes dos grandes crooners. Sem mudar o registo vocal, Hamilton procura aí sinais e trilhos, que por exemplo o colocam no caminho de uma música orquestral herdada das lições de um Nelson Riddle ou Gordon Kenkins em 5AM, faixa que abre o álbum, optando por um registo mais discreto em St Mary’s County, balada onde a voz tem por companhia um piano e cordas (sintetizadas). O ponto alto da faceta 50’s do álbum mostra-se contudo no mais luminoso The Silent Orchestra, do qual sobressai um contraste maravilhoso entre as referências retro da composição (e de uma ideia de arranjos para cordas) com a estrutura claramente acompanhada por teclas, com travo solarengo a sorrir no final. O universo indie, onde os Walkmen ganharam notoriedade, não é esquecido, e as guitarras não deixam de ser parceiras na construção de algumas outras canções que fazem de Black Hours uma experiência onde sugestões de familiaridade e surpresa andam de mãos dadas (há até ecos bluesy rockabilly pelo caminho). Acrescentem-se ainda colaborações (bem consequentes) com nomes como Rostam Batmanglij, dos Vampire Weekend (que produz o disco e coescreve dois temas), Morgan Henderson dos Fleet Foxes ou Richard Swift dos The Shins, e encontre-se aqui a coleção de ideias e temperos que fazem de uma estreia a solo um momento que, mesmo com afinidades com a obra em banda que a precede, não lhe pede uma caução. Não sei quanto tempo durará o hiato, dos Walkmen, mas com Hamilton Leihauser a solo ganhamos mais um nome que vale a pena acompanhar.

Quem inspira Wes Anderson? (parte 1)


Numa altura em que esperamos pelo lançamento em DVD de Grand Bupapest Hotel entre nós, fica um olhar sobre o cinema de Wes Anderson, tendo por base o livro que olha para os primeiros 20 anos da sua carreira. Este texto é parte de um artigo originalmente publicado no suplemento Q. do DN com o título ‘Partir dos filmes para achar o seu cinema’.

Matt Zoller Seitz conheceu Wes Anderson há 20 anos. Foi em Dallas. Ele era então um jovem crítico de cinema a dar os primeiros passos e Wes tinha visto a sua primeira curta-metragem, Bottle Rocket (1994), ser aceite pelos programadores de um festival de cinema naquela mesma cidade texana. Matt escreveu na ocasião uma pequena crítica “positiva”, achando o seu estilo “suficientemente interessante” para, nos tempos que se seguiram, ter voltado a assinar novos trabalhos jornalísticos sobre Wes Anderson e o seu principal colaborador de então, Owen Wilson, quando tentavam desenvolver uma possível longa-metragem a partir dessa mesma curta inicial. Esse era um filme de 12 minutos, filmado a preto e branco em película de 16 mm e todo ele produzido em Dallas depois de Wes e Owen terem terminado os estudos na University of Texas, em Austin.

Matt e Wes voltaram a encontrar-se várias vezes. E num visionamento para a imprensa de Os Tennenbaums – Uma Comédia Genial (título original The Royal Tennembaums, de 2001) no New York Film Festival, Matt reparou inclusivamente que num dos planos exteriores, rodados em Brooklyn, a casa onde vivia com a sua família passou pelo olhar da câmara e, agora, ali estava para todos a verem no grande ecrã. Depois de Gostam Todos da Mesma (título original de Rushmore, filme de 1998) a relação do jornalista com o realizador tornara-se mais próxima mas, para a concretização deste volume que cruza imagens, ensaios sobre os filmes (até Moonrise Kingdom, o que deixa de fora o Hotel Budapeste (no original Grand Budapest Hotel, já estreado este ano) e uma entrevista por cada um dos títulos evocados, passaram 20 anos. Duas décadas de textos, filmes e contactos, o que não significa que o que aqui encontramos seja material de arquivo. Na verdade, Wes e Matt chegaram mesmo a fazer novas e mais extensas conversas que agora lemos como uma narrativa em continuidade. O conjunto, devidamente arrumado, e que o autor descreve como “uma digressão pela mente de um artista, tendo-o a ele mesmo como guia e companheiro” (1), dá-nos assim uma oportunidade de conhecer a fundo as referências, intenções, histórias de rodagens e marcas de personalidade de um realizador no pico da sua forma e ainda com muito para nos dar. Hotel Budapeste é por isso mesmo um primeiro exemplo de como, num futuro, haverá ainda histórias a acrescentar ao que aqui se conta e vê.

Com uma estrutura cronologicamente ordenada, tendo cada uma das longas-metragens de Wes Anderson como unidades temáticas (que assim arrumam também o evoluir dos tempos), o livro começa por evocar algumas das referencias que estruturaram o gosto e o interesse pelo cinema em Wes Anderson. O primeiro filme que viu, ainda em criança, foi um dos títulos da série ‘A Pantera Cor-de-Rosa’, e entre as memórias mais remotas junta ainda animações da Disney e The Apple Dumpling Game, western de 1975 de Norman Tokar com Don Knotts, do qual Wes “acha que gostava” (2) .

O passo seguinte, teria ele uns 11 ou 12 anos, corresponde à descoberta de Hitchcock em vídeo (tinha um sistema Betamax em casa), filmes dos quais diz que “a estrela estava por detrás da câmara” e que o impressionaram. A Janela Indiscreta tornou-se um dos seus preferidos, sobretudo pelo facto de nunca se sair do apartamento (e de tudo o que vemos partir do ponto de vista de quem ali está), mas também pela escrita e o elenco. Pouco depois foi com A Guerra das Estrelas (George Lucas, 1977) que deu por si a estudar um filme com mais atenção. E foi por essa altura que o interesse por ver cinema se cruzou também com o verbo “fazer”.

(1) in The Wes Anderson Collection, de Matt Zoller Seitz (Abrams, 2013), pag. 26
(2) ibidem, pág. 37

A caminho de 'Bilingual'


A chegada do álbum Bilingual, exercício de diálogo entre as linguagens da pop e da música de dança com os universos da cultura latina, anunciou-se em abril de 1996 ao som de Before, single dos Pet Shop Boys que na essência procurava assimilar uma matriz rítmica escutada na house. No lado B surgiram os inéditos The Truck Driver and His Mate e Hit and Miss. O single teve grande impacte na tabela de música de dança dos EUA, que chegou a liderar.

Para ler: as novidades do Comic-Con 2014

O Guardian acompanhou a par e passo algumas das apresentações, entrevistas e painéis de discussão do Comic-Con 2014 que decorreu nos últimos quatro dias em San Diego.

Podem ler aqui várias notícias e reportagens.
E aqui podem consultar o que aconteceu, através do site oficial do Comic-Con.

Para ouvir: o 'Song Reader' de Beck
por vozes que não chegaram ao disco



Esta semana chega a disco o Song Reader, álbum que Beck originalmente editou apenas como partitura. E ao mesmo tempo que ouvimos as canções por vozes profissionais, esta semana escutamos algumas das muitas gravações que, desde que apresentadas as canções, foram chegando à Internet. Esta é uma delas, assinada por Greg Dember, de Seattle.

A IMAGEM: Chris von Wangenheim, 1977

CHRIS VON WANGENHEIM
Lisa Taylor (Dior)
1977

domingo, Julho 27, 2014

Pedagogia da fala

Chama-se Talk Read Sing. Apoiada, entre outras entidades, pela Associação Americana de Pediatria e a Fundação Clinton, é uma organização apostada em promover o diálogo com as crianças como um vector essencial da sua educação e desenvolvimento intelectual. Atitude pedagógica, sem dúvida, para os filhos e, por certo, também para pais e educadores — num mundo saturado de imagens, importa não abdicar das palavras, da fala, do seu poder de comunicação e da sua inteligência.
Com direcção de Nick Klinkert, e chancela da agência Goodby Silverstein & Partners, eis dois spots de divulgação da Talk Read Sing: o primeiro, curtíssimo, é uma simples e luminosa obra-prima de elogio da comunicação; o segundo, em dois minutos, explica os objectivos e a actividade da organização.



A IMAGEM: Tim Walker, 2013

TIM WALKER
Tilda Swinton
2013

1981-1984: memórias da sida

Um grande filme, sem dúvida um telefilme, marca a actualidade da televisão em Portugal: Um Coração Normal, de Ryan Murphy, revisita os anos dramáticas de descoberta da epidemia da sida — esta crónica de televisão foi publicada na "Notícias TV", do Diário de Notícias (25 Julho), com o título 'Outras memórias da sida'.

Será que as televisões generalistas perderam a capacidade de criar genuínos acontecimentos sociais a partir da ficção... televisiva? Não há, por certo, uma resposta global e definitiva, mas é um facto que algumas das mais importantes produções televisivas dos nossos dias tendem a ser relegadas para horários noctívagos ou, então, apenas surgem nos canais de cabo. Um Coração Normal, de Ryan Murphy, aí está como um significativo exemplo desses desequilíbrios — o filme estreou no TVCine e não será exagerado considerar que se trata, desde já, de um dos acontecimentos maiores do ano televisivo.
É um objecto de televisão, de facto. Tem chancela da HBO e, no seu elenco, conta com nomes tão conhecidos como Mark Ruffalo (nomeado para um Oscar, em 2011, por Os Miúdos Estão Bem), Taylor Kitsch (protagonista de John Carter, superprodução dos estúdios Disney, que já trabalhou sob a direcção de Oliver Stone, em Selvagens) e Julia Roberts. O realizador está ligado à criação de séries tão populares como Nip/Tuck e Glee. Além do mais, um dos produtores dá pelo nome de Brad Pitt, já que a sua empresa Plan B está também envolvida no projecto.
Larry Kramer
Estamos perante a adaptação da peça homónima de Larry Kramer estreada em 1985 (título original: The Normal Heart), por certo um dos textos mais radicais, e também mais representados em palcos de todo o mundo, sobre os primeiros anos da sida. Mais concretamente, a acção situa-se em Nova Iorque, entre 1981 e 1984, e centra-se na personagem de Ned Weeks (Ruffalo), escritor e activista homossexual com um papel determinante na militância para a criação de condições — científicas, sociais e morais — para enfrentar a doença.
São memórias contundentes e desencantadas, cujas ressonâncias autobiográficas o próprio Kramer é o primeiro a reconhecer. Trata-se, sobretudo, de uma visão que dispensa qualquer paternalismo ou piedade, colocando em jogo a vergonhosa indiferença dos poderes políticos, tanto quanto a discussão das contradições ideológicas no interior da comunidade gay. Não é todos os dias que a televisão consegue ser tão rica de ideias e emoções.

>>> Produzido a pretexto do lançamento de Um Coração Normal,  este video da MSNBC, datado de 23 de Maio, inclui um precioso documento: uma entrevista televisiva de Larry Kramer, em 1983.

Uma estreia na vida de 'West Side Story'

Foto: Art Streiber / San Francisco Symphony
A San Francisco Symphony, sob direção de Michael Tilson Thomas, acaba de editar uma gravação histórica de West Side Story, musical com música de Leonard Bernstein e libreto de Stephen Sondheim (e na origem também uma célebre – e premiada – coreografia de Jerome Robbins). Trata-se do registo da primeira versão de concerto apresentada desta obra que vai a caminho dos 60 anos de vida.

Quando tinha 14 anos o jovem Michael Tilson Thomas recebeu de presente uma gravação de West Side Story... Não era bem o que queria escutar na altura e, na loja de discos, trocou o LP por gravações de obras de Berg. O tempo colocaria a música de Leonard Bernstein a cruzar-se com a sua vida em várias ocasiões, do dia em que pintou um apartamento (precisamente ao som de West Side Story) ao encontro, com orquestra, com a suite que o compositor desenvolveu a partir das danças sinfónicas criadas para este mesmo musical. Agora coube-lhe um episódio marcante na história desta obra (há quem diga a maior) de Bernstein. Desde que estrada em palco em 1957 (e com expressão no cinema em 1961), West Side Story conheceu várias produções em palco. Mas nas salas de concerto a sua presença foi ficando por conta das ‘danças sinfónicas’. Até que, no ano passado, todos os detentores dos direitos da obra concederam ao maestro e à San Francisco Symphony que dirige, a honra de apresentar pela primeira vez a versão de concerto de toda a obra. E é assim que surge este disco.

A história das gravações de West Side Story é também ela essencialmente feita das gravações de algumas das produções levadas a palco, às quais se junta a das vozes que escutámos na versão cinematográfica e uma outra, então entendida como “definitiva” dirigida em estúdio pelo próprio Bernstein, com José Carreras e Kiri Te Kanawa como protagonistas. O West Side Story, que Tilson Thomas agora apresenta na editora da própria San Francisco Symphony, é não apenas um momento histórico na vida desta música, como representa uma interessante procura de uma aproximação às raízes teatrais da obra, o que não deixa de ser curioso sendo que representa, depois da abordagem de Bernstein para a Deutsche Grammophon em 1984, uma leitura assinada por uma orquestra... clássica. As diferenças entre esta nova gravação e a de Bernstein encontram-se por um lado na dimensão da orquestra, com substancialmente mais cordas que o ensemble reunido em estúdio que procurava simular o que seria o volume de músicos possíveis de juntar num fosso de orquestra, distribuindo-se também os sorpros por mais instrumentistas (nas versões em palco há casos de duplicações, ou seja, músicos que têm de fazer mais que uma das partes, por vezes até de mais que um instrumento). As vozes, que Bernstein em 84 procurou no mundo do canto lírico (e de estrelas do catálogo da editora), são aqui entregues a atores-cantores, também eles contudo de estudos feitos e vozes absolutamente notáveis. E assim, mesmo a caminho dos 60 anos de vida, esta adaptação da alma conflituosa do velho romance de Romeu e Julieta às ruas da Nova Iorque de meados dos anos 50 respira ainda o mesmo viço que fez dos Jets e dos Sharks os gangues mais musicalmente ginasticados da história.



Vídeo com imagens de concerto e entrevistas com alguns dos cantores e com o maestro Tilson Thomas.

O single esquecido de 'Let's Dance'


O quarto single extraído do álbum Let’s Dance teve apenas edição nos EUA, Japão, Espanha e Holanda e surgiu em novembro de 83 (mas passou a leste das atenções). A canção escolhida foi Without You, um momento pop mais suave que os episódios de alma white funk que o álbum deixou na história. No lado B surgia Criminal World, outro tema do álbum de 1983. A capa apresenta um desenho de Keith Haring.

Para ler: uma reflexão sobre 'Twin Peaks'

O site da BBC lança uma questão: o que fez de Twin Peaks, a série criada por David Lynch nos anos 90, algo tão bom? De facto é um dos casos maiores da história da ficção televisiva. E aqui tentam explicar o que fez com que tudo ali resultasse  tão bem...

Podem ler (e ver) aqui.

Mais um "lyric video" de Katy Perry

Já foi há quase um ano: para lançar Roar, primeiro single do seu quarto álbum de estúdio, Prism, Katy Perry propunha um sofisticado lyric video, afinal demonstrando que a "ilustração" das canções através das respectivas letras podia ser um género com vida própria. Em boa verdade, de Prince a Bob Dylan, passando por Alicia Keys ou Green Day, os exemplos reunidos ensinavam-nos que a (i)materialidade da escrita se dava bem com os registos da cultura pop no audiovisual contemporâneo.
Katy Perry reincide, agora, com o quinto single de PrismThis Is How We Do aí está, num brilhante lyric video que tem tanto de nostalgia figurativa como de celebração das infinitas transfigurações da imagem. Afinal, nunca saímos da história dos telediscos.

sábado, Julho 26, 2014

1921, Ellis Island (2/2)

A chegada dos emigrantes a Ellis Island, no porto de Nova Iorque, é revisitada por James Gray num filme que evoca a saga de uma mulher polaca que desembarca nos EUA, em 1921 — esta crítica integrou um dossier sobre A Emigrante, publicado no Diário de Notícias (24 Julho).

[ 1 ]

Não é fácil lidar com o cinema de James Gray. Por uma razão que, sendo de natureza formal, acaba por ser contratual. Neste sentido: construir um filme — em boa verdade, qualquer narrativa, nem que seja o alinhamento de um jornal televisivo — é estabelecer um contrato com o espectador. Em sentido literal: define-se uma lógica de apresentação de factos e temas; estabelecem-se padrões de verdade e critérios de verosimilhança; enfim, conduz-se o espectador para um lugar em que tudo isso adquira algum sentido, ainda que ambivalente ou efémero.
Pois bem, Gray, há que reconhecê-lo (com respeito e admiração), possui uma ambição desmedida. E ao contar a história de Ewa, a mulher polaca que chega, desamparada, aos EUA, em 1921, A Emigrante é um filme que está muito longe de se satisfazer com uma mera lógica de “crónica” histórica. Mais do que isso: Gray parece querer situar-se como discípulo dos grandes épicos romanescos de Hollywood, de Griffith a Minnelli, de Way Down East (1920) a Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (1962), propondo uma deambulação com tanto de mergulho na intimidade das personagens como de parábola sobre o destino de toda uma nação.
Tudo se complica a partir do momento em que Gray vai sujeitando as suas personagens a uma espécie de demonstração simbólica em que o determinismo dramático pesa mais do que a singularidade das emoções. É um facto que A Emigrante conta com a prodigiosa Marion Cotillard, uma actriz que resiste a qualquer unicidade emocional — nela, cada gesto parece conter ou sugerir a coabitação com o seu oposto, emprestando-lhe uma vulnerabilidade comovente e rara. Mas é difícil não experimentar a sensação de que o realismo cru que Cotillard sabe trabalhar, afinal, é um dado secundário no programa estético de James Gray.

Jodie Foster dirige George Clooney

George Clooney vai filmar sob a direcção de Jodie Foster, protagonizando Money Monster, um thriller centrado numa figura muito popular da televisão — a história desenvolve-se através de um homem que, depois de ter perdido todas as suas acções, transforma o apresentador de um show em refém, ameaçando matá-lo se não lhe for devolvido o seu dinheiro antes do fecho da bolsa...
Será a quarta longa-metragem dirigida por Foster, depois de Mentes que Brilham (1991), Fim de Semana em Família (1995) e O Castor (2011). Money Monster tem argumento de Jamie Linden, que escreveu e realizou 10 Years (2011), comédia dramática inédita entre nós — eis o respectivo trailer.

Ryan Adams no Newport Folk Festival

FOTO: Adam Kissik / NPR
Antes mais, uma confirmação: o 14º álbum de estúdio de Ryan Adams surgirá na Europa a 8 de Setembro: chama-se apenas Ryan Adams e tem chancela da sua editora, PAX AM. Interpretando alguns dos novos temas [video amador: My Wrecking Ball], cruzados com canções mais antigas, Adams protagonizou um excelente concerto no Newport Folk Festival — vale a pena escutá-lo, na íntegra, nas páginas da NPR.

O cinema visto de Tavira

Biblioteca Muncipal Álvaro de Campos — TAVIRA
Como se vê cinema para além de Lisboa e Porto? Por vezes, a pergunta surge formulada de forma cruel: como não se vê cinema em Portugal?
Ou seja: continuam a existir muitos desequilíbrios entre litoral e interior, entre algumas cidades (e vilas!) e entre quase todas as regiões. Ora, como é óbvio, felizmente, os cinéfilos estão em todo o lado e querem... ver filmes! É disso que nos dá conta José Couto, de Tavira, referindo a dificuldade de, por vezes, encontrar um filme "digno de ser visto" — agradeço as suas palavras e também o facto de ter acedido a que publicássemos a nossa troca de ideias.

Olá, caro João,

Há algum tempo, o João escreveu na «Metropolis»: "onde estão os espectadores que queiram ser... espectadores?".
Pois eu, que vivo em Tavira, respondo com outra pergunta: gostaria muito de ser "espectador", mas como posso sê-lo se se passam semanas sem que nas cinco salas de cinema do centro comercial da cidade surja um único filme que considere digno de ser visto?
Adoraria ver, entre muitos outros, Her, Debaixo da Pele, Grand Budapest Hotel, O Homem Duplicado, A Imagem que Falta ou O Acto de Matar, porém, não consigo, pois esses filmes não são exibidos no Algarve — para tal, teria que me deslocar 320 km (para Lisboa)...
Portanto, como vê, não é pelo preço dos bilhetes, nem pelos filmes estarem na Internet (abomino ver filmes num ecrã de computador), que não sou o "espectador" de que fala...
Um forte abraço,

J. C.

Caro José Couto,

Só posso concordar consigo: a decomposição da rede tradicional de distribuição/exibição do cinema é um facto que, em Portugal, tem arrastado muitas e dramáticas consequências.

O texto que refere não pretendia mascarar esse problema fulcral. Aliás, melhor ou pior, tenho tentado ao longo dos anos reflectir sobre ele. Permito-me recordar três dos mais recentes artigos que escrevi sobre a pluralidade de questões que o assunto envolve:


O que estava em causa no meu texto na "Metropolis" era algo de mais básico. A saber: num mercado que nem sempre atende à procura dos seus espectadores, será que ainda há espectadores que queiram (e exijam) outros comportamentos do próprio mercado? A sua resposta positiva, e pela positiva, leva-me a pensar que nem tudo está perdido.
Obrigado, volte sempre,

J. L.

Música para um homem do futuro


Esta semana os Pet Shop Boys apresentaram no Royal Albert Hall uma biografia musical de Alan Turing, integrada na programação dos Proms. Este texto é uma versão alargada de um artigo publicado na edição de 25 de julho do DN.

Uma biografia musical com a figura de Alan Turing como protagonista apresentada esta semana representou um dos momentos altos da programação dos Proms, série de concertos que anualmente ocupam uma etapa da programação de verão de concertos de música clássica Londres (tendo o Royal Albert Hall como o seu principal palco). Com o título A Man From The Future, o musical tem como autores os Pet Shop Boys e assinala mais um momento de cruzamento de experiências entre formas habitualmente mais habitadas pela música clássica com figuras com carreira sobretudo feita nos domínios da música popular, juntando-se assim a óperas recentes de nomes como os The Knife, Damon Albarn (a solo ou com Jamie Hewlett), Herbert ou Rufus Wainwright.

Célebre por ter decifrado códigos encriptados dos alemães durante a II Guerra Mundial, o matemático Alan Turing (1912-1954) ficou também na história como vítima de um tempo em que a homossexualidade era criminalizada no Reino Unido, tendo sido sujeito a castração química como alternativa à prisão na sequência de um processo judicial que o acusou de indecência em 1952. Gordon Brown concedeu-lhe um pedido póstumo de desculpa em 2009, ao que se seguiu, já em finais de 2013, um perdão assinado por Isabel II.

Os Pet Shop Boys, que ao longo da sua carreira criaram já dois musicais, uma banda sonora alternativa para o filme mudo Couraçado Potemkin de Sergei Eisenstein e assinaram a música de um bailado, tomaram consciência da história de Turing nos anos 80, através da peça de teatro Breaking the Code. O interesse foi reativado em 2011 por um documentário televisivo, que os levou à biografia Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges.

The Man From The Future, que se apresenta como uma biografia musical em oito partes para orquestra, electrónicas, coro e narrador, nasceu de uma colaboração com este seu biógrafo, que contactaram e que colaborou na escrita do libreto. O perdão real para Turing levou-os a reescrever o final da obra, refletindo o final da peça (sob um aparato musical épico) que Turing foi uma exceção e que há ainda muitos outros condenados, alguns ainda vivos, à espera de igual pedido de desculpa.

A BBC (que programa e transmite os Proms) resolveu incluir este trabalho dos Pet Shop Boys como um dos Late Night Proms deste ano, sendo que não é a primeira vez que há músicos vindos de terrenos pop/rock a surgir no programa (essa estreia coube, em 1970, aos Soft Machine – estando documentada em álbum ao vivo editado em 1988). Além do musical sobre Turing, o ‘Prom’ dos Pet Shop Boys juntou ainda quatro canções suas (Vocal, Love is a Catastrophe, Later Tonight e Rent) em arranjos orquestrais de Angelo Badalamenti, na voz de Chrissie Hynde e a interpretação da abertura de Performance, o espetáculo que levaram em digressão em 1991.

Alan Turing
Se mediaticamente Alan Turing é lembrado por ter decifrar códigos durante a II Guerra Mundial – facto que parece estar no centro das atenções de The Imitation Game filme de Morton Tyldum e protagonizado por Benedict Cumberbatch que terá estreia em outubro no festival de Londres - o trabalho deste matemático britânico na verdade teve uma importância profunda na teoria da computação e inteligência artificial. O seu trabalho na descodificação de códigos dos alemães valeu de Churchill um elogio que nele apontou um dos mais importantes contributos individuais para a vitória aliada. Depois da guerra desenvolveu importante trabalho científico no National Physical Laboratory, tomando depois um lugar na Universidade de Manchester. Menos de dois anos depois do julgamento que o obrigou a uma castração química (sob acusação de homossexualidade), Turing morreu em 1954, com apenas 41 anos (por envenenamento com cianeto), não sendo unânime que se tenha tratado de um suicídio. Desde 1966 é anualmente entregue o Turing Prize para assinalar contribuições técnicas e teóricas na ciência da computação.


Quando a música lembra homens da ciência

A biografia musical de Alan Turing apresentada esta semana em Londres pelos Pet Shop Boys é mais um exemplo de atenção de peças musicais que tomam figuras da ciência e o seu trabalho como inspiração. Aqui ficam mais alguns exemplos:

Philip Glass. Einstein on The Beach é um dos exemplos de obras do compositor norte-americano que tomam uma figura da ciência por protagonista. Estreada em 1976 esta ópera é uma referencia na história da música do século XX. Mais recentemente Glass dedicou também óperas a figuras como Johannes Kepler e Galileu Galilei. Respetivamente ligadas a estes dois últimos, as óperas Kepler e Galileu Galilei foram já editadas em disco (Kepler tendo conhecido também lançamento em DVD).

John Adams. À exceção de A Flowering Tree, as óperas já apresentadas por John Adams têm focado factos e figuras reais do século XX, como a visita de Nixon à China em 1972 ou o assalto ao navio Achille Lauro na década de 80. Em Dr. Atomic (estreada em 2005) evocou a figura de Oppenheimer numa narrativa que tinha por cenário a base de El Alamo na véspera do primeiro teste nuclear.

The Knife. A dupla sueca The Knife iniciou a sua carreira na pop electrónica. No seu álbum mais recente apresentaram uma faceta ativista focada em questões como a identidade de género ou a divisão mais justa da riqueza. Em Tomorrow In a Year (2010) experimentaram o espaço da ópera tendo então focado a vida e o pensamento de Darwin.

Kraftwerk. A música pop já passou muitas vezes por figuras da ciência. Einstein, por exemplo, foi abordado pelos Landscape em Einstein a Go Go e os Big Audio Dinamyte em E=mc2. Em Radioactivity (1975), tema-título do álbum que sucedeu ao historicamente marcante Autobahn, os Kraftwerk citam as figuras de Pierre e Marie Curie.

15 anos da "Vogue" Japão

A arte da pose como exercício de transfiguração do corpo, seu desmembramento simbólico e paciente reinvenção iconográfica. Ou seja: Stephanie Seymour fotografada por Luigi & Iango. Mais precisamente: esta é uma das admiráveis imagens que integram um portfolio de comemoração dos 15 anos da edição japonesa da revista Vogue. Além de Seymour, estão também presentes outras figuras emblemáticas da história das supermodels: Claudia Schiffer, Linda Evangelista, Nadja Auermann e Naomi Campbell.

sexta-feira, Julho 25, 2014

"Hunger Games" — que futuro?

Os cartazes do novo capítulo da saga "Hunger Games" — The Hunger Games: Mockingjay - Part 1, a estrear entre nós como The Hunger Games: A Revolta - Parte 1 (27 Nov.) — apresentam uma espécie de pós-apocalipse punk que vale a pena descobrir. Dir-se-ia que a noção niilista, no future, adquiriu uma componente kitsch, porventura chique, que nos leva a consumir a possibilidade de deixarmos de existir como comunidade com a serenidade de quem volta a contemplar uma ambígua hipótese de sagrado. Perverso tempo, este em que vivemos, desfrutando os sabores da nossa própria perdição.

>>> Site oficial de The Hunger Games.

1921, Ellis Island (1/2)

A chegada dos emigrantes a Ellis Island, no porto de Nova Iorque, é revisitada por James Gray num filme que evoca a saga de uma mulher polaca que desembarca nos EUA, em 1921 — este texto integrou um dossier sobre A Emigrante, publicado no Diário de Notícias (24 Julho).

Por vezes, há filmes que têm de vencer uma espécie de maldição comercial. Por um lado, parecem reunir as componentes temáticas e artísticas susceptíveis de mobilizar públicos muito diversos; por outro lado, vão ficando “adiados” nos labirintos do mercado, como se ninguém soubesse como promovê-los junto dos potenciais espectadores. É o caso de A Emigrante, com assinatura de James Gray, para muitos um autor de culto da produção americana das últimas duas décadas.
Estamos perante um épico sobre a emigração para os EUA que teve o seu lançamento na prestigiada secção competitiva do Festival de Cannes de 2013. Além do mais, A Emigrante apresenta um elenco de luxo, liderado pela francesa Marion Cotillard, contracenando com Joaquin Phoenix e Jeremy Renner. O certo é que, nos meses a seguir ao certame, o filme (genericamente recebido em Cannes com admiração, mas sem grandes entusiasmos) apenas estreou na França, Bélgica e Luxemburgo, só começando a surgir noutros países a partir dos primeiros meses de 2014. Nos EUA, o distribuidor (The Weinstein Company) foi mesmo protelando o lançamento, concebeu uma campanha com novos cartazes e só o colocou nas salas no mês de Maio, precisamente um ano depois da passagem em Cannes. Portugal é um dos derradeiros países a lançar A Emigrante, antecedendo apenas o Brasil (em Setembro).
Será que podemos deduzir que o próprio tema do filme o tornou um insólito alien da actual produção americana? Provavelmente, a resposta é afirmativa. De facto, não se pode considerar que a evocação da chegada dos europeus a Ellis Island, em Nova Iorque, lendária porta de entrada nos EUA, seja um assunto corrente de um cinema que, para o melhor e para o pior, tem vivido marcado pelo domínio dos blockbusters, quer de super-heróis, quer de aventuras de animação.
Ewa (Cotillard), a personagem central do filme de Gray, não é uma super-heroína nem, muito menos, uma princesa dos desenhos animados. Quando chega a Ellis Island, em 1921, proveniente da Polónia, acompanhada pela irmã (Angela Sarafyan), Ewa só consegue ser aceite no país porque um protector “espontâneo”, Bruno (Phoenix), suborna um oficial da polícia. A partir daí, Ewa, Bruno e o seu primo Emil (Renner), que ganha a vida com espectáculos de ilusionismo, vão definir um triângulo amoroso, ou melhor, potencialmente trágico.
E se é verdade que A Emigrante se apresenta como um testemunho sobre as atribulações de uma época marcada por muitas formas de violência, não é menos verdade que Gray vai deslizando para a contemplação dos seus três protagonistas, aliás de acordo com uma lógica romanesca que já marcou alguns dos seus títulos anteriores — Duplo Amor (2008) poderá ser um significativo exemplo, curiosamente também com Joaquin Phoenix, contracenando com Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw. Em qualquer caso, foi o próprio Gray que afirmou que, até à data, A Emigrante é o seu filme “mais pessoal e autobiográfico”, inspirando-se na história dos seus avós, “chegados aos EUA em 1923”.

Ver + ouvir:
Spoon, Do You



Em poucos dias os Spoon lançaram dois telediscos para temas do seu novo disco. Este integra uma série da Urban Oufitters e foi realizado por Hiro Murai.

Três meses, três discos (singles)


Muitos singles ganharam vida no segundo trimestre de 2014. A escolher três as opções apontam assim ao magnífico Song For Five & Six, de Owen Pallett, que se apresentou há algumas semanas como cartão de visita para a chegada do álbum In Conflict. As escolhas do que de melhor ouvimos em formato de single neste trimestre passam ainda por Flaws, também um aperitivo, mas para o novo álbum dos Fujyia & Myiagi. E ainda por Cristina, a canção que anunciou a 45 rotações a chegada do álbum de estreia dos Teleman.

Além de muitos outros singles de muitos outros álbuns, vale a pena assinalar ainda, entre a produção extra-álbum deste trimestre a chegada de um EP cantado em italiano por Rósin Murphy, o flirt retro de Herbert em Part 6 e ainda um EP de remisturas dos suecos The Knife.

Reedições:
Frank Sinatra

“Frank Sinatra Sings For Only The Lonely”
Black Coffee
5 / 5

Na sequência de álbuns orquestrais como In The Wee Small Hours (1955) e Where Are You? (1957), Frank Sinatra projetou a criação de um novo disco de baladas, opção mais que certa num momento de absoluta forma vocal (nascendo entre estes discos e alguns que gravaria nos anos 60 algumas das obras mais marcantes da sua discografia). Sinatra procurava aqui trabalhar com Gordon Jenkins (com quem gravara o disco de 57 e com quem trabalharia, pouco depois, no sublime September of My Years), mas da impossibilidade de disponibilidade na agenda deste arranjador e maestro, acabou por voltar a Nelson Riddle, com quem assinara vários outros momentos, entre os quais o álbum de 1955 que representa o primeiro dos discos orquestrais desta etapa da sua carreira. Claramente marcado pela perda recente da mãe e uma filha, Riddle projetou entre os arranjos e direção de orquestra das canções de Frank Sinatra Sings For Only The Lonely um sentido de assombrada melancolia que se fez perfeito cenário para a voz de Sinatra gerando aquele que muitas vezes é apontado como o melhor dos seus (muitos) discos. Esta nova edição, que chega numa altura em que o acervo que gravou para a Capitol ganha novos lançamentos, surge acompanhada por um booklet de 12 páginas com um texto que contextualiza o álbum na história artística de Frank Sinatra.

Os primeiros passos de Elvis Presley
na edição deste mês da 'Blitz'

Blitz
Chega hoje às bancas a edição de agosto de 2014 da revista Blitz, que inclui um disco inédito dos Rádio Macau. Pelas páginas há uma entrevista com Jack White, textos sobre Morrissey, Pink Floyd, Chet Faker, Soundgarden e um foco sobre algumas vozes femininas como Patti Smith, Lorde, Lana del Rey ou La Roux.

Nesta edição assino um artigo sobre o início da carreira de Elvis Presley. É um trabalho extenso (de 13 páginas) onde se recordam as suas primeiras visitas aos estúdios da Sun Records e de como esses episódios seriam fulcrais não apenas para a sua carreira como para a própria história da música popular. Tudo isto num tempo em que a luta pela igualdade dos direitos civis nos EUA se preparava para entrar numa etapa que culminaria, anos depois, com marchas e discursos que fizeram história e, depois, a mudança.

Para ler (e ver): Mark Hamill fala da rodagem
do 'Episódio VII' de 'Star Wars'

Por ocasião da estreia de Guardians of The Galaxy a BBC falou com o ator Mark Hammil, que retoma o papel de Luke Skywalker no novo filme Star Wars que tem estreia marcada para 2015. Hamill dá a entender que o filme estará mais focado nas novas personagens que nas que com ele viveram a trilogia original há três décadas. Ao que parece Luke terá uma barba...

Podem ler aqui a notícia, com a entrevista em vídeo.

Contar uma história de amor
na Palestina do nosso tempo


O mundo não é apenas o que vemos nos noticiários. E ao cinema começa a caber um importante papel na exploração da complexidade do mundo de relacionamentos entre israelitas e palestinianos. A juntar a filmes como Belem (do israelita Yuval Adler, que terá estreia em salas portuguesas em agosto) ou Out In The Dark (do também israelita Michael Mayer, que encerrou a edição 2013 do Queer Lisboa), Omar (do palestiniano Hany Abu-Assad) é um espantoso olhar não maniqueísta sobre a dimensão humana (e portanto mais focada em personagens) de um espaço do qual nos chegam sobretudo ecos de conflitos maiores.

O filme, que foi um dos cinco nomeados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, toma como protagonista um padeiro que frequentemente salta o muro para visitar a jovem Nadia, com quem vive um discreto e casto romance às escondidas, esperando os dois o dia em que Omar torne o segredo uma verdade oficial junto da família. Com o irmão de Nadia, Omar e mais um amigo atacam uma noite um posto de vigilância israelita e, depois de detido, torturado e sob ameaça, Omar torna-se involuntário informador. Estar com um dos lados pode por ali ser em alguns casos traição para o outro (como em breve veremos em Belém). Mas estar – mesmo que forçado - com os dois é um fardo destrutivo sob o qual o presente de Omar se passa a desenhar.

Com o quotidiano dos territórios ocupados por cenário que se mostra filtro, sem poupar inclusivamente um olhar crítico sobre o autoritarismo e abusos de poder de quem o exerce, Omar opta contudo por, tal como se viu em Out in The Dark, não perder nunca a dimensão da história pessoal. É assim, e na essência, e sem nunca voltar as costas aos episódios de medo e violência que habitam o cenário e as vidas dos que ali acompanhamos, um filme sobre o amor.