domingo, agosto 02, 2015

Swedish Azz no Jazz em Agosto

FOTO: Petra Cvelbar
O saxofonista sueco Mats Gustafsson está de volta ao palco do Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian (hoje, 21h30), desta vez apresentando o colectivo Swedish Azz, um quinteto que inclui a tuba de Per Åke Holmlander e os sons electrónicos de Dieb13 — eis um belo exemplo do seu misto de tradição e experimentação, no clube Alchemia, em Cracóvia (Fev. 2010).

A utopia [citação]

>>> Se a utopia fosse fácil, se tivesse a hora e a vez, podia aqui enunciá-la. Mas, por não ser fácil, é que nos recusa. Tem exigências naturais.
Seremos capazes, um dia, de chegar lá — ou de a chamar? De atirar a bola do coração para os terrenos mais férteis, os únicos onde podemos encontrar a nossa plenitude?
As diferenças que nos habitam formam um misterioso sistema de relações que afirma a nossa igualdade. Quando combinarmos tudo melhor, em tempos inescrutáveis, talvez a Humanidade seja uma boa equipa. Este é o grande jogo, arquitectado de muitos jogadores secundários. Adiar a utopia é adiar a nossa existência. É adiar tudo.

DINIS MACHADO
ed. Quetzal, Lisboa, 2015

sábado, agosto 01, 2015

Nina Simone + Alice Smith + Lauryn Hill

Lançado em paralelo com o documentário What Happened, Miss Simone?, o álbum Nina Revisited... A Tribute To Nina Simone é uma bela antologia de recriações por vários intérpretes, incluindo Usher, Mary J. Blige e Gregory Porter, com claro destaque (quantitativo, antes do mais) para a fantástica Lauryn Hill. Aqui fica aquela que me parece, em qualquer caso, a mais admirável revisitação do repertório de Nina Simone: I Put a Spell on You, por Alice Smith; em baixo, uma recente performance de Feeling Good, por Lauryn Hill, em The Tonight Show, com Jimmy Fallon.



"True Detective": labirinto de poderes

No actual panorama televisivo, True Detective é uma das séries que, como se costuma dizer, faz a diferença — este texto foi publicado no Diário de Notícias (31 Julho), com o título 'A lei e a desordem'.

Escrevo este texto depois de exibidos cinco dos oito episódios da segunda temporada de True Detective (TV Séries). A série criada por Nic Pizzolatto não se instalou num mero jogo de repetição, mesmo se persiste o mesmo desencanto moral — trata-se, afinal, de colocar em cena os agentes da lei e da ordem no interior de um mundo que, no limite, os integra de forma tanto mais cínica quanto se rege por outras leis, inconfessáveis (leia-se: financeiras), e muitas formas de desordem.
Nic Pizzolatto
A primeira temporada seguia os inquietantes ziguezagues de dois polícias do estado da Louisiana, interpretados por Woody Harrelson e Matthew McConaughey. Agora, há três personagens dominantes, com funções diversas em diferentes forças policiais da Califórnia, a cargo de Colin Farrell, Rachel McAdams e Taylor Kitsch. Em boa verdade, pode dizer-se que a série se constrói a partir de um quinteto, completado pelo casal interpretado por Vince Vaughn e Kelly Reilly, sendo ele um empreendedor que tenta desenvolver um negócio legítimo, apagando o seu passado criminoso...
Escusado será dizer que o esquematismo desta sinopse nada nos diz sobre o essencial. O que mais conta é o facto de todas as personagens se descobrirem inscritas numa rede de relações em que qualquer forma de poder (a começar pelo poder de investigação policial) acaba por depender sempre de um poder mais forte e, sobretudo, mais oculto.
Se True Detective volta a ser um caso invulgar no actual panorama televisivo não é por causa da acumulação de “peripécias” mais ou menos insólitas e inesperadas — aliás, é sempre fascinante encontrar uma narrativa que sabe administrar os seus tempos, seja na pura acção física, seja na instalação de longas digressões contemplativas. Tudo remete, afinal, para o mais cruel cepticismo: este é o retrato de um mundo em que a instrumentalização dos seres humanos gerou as mais cruéis formas de solidão e desamparo. Há, aqui, um realismo tão cru que acaba por se confundir com o mais inquietante fantástico.

Michael Mantler no Jazz em Agosto

Figura tutelar do jazz austríaco, o trompetista e compositor Michael Mantler (n. 1943), ligado a algumas gravações históricas de Carla Bley, estará hoje no Auditório ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian (21h30), para o segundo concerto da edição de 2015 do Jazz em Agosto. Com solistas da Nouvelle Cuisine Big Band, acompanhados pela Orquestra Jazz de Matosinhos, Mantler dirigirá um colectivo que adopta a sugestiva designação de Michael Mantler’s Jazz Composer's Update & Orquestra Jazz de Matosinhos — neste breve video, Mantler enquadra as memórias históricas da música a ser apresentada no concerto de hoje.

Nos 50 anos de Sam Mendes

Recentemente, Sam Mendes anunciou que, depois de Skyfall (2012) e Spectre — 24º título oficial de James Bond a estrear em Novembro (Portugal: dia 5) —, não dirigirá mais nenhum filme de 007. Moralismos à parte, há um misto de lógica e sabedoria em tal decisão. De facto, com resultados mais ou menos interessantes, Bond será sempre uma franchise que não pode integrar as singularidades de um criador como Mendes.
Estamos a falar, afinal, do encenador do West End (lembremos o seu admirável revival de Company, de Stephen Sondheim, em 1995) que, nomeadamente como director da Donmar Warehouse, se distinguiu pelo misto de classicismo e experimentalismo das suas encenações, depois impondo-se no espaço de Hollywood através de filmes como Beleza Americana (1999) ou esse objecto genial, tão mal conhecido, que é Revolutionary Road (2008).
Mesmo aguardando com curiosidade as proezas de Spectre, é bom saber que Mendes regressará às suas origens — saudemos o seu talento, inteligência e versatilidade, hoje, 1 de Agosto, dia do seu 50º aniversário.

7 canções de "Sticky Fingers" (5)


[ Dead Flowers ]  [ Brown Sugar ]  [ Wild Horses ]  [ Can't You Hear Me Knocking ]

Num álbum todo ele rasgado pela mágoa do blues, Sway emerge como uma espécie de versão minimalista das agruras do destino — It's just that demon life has got me in its sway —, devidamente consagrada pelos solos de guitarra. Foi ficando ao longo dos anos e das digressões, surgindo assim em 2005, num concerto de 'A Bigger Bang Tour'.

sexta-feira, julho 31, 2015

Mats Gustafsson abre Jazz em Agosto

Nome grande da cena free do jazz contemporâneo, o saxofonista sueco Mats Gustafsson está no cartaz de abertura do Jazz em Agosto 2015 (hoje, 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian). Gustafsson traz aquele que é, por certo, um dos seus projectos mais ambiciosos: a Fire! Orchestra, um ensemble alargado que, a partir do trio Fire! (formado por Gustafsson, Johan Berthling e Andreas Werliin, respectivamente em baixo eléctrico e bateria) desenvolveu um leque se sonoridades, exuberantes e sofisticadas, capaz até de aceitar alguma contaminação do rock psicadélico.
Aqui fica um video/retrato de 10 minutos da Fire! Orchestra; em baixo, o spot promocional do Jazz em Agosto 2015.



O abismo de Chelsea Wolfe

Podemos hesitar perante a crueza da música da americana Chelsea Wolfe (nascida em Sacramento, California, em 1983). Em qualquer caso, ela terá sempre legitimidade para nos dizer: "eu bem vos avisei...". Afinal de contas, o seu álbum de 2013 chamava-se Pain Is Beauty. Agora, para evitar confusões, achou por bem condensar tudo numa palavra: Abyss.
Digamos que, se PJ Harvey e Kurt Cobain alguma vez se tivessem encontrado num estúdio cuja mesa de misturas tivesse sido ocupada por Trent Reznor... então o resultado talvez se parecesse com este turbilhão de sons, incluindo as distorções, as experimentações e o metódico impulso surrealista. Sem que nada disso, entenda-se, exclua uma tocante depuração poética, estranhamente contemplativa.
Abyss pode ser escutado, na íntegra, na NPR; entretanto, aqui fica o teledisco de Carrion Flowers, tema de abertura do álbum.

quinta-feira, julho 30, 2015

"Mínimos" — a grande fábula (2/2)

Um caso sério da animação contemporânea: os Mínimos relançam, com alegria e inteligência, a fábula infantil — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Julho), com o título 'Não percam os Beatles!'.

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Os Mínimos a promover uma aspirador de alta pressão? Ou uma caixa de lenços de papel? Não são meras hipóteses, mas sim dados verídicos de uma lógica de marketing que transformou os hiper-simpáticos bonequinhos amarelos em figuras omnipresentes do consumo global... Quem veio denunciar os equívocos de tal conjuntura não foi um qualquer crítico de cinema, mas o próprio Pierre Coffin (nas páginas da revista Premiere), co-realizador deste filme e dos dois anteriores centrados na figura de Gru, o Maldisposto.
O episódio reflecte a dinâmica perversa de alguns sectores da indústria cinematográfica: por um lado, há espantosas energias criativas que se traduzem na criação de universos como o dos Mínimos, por certo dos mais complexos e fascinantes da actual animação; por outro lado, tendem a prevalecer os valores de uma tecnocracia do marketing que confunde os mecanismos de promoção (cuja importância ninguém contesta) com a gestão automática, artisticamente cega, de uma “marca”.
O caso dos Mínimos é tanto mais interessante quanto há neles as ambivalências (também elas perversas, hélas!) das grandes fábulas. É verdade que se sentem atraídos por todos aqueles que detêm algum poder acima do comum dos mortais; ao mesmo tempo, não é menos verdade que a sua solidariedade resiste a todos os percalços simbólicos ou políticos. Em qualquer caso, a inteligência do seu humor é, por certo, infinitamente mais pedagógica que a tristeza “juvenil” de Morangos com Açúcar e seus derivados. Além do mais, permitam-me que recorde que o filme só acaba mesmo... no fim! Isto porque, depois do genérico, Kevin, Stuart e Bob reaparecem para interpretar uma espantosa versão de Revolution, dos Beatles. E se o público infantil não sabe quem são os Beatles, é tempo de começar a aprender.

Sontag (sob o signo de Woolf)

SUSAN SONTAG
Olhando o Sofrimento dos Outros, de Susan Sontag, é um livro fascinante sobre as imagens e os seus contextos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Julho), com o título 'Ser espectador segundo Susan Sontag'.

Susan Sontag (1933-2004) impôs-se na dinâmica do pensamento moderno através de um ensaio de 1966 intitulado Contra a Interpretação (existe uma tradução portuguesa, de 2004, com chancela da editora Gótica). O título envolve todo um programa cultural, mediático e político: há uma dimensão da linguagem que excede a “intelectualização” dos significados, abrindo para uma experiência que, na sua sensualidade, não pode ser formatada de uma vez por todas. Dito de outro modo: dizer o que as coisas significam é também respeitar o que nelas permanece como indizível.
Muita coisa mudou de 1966 para cá, mas a inteligência argumentativa de Sontag continua a ser um instrumento precioso que nos ajuda a pensar, a não ter medo de sentir. O derradeiro livro que publicou, Olhando o Sofrimento dos Outros (agora editado pela Quetzal, numa rigorosa tradução de José Lima), constitui um momento fascinante do seu trabalho, em especial pelo modo como discute a vida das imagens no mundo contemporâneo.
Sontag recua aos tempos primitivos das imagens fotográficas e, muito em particular, ao modo como a fotografia representou as guerras ocorridas há um século ou mais (incluindo, claro, o primeiro conflito mundial, essa “guerra para acabar com todas as guerras”). Daí a incontornável ambivalência: é verdade que a história das imagens (fotográficas, antes do mais) envolve um importante valor de testemunho; ao mesmo tempo, é preciso não alimentar demasiadas ilusões sobre as respectivas potencialidades pedagógicas. Evocando o livro Os Três Guinéus (1938), de Virginia Woolf, empenhado, justamente, em reflectir sobre uma conjuntura pejada de augúrios de guerra, Sontag formula um desencantado reconhecimento: “Durante muito tempo, houve pessoas que pensavam que se fosse possível dar uma imagem suficientemente vívida do horror, a maior parte das pessoas acabaria por tomar consciência da barbaridade, da insanidade da guerra”.
VIRGINIA WOOLF
O livro de Sontag não caminha no sentido de enunciar normas que, de uma vez por todas, nos garantam uma “boa” gestão da pluralidade de significações em que uma imagem pode estar envolvida — até porque há nela a consciência muito aguda de que vivemos sobre o efeito quotidiano, não poucas vezes pesadamente “moralizante”, do fluxo televisivo. Se há lição simples, mas essencial, que podemos condensar a partir das suas palavras é a da absoluta necessidade de pensar o contexto em que as imagens são conhecidas (ela evoca mesmo o modo como, no início das recentes guerras dos Balcãs, a “mesma fotografia de crianças mortas” serviu de arma de propaganda a diferentes facções).
Daí o continuado desafio de ser espectador, trabalhando a memória na sua dimensão eminentemente individual, resistindo à utilização das imagens reduzidas a ícones, funcionando como sound bites (por exemplo, um cartaz com o cogumelo de uma bomba atómica) e desencadeando “pensamentos e sentimentos previsíveis”. Diz ela: “Felizmente, não há nenhuma imagem ícone dos campos de morte nazis”.

Sølve Sundsbø — contenção e elegância

Nascido na Noruega, sediado em Londres, Sølve Sundsbø é um exemplo modelar de uma atitude criativa no campo da moda que sabe integrar as mais modernas tecnologias sem alienar algumas componentes deliciosamente clássicas. O seu portfolio para o nº14 da revista Love alia a máxima contenção e uma serena elegância — pode ser visto no seu site ou no FashionProduction.

SOUND + VISION MAGAZINE — hoje na FNAC

O nosso Magazine regressa hoje à FNAC, para mais uma sessão sobre a actualidade de cinema, música e livros. Em foco estarão, em particular, algumas das mais recentes propostas dos desenhos animados, cruzadas com memórias da história da animação e também do mundo dos telediscos — é no Chiado, a partir das 18h30.

Ver + ouvir:
Ratatat, Abrasive



Um dos singles extraídos do novo álbum da dupla norte-americana Ratatat tem teledisco de animação feito com desenhos assinados por Evan Mast, um dos elementos do grupo. Abrasive chama atenção para a utilização da animação nos telediscos, que será um dos focos da edição de hoje do Sound + Vision Magazine, que decorre logo, a partir das 18.30, na Fnac Chiado.

A Imagem

"Hotel", N.G., 2015

Nos 50 anos de "Help!"

Faz esta semana meio século que “Help!”, o segundo filme com os Beatles, realizado por Richard Lester, chegou às salas de cinema. Apesar do tom ligeiro nasciam ali ideias que teriam consequência.


Como nota Martin Scorsese, no pequeno ensaio que foi publicado na edição em Blu-ray do filme, Richard Lester, em Help!, “foi tão ousado, à sua maneira, como Resnais o havia sido poucos anos antes em O Último Ano em Marienbad”, observando em concreto o trabalho de montagem e dos movimentos de câmara. Quanto à utilização da cor lembra que era algo “que todos estavam a experimentar naquela altura”, dando como exemplo Blow Up de Antonioni ou Farenheit 451 de Truffaut.

Help! pode ainda ser reconhecido como um importante espaço de primeira exploração de ideias daquilo que anos mais tarde seria o teledisco. As sequências que acompanham You’ve Got To Hide Your Love Away ou Ticket To Ride poderia viver mesmo sem um filme ao seu redor e são claras indicadoras de um registo na relação das imagens com a música que parte do cinema mas aponta horizontes a outra lógica narrativa e de encadeamento de imagens e até mesmo ritmo de montagem.

Podem ler o texto completo aqui, na Máquina de Escrever.

Para ler: um retrato de Marlon Brando

Um documentário sobre o ator, realizado por Steven Riley, recebe um aplauso no Guardian. Fica aqui a opinião de Nigel M Smith.

Gerações técnicas [citação]

>>> Porque as gerações técnicas se sucedem, o homem da escrita (livro, imprensa...) não reconhece o seu filho que é da geração do écrã (cinema, televisão), do mesmo modo que este não reconhece o seu, à mercê da tirania videográfica.

PAUL VIRILIO
ed. Galilée, Paris, 1993

terça-feira, julho 28, 2015

"Mínimos" — a grande fábula (1/2)

Um caso sério da animação contemporânea: os Mínimos relançam, com alegria e inteligência, a fábula infantil — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Julho), com o título 'A mancha amarela dos Mínimos à conquista do mundo'.

São pequeninos, amarelos e têm dois olhos (em boa verdade, às vezes apenas um...). Dialogam numa língua cuja gramática não está publicada. Ainda assim, isso não nos impede de compreender muitas das suas formas de comunicação, por vezes com bizarras derivações espanholas (?), até porque se exprimem com eloquência no domínio musical, cantando de forma exuberante e, há que reconhecê-lo, bem afinada. Característica fundamental: adoram bananas! Não têm os poderes dos super-heróis dos filmes, mas são capazes de conquistar o mercado global do cinema. No dia 12 de Julho, a revista Variety escrevia mesmo: “Os Mínimos conseguiram dominar o mundo!”. E não era caso para menos: no primeiro fim de semana de exibição (em 56 países, incluindo EUA), as suas aventuras cinematográficas arrecadaram quase 400 milhões de dólares, prevendo-se que possam vir a superar a barreira dos mil milhões.
Digamos que o filme Minions, entre nós chamado Mínimos, já era um fenómeno antes de chegar às salas. Isto porque a sua popularidade está ligada a dois grandes sucessos dos desenhos animados: Gru – o Maldisposto (2010) e Gru – O Maldisposto 2 (2013), ambos realizados pelo francês Pierre Coffin e o americano Chris Renaud. Aí, o super-vilão Gru (com a voz do brilhante Steve Carell) ia multiplicando as suas maldades para dominar o mundo, incluindo um plano para roubar a... Lua, sempre servido pela legião imensa dos Mínimos: na sua festiva mancha amarela, eles são felizes apenas por poderem servir o seu mestre, embora nunca consigam ser um modelo de disciplina.
Agora, os Mínimos têm direito à sua própria aventura: o novo filme relata-nos os tempos que antecederam a sua relação com Gru (como se diz na gíria industrial, trata-se de uma “prequela”). E convenhamos que não tiveram uma existência fácil. A saga dos Mínimos leva-nos até aos momentos mais cruéis da pré-história — ficamos mesmo a saber que terão tido um papel determinante, ainda que involuntário, no fim dos dinossauros, antes de se colocarem ao serviço de personagens tão emblemáticas como Napoleão Bonaparte ou o Conde Drácula... Até que numa convenção de vilões, a bem chamada Villain-Con, parecem encontrar a sua líder ideal: nada mais nada menos que a implacável Scarlet Overkill (voz de Sandra Bullock, impecável), apostada em roubar a coroa de Isabel II...
A promoção dos Mínimos à condição de protagonistas da nova produção dos estúdios Universal amplia ainda mais a popularidade conquistada através dos dois filmes de Gru. Como vários observadores dos mercados cinematográficos já fizeram notar, há neles um humor capaz de transcender fronteiras e linguagens, já que as suas leis decorrem da mais primitiva tradição burlesca (por vezes, aproximando-os do “slapstick” do cinema mudo em que o absurdo pode nascer dos detalhes aparentemente mais banais).
Tudo isso se reforça através da emergência de três “vedetas” dos Mínimos: Kevin, o “irmão” mais velho, com um pequeno tufo de cabelo eriçado, ansiando por provar o seu heroísmo; Stuart, o eterno adolescente (só com um olho), sempre pronto para a festa; e Bob, o mais pequenino e ingénuo que... gosta de toda a gente.
Desta vez repartindo a realização com Kyle Balda, outro animador americano, Pierre Coffin comete a proeza de ser também o responsável pelas vozes dos Mínimos, em particular das nuances expressivas que caracterizam Kevin, Stuart e Bob. Aliás, tem sido referida alguma curiosa semelhança entre os três passarinhos amarelos que integravam Ping (1997), a sua primeira curta-metragem, e os futuros Mínimos. Uma coisa é certa: este universo tornou-se uma das mais rentáveis franchises dos modernos desenhos animados, estando já agendado um Gru – O Maldisposto 3 para 2017.

segunda-feira, julho 27, 2015

"Rebel Heart Tour" — primeiras imagens

A Rebel Heart Tour arrancará em Montreal, Canadá, no dia 9 de Setembro. E tudo indica que terá uma elaborada composição cénica, ainda e sempre apostando forte num grande colectivo de bailarinos — Madonna acaba de divulgar os dois primeiros teasers da digressão.



Como fazer a história do nazismo?

Fazer história não é apenas acumular materiais de arquivo: um bom/mau exemplo dessa ilusão pode ser a série Os Últimos Dias dos Nazis — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Julho), com o título 'Como fazer história?'.

O espaço televisivo alimenta-se de muitos lugares-comuns que funcionam como mecanismos de auto-legitimação. A abordagem da história, por exemplo: qualquer amontoado de imagens de arquivo, sustentado por uma voz “descritiva”, tende a ser consagrado como uma inquestionável investigação “histórica”.
O exemplo da série Os Últimos Dias dos Nazis, a passar no canal História, pode ser esclarecedor [aparentemente, a página oficial da série foi desactivada]. De que se trata? De recordar os tempos finais da Segunda Guerra Mundial a partir de depoimentos de figuras que, com mais ou menos evidência, desempenharam alguma função na máquina de morte do nazismo. No site do canal, e de acordo com a lógica especulativa da televisão mais simplista, escreve-se mesmo que a série “transporta o tele-espectador ao interior da mente dos alemães”.
Nada a ver, entenda-se, com as matrizes de ficção que revisitam a guerra e, em particular, o Holocausto, questionando os próprios enunciados nazis (leia-se o recente e prodigioso romance A Zona de Interesse, de Martin Amis). Aliás, a série limita-se a aplicar o cliché dos chamados “docudramas”, combinando filmes de época com situações encenadas, protagonizadas por actores.
Também não se trata de recusar a hipótese de a abordagem histórica contrapor “reconstituições” a imagens de arquivo — toda a obra de um cineasta tão admirável como Errol Morris baseia-se nesse método (veja-se, por exemplo, The Thin Blue Line, de 1988). O que está em causa é a colagem ligeira, puramente especulativa, de imagens totalmente descontextualizadas com momentos encenados de acordo com a dramaturgia do mais rasteiro sensacionalismo.
Na prática, Os Últimos Dias dos Nazis filia-se na mesma estética de “aceleração” visual e produção de “agitação” temática que encontramos, por exemplo, nos programas sobre “famosos” que nos garantem ter encontrado o segredo da felicidade eterna... Podia ser apenas uma anedota infeliz. Infelizmente, é uma prova de irresponsabilidade face à história e à complexidade das suas heranças.

The Weeknd — à espera do segundo álbum

O canadiano Abel Tesfaye — que é como quem diz: The Weeknd — anuncia um segundo álbum (cerca de dois anos depois de Kiss Land). Chamar-se-á Beauty Behind the Madness (bom título...) e promete novas derivações do seu sofisticado R&B em ambiências hip hop (ou talvez o inverso). Para já, o cartão de visita [apenas som], chama-se Can't Feel My Face.

A operação mágica [citação]

>>> Desde o princípio, o divino foi a significação profunda do humano. A operação mágica é a conduta de um homem que empresta ao mundo do fim, divino (ou sagrado), mais força e verdade do que ao mundo laboral dos meios: este homem inclina-se perante um poder que o excede, que é soberano, tão estranho à atitude humana do trabalho como o animal pode sê-lo à expressão.

GEORGES BATAILLE
'O Nascimento da Arte'
Tradução de Aníbal Fernandes (ed. Sistema Solar)

domingo, julho 26, 2015

Amy Winehouse — o filme (2/2)

O filme de Asif Kapadia sobre Amy Winehouse constitui um brilhante exercício documental, desde já com um lugar importante nas relações entre cinema e a paisagem imensa do rock — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Julho), com o título 'Memórias e fantasmas da música rock'.

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Em entrevistas que deu por altura da apresentação de Amy no Festival de Cannes (extra-competição), Asif Kapadia lembrou que o seu método de trabalho foi, em parte, semelhante ao que pôs em prática em Senna (2010), o filme sobre Ayrton Senna que obteve dois prémios BAFTA (melhor documentário e melhor montagem). Que é como quem diz: encarar a produção do filme, não como a ilustração de um retrato pré-definido, antes como um processo de investigação e descoberta que começa nos materiais mais genuínos de uma vida.
De facto, a definição de Amy Winehouse como uma vítima do consumo de drogas e, em particular, de álcool não bastaria para contar os seus 27 anos de vida (morreu no dia 23 de Julho de 2011, na sua casa de Camden, Londres). Era importante não perder de vista o que se diz em Frank (2003) e Back to Black (2006), os dois únicos álbuns de estúdio que nos legou. Até porque as suas canções, não sendo auto-biográficas no mais banal plano “factual”, surgem sempre enredadas numa tocante dimensão confessional — “as minhas lágrimas secam por si”, diz ela numa canção de Back to Black.
Amy consegue essa coisa rara que é retratar alguém não como uma acumulação de “facetas” (a vida de artista, os problemas familiares, a exposição nos media, etc.), antes através de uma teia de factos e evocações em que tudo comunica com tudo. Nesta perspectiva, importa destacar, não apenas o extraordinário trabalho de recolha de elementos informativos (desde documentos pessoais até registo de performances ao vivo muito pouco vistas), mas também o modo como a sua articulação é feita através da subtil montagem assinada por Chris King (que já tinha sido responsável, com Gregers Sall, pela montagem de Senna).
Amy possui uma fundamental dimensão crítica que, infelizmente, não tem sido das mais ponderadas. Assim, através de espantosos, porque eloquentes, materiais de informação (fotos e reportagens) utilizados por alguns jornais e televisões, este é também um filme sobre a degradação moral de algumas formas contemporâneas de jornalismo.
Não se trata, entenda-se, de “culpar” os media pelas coisas mais terríveis que aconteceram na curta vida de Amy Winehouse — aliás, reduzir tudo o que acontece a uma oposição maniqueísta entre “inocentes” e “culpados” é táctica corrente desse jornalismo mais medíocre. Trata-se, isso sim, de não escamotear o facto de os altos e baixos (sobretudo os baixos...) da vida de Amy Winehouse terem sido vergonhosamente explorados através de imagens de “reportagem” que, agora, no contexto do filme de Asif Kapadia, é possível avaliar em toda a sua violência moral e afectiva.
Não há, de facto, muitos filmes assim, capazes de nos fazer compreender como uma existência individual transporta os enigmas da sua verdade global, reflectida em todos os seus instantes, desde a alegria mais cristalina ao sofrimento mais atroz. Não necessitaríamos de conhecer tais elementos para admirar o génio das canções de Amy Winehouse — o certo é que o filme de Asif Kapadia intensifica, se tal é possível, as emoções do seu universo musical.