sexta-feira, março 27, 2015

Nova Iorque em Kodachrome

Robert Herman é um fotógrafo de Nova Iorque que, ao longo das décadas, acumulou uma obra de invulgar consistência e coerência. O seu livro The New Yorkers possui qualquer coisa de melancólico e irrecuperável — porque vemos o próprio movimento da cidade a fazer-se e refazer-se, mas também porque estas são fotografias obtidas, entre 1978 e 2005, com a maravilhosa (e defunta) película Kodachrome. E ficamos sem saber se são as imagens que perderam alegria ou se tem sido o mundo a perder cor.

quinta-feira, março 26, 2015

Ringo Starr, opus 18

Uma sugestão de viagem, uma pose bem disposta, discretamente nonchalante, e um som rock, simples e directo, sem complexos de se entregar ao primitivismo da sua energia, embora sem cultivar qualquer mágoa nostálgica — assim é Ringo Starr, sempre fiel à herança dos anos 60 que ele e os seus três companheiros de Liverpool moldaram de forma irreversível. O certo é que o Sr. Richard Starkey Jr. já vai no seu 18º álbum a solo, Postcards from Paradise, mais uma vez mobilizando velhas raposas como Todd Rundgren, Joe Walsh e Dave Stewart. O tema título, composto com Rundgren, tem um delicioso e sofisticado lyric video, encenando uma canção em que Ringo decide construir todo um poema a partir de versos roubados ao património dos Beatles [citações].

Rossellini, aqui e agora (2/2)

Grande acontecimento no panorama do cinema nas salas (mais tarde chegará ao DVD): dez filmes de Roberto Rossellini são repostos em cópias restauradas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Março), com o título 'Para redescobrir a herança estética e a exigência ética de Rossellini'.

[ 1 ]

Desde os títulos emblemáticos do neo-realismo italiano — Roma, Cidade Aberta (1945), Paisà (1946) e Alemanha, Ano Zero (1948) —, Rossellini desenvolveu uma visão do mundo que nunca foi indiferente a um impulso visceralmente documental. Claro que todos são inseparáveis de elaborados argumentos, escritos com colaboradores como Sergio Amidei, Carlo Lizzani ou Federico Fellini (que assinaria a primeira longa-metragem a solo, O Sheik Branco, em 1952); o certo é que Rossellini arriscava muitas vezes na utilização de cenários reais para inscrever histórias em que se avaliavam as heranças dramáticas da Segunda Guerra Mundial. Alemanha, Ano Zero encena mesmo a saga de um rapaz no labirinto muito real das ruínas de Berlim, conseguindo a proeza, de uma só vez cinematográfica e política, de olhar para o “outro” lado da história para além de qualquer maniqueísmo moral ou ideológico.
Tal capacidade adquire uma intensidade paradoxal em filmes que não são estranhos a uma sofisticada sensibilidade melodramática, em particular aqueles em que Rossellini dirigiu Ingrid Bergman (com quem foi casado no período 1950-57). Viagem em Itália (1954) constitui, nesse aspecto, uma proeza radical, desmontando a crise de um casal como um processo íntimo de descoberta dos próprios lugares — e isto através dos mais rudimentares meios de produção. Sempre com admirável poder de síntese, Godard recordava o espanto que foi a sua descoberta: afinal de contas, era possível fazer um filme “com alguns trocos” e, no limite, “com duas pessoas dentro de um carro”.
Exemplo extremo e fascinante dessa dinâmica entre personagens e lugares será Stromboli (1950), o primeiro dos cinco títulos em que Rossellini dirigiu Ingrid Bergman (o ciclo inclui ainda Europa 51 e O Medo, respectivamente de 1952 e 1954, só faltando Giovana d’Arco al Rogo, de 1954). A história da solidão de uma mulher na ilha de Stromboli projecta-nos numa dimensão trágica, de perturbante simbolismo, em que tudo passa pela sensação muito física de “reportagem” através da paisagem assombrada pelo vulcão da ilha.
O programa de reposições inclui ainda dois dos mais raros e sugestivos “desvios” da obra de Rossellini: O Amor (1948), com Anna Magnani, e A Máquina de Matar Pessoas (1952), uma inclassificável comédia. Seja como for, a sua herança não pode ser desligada de uma paixão realista que, curiosamente, na fase final da sua carreira, passou pela produção televisiva.
Falecido em 1977, contava 71 anos, Rossellini acreditou que a televisão podia ser o espaço de uma renovada linguagem de formação cívica e conhecimento histórico (este ciclo inclui também A Força e a Razão, uma entrevista a Salvador Allende, produzida pela RAI e difundida em 1973). Nessa medida, a par de Godard ou Michelangelo Antonioni, foi pioneiro na descomplexada abordagem do modelo de telefilme, a começar por A Tomada do Poder por Luís XIV (1966). Se Rossellini deparasse com os horrores quotidianos da reality TV, não tenhamos dúvidas que seria um dos mais empenhados resistentes a todas as formas de populismo contemporâneo — razão suplementar para, ao redescobrirmos os seus filmes, revalorizarmos a crença mais clássica nos valores básicos do humanismo.

Nas palavras de Herberto Helder (1/3)


Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero .fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

H.H.
Lugar / Poesia Toda
Assírio & Alvim (1979)

* * * * *

As cidades. As mulheres. Um lugar para viver. A presença que se faz ausência, regressando ainda mais intensa, reconvertendo o lugar até à abstracção muito concreta do pensamento.
Há na poesia de Herberto Helder uma pulsão fantástica (nada a ver com fantasista) que, em boa verdade, faz regressar o poeta — convocando o leitor para a mesma aventura — a tudo aquilo que se diz, sente e edifica à flor da pele, num desespero feliz em que pressentimos a possibilidade de uma relação humana. Esta solidão partilhada não tenta saturar o mundo de significados, televisionando-o como coisa fechada — trata-se antes de reconhecer que o mundo não pára de significar, e a uma velocidade superior à de qualquer escrita. Provavelmente, a poesia é a arte de reconhecer, e escrever, essa lentidão.

Ver + ouvir:
Björk, Lionsong



Teledisco criado para uma das canções do álbum Vulnicura, o mais recente disco de estúdio de Björk.

Novas edições:
Courtney Barnett

“Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit”
CD, Marathon Artists / Popstock
4 / 5

Estará na hora de juntar uma nova voz a um grupo seleto de vozes femininas que usam o saber da palavra e a angulosidade da guitarra para desenhar canções que são expressão do que somos e do tempo em que vivemos? Talvez seja cedo para conclusões de longo prazo, mas a verdade é que depois de promissores EPs lançados ao longo dos dois últimos anos, a estreia em álbum da australiana Courtney Barnett não só confirma em pleno as melhores expectativas como nos coloca perante um dos melhores discos que a cultura rock nos mostrou nos últimos tempos (e convenhamos que tem sido departamento em relativa dieta de boas ideias nos anos mais recentes).

O cativante, bem humorado e longo título Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit sugere que há talvez aqui alguém que pense mais que apenas se sente sem pensar. E é na força dos jogos de palavras, que escutamos por uma voz entre o falado e cantado, que com bom humor e também a crua franqueza com que nos diz que se a pusermos num pedestal nos vai desiludir, que pode residir uma primeira abordagem a um conjunto de canções das quais, audição após audição, surge precisamente a ideia do contrário do alerta lançado. Ou seja: não desapontam (mas vale a pena não a colocar já num pedestal, que há ainda muita estrada e conquistas pela frente). Nota-se sobretudo um saber de contador de histórias, tendo já havido que a apontasse como continuadora de uma escola (também vinda daqueles lados do mundo) que teve os Go Betweens – ou seja a dupla Grant e McLennan – como referência maior (e que responsabilidade nesta comparação!).

Musicalmente o disco não foge ao que os EPs já conhecidos sugeriam (e aí afasta-se do terreno dos criadores de Cattle and Cane). Ou seja, há por aqui ecos de uma formação feita entre heranças do grunge e de uma certa luminosidade brit pop (não deixo de pensar nas Elastica ao escutar Pedestrian at Best ou nuns Sleeper ao ouvir Aqua Profunda!) e em Debbie Downer há mesmo umas teclas subtis com alma vintage que lembram a ingenuidade pop da new wave de primeira geração). Há também aquele tom desencantado na relação do canto com a guitarra que Patti Smith ou PJ Harvey assimilaram e transformaram cada qual na sua voz. E há sobretudo sinais de não alinhamento nas muitas micro-tendências dos caminhosindie recentes. Courtney Barnett tem a sua voz, as suas memórias, conta as suas histórias e estas são as suas canções.

As canções revelam uma alma inteligente, atenta e capaz de escrever pequenos retratos do mundano desinteressante do nosso tempo e comentários sobre pequenos nadas na forma de canções simples e diretas. O alinhamento de Sometimes I Sit and Think and Sometimes I Just Sit foge (sem a intenção de mostrar que está a fugir) aos sabores do momento. Cruza uma intemporalidade rock’n’roll com um gosto vintage por referências da cultura elétrica de finais do século XX. Ao contrário do que o título sugere, o rock aqui levanta-se da cadeira, vibra e pensa.

Courtney Barnett é nome a acompanhar com atenção e este álbum é um dos melhores cartões de visita em clima rock que o ano escutou neste primeiro trimestre.

Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever

Para ouvir: o regresso de Roisín Murphy


Após longa ausência do universo dos discos de longa duração Roisin Murphy está de regresso... Aqui fica um aperitivo. Promete...

Para ler: os 'Ficheiros Secretos'
e a ressurreição de séries de TV

A notícia do regresso de X-Files gerou uma série de reações. Este artigo no Guardian reflete sobre o caminho que este tipo de regressos pode comportar.

Podem ler aqui

quarta-feira, março 25, 2015

Pasolini, 40 anos depois

Franco Citti, ACCATTONE (1961)
Em 2015, assinalam-se 40 anos sobre a morte de Pier Paolo Pasolini: como lidamos com a sua herança? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Março), com o título 'Sob o signo de Pier Paolo Pasolini'.

Os partidos políticos há muito desistiram de qualquer reflexão regular sobre a realidade das imagens. Dir-se-ia que lhes bastam as compensações narcisistas do espelho fátuo da televisão. E, no entanto, no nosso presente de muitas mediatizações, a questão das imagens realistas — ou melhor, do realismo enquanto fenómeno imagético — não pode deixar de estar no centro de qualquer pensamento político minimamente exigente.
Há uma razão quotidiana, incontornável, para tal exigência: o agressivo e despudorado triunfo do Big Brother e seus derivados gerou um novo dispositivo de percepção do povo. O povo? Precisamente. A palavra caiu em desuso em todos os discursos políticos, mas regressou pela porta da reality TV. Pode mesmo dizer-se que a reality TV se apropriou de um enunciado militante que, em contexto bem diverso, alimentou outras celebrações, algumas euforias e não poucos desastres de comunicação: “Se isto não é o povo, onde é que está o povo?”.
Estes temas vão, por certo, regressar ao longo do ano, quanto mais não seja por causa do efeito de uma efeméride: no dia 2 de Novembro, completar-se-ão 40 anos sobre o assassínio de Pier Paolo Pasolini, cineasta, cidadão do mundo, que nunca abdicou de reflectir sobre os modos de representação das classes populares e, em particular, sobre as ilusões consumistas (em grande parte televisivas) que, com metódica angústia, observava na sua Itália.
Que a herança estética de Pasolini permanece muito viva, eis o que pudemos observar através de dois filmes que, em meses recentes, chegaram às salas portuguesas: Pasolini, do americano Abel Ferrara, um retrato íntimo, não tanto do realizador de filmes, mas mais do intelectual que nunca cedeu a qualquer facilidade populista; e O Pequeno Quinquin, do francês Bruno Dumont, saga rural que revaloriza esse realismo muito “pasoliniano” que começa na integração de actores populares.
Uma das primeiras evocações dos 40 anos do desaparecimento de Pasolini foi um magnífico dossier, intitulado “Génies de Pasolini”, publicado pela revista francesa Le Magazine Littéraire (Janeiro 2015). Num artigo desse dossier, o historiador Luciano de Giusti evoca o modo como Pasolini explicou a sua “passagem” da literatura para o cinema como uma espécie de libertação dos “signos linguísticos”. Dizia ele: “Quando faço um filme, não há entre mim e a realidade o filtro do símbolo ou da convenção, como acontece na literatura. Por isso, na prática, o cinema foi uma afirmação do meu amor pela realidade.”
Quando vemos ou revemos presenças como a de Franco Citti em Accattone (primeira longa-metragem de Pasolini, lançada em 1961), compreendemos que o seu retrato dos subúrbios de Roma nada tem a ver com qualquer paternalismo mais ou menos pitoresco. No universo pasoliniano, o povo não é uma caução estética, mas sim uma entidade que desafia a estabilidade de qualquer estética — eis um risco político que o nosso presente tão mal conhece.

Nova canção de Torres

Sprinter, segundo álbum de Torres, nome artístico de Mackenzie Scott, está anunciado para 18 de Maio. E depois de Strange Hellos, aqui está a canção-título, a provar que a sua condição de grande revelação de 2013 não foi um acidente — indie, quase folk, discretamente pop, som genuíno.

terça-feira, março 24, 2015

Herberto Helder (1930 - 2015)

Com uma pêra, dou-lhe um nome de erro
entre mim e tudo, na mão, amadureço
enquanto ela se torna propícia,
amarela ao influxo do vento de estrela para estrela.
O sangue da mão ensombra a fruta na sua volta
de átomos, abala
imagem, arquitectura.
E o espaço que isto cria: a noite
aparece no ar. E dura, leve, tersa, curva,
a linha
do fogo entrecruza
os pontos paralelos: a pêra desde o esplendor,
a mão desde
o equilíbrio, os centros
do sistema geral do corpo, o buraco negro.
Morro?
Escrevo apenas, e o hausto aspira
dedos e pêra, enigma e sentido, ordem, peso, o papel onde assenta
a constelação do mundo com esse buraco
negro e as palavras em torno.
No instante extremo de
desaparecerem.
Se morro, é por exemplo.

H. H.
Do Mundo
Assírio & Alvim, 1994

Rossellini, aqui e agora (1/2)

Grande acontecimento no panorama do cinema nas salas (mais tarde chegará ao DVD): dez filmes de Roberto Rossellini são repostos em cópias restauradas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Março), com o título 'Para redescobrir a herança estética e a exigência ética de Rossellini'.

Alfred Hitchcock. David Lean. Ingmar Bergman. Yasujiro Ozu. Charlie Chaplin. Eis alguns autores clássicos que têm reaparecido nas salas de cinema (e também no mercado do DVD). Se é verdade que a cinefilia se enraíza num gosto obstinado pela preservação dos filmes e suas memórias, então podemos dizer que o mercado português, mesmo com as suas lacunas e desequilíbrios estratégicos, não se tem esquecido dos clássicos. E de um fundamental valor cultural e comercial: a possibilidade da sua redescoberta através de cópias restauradas para os novos formatos digitais.
Roberto Rossellini é mais um nome que podemos incluir nessa lista de ilustres mestres da sétima arte. Assim, estão a chegar às salas nada mais nada menos que dez títulos de Rossellini, cumprindo uma temporada de exibição (começa dia 26, em Lisboa; a partir de 9 de Abril, no Porto) que nos poderá permitir redescobrir a herança estética, e também a exigência ética, de um criador sem o qual nunca será possível compreender a eclosão da modernidade cinematográfica.
Em 1959, nos tempos heróicos da Nova Vaga francesa, Jean-Luc Godard publicou na revista Arts uma entrevista (imaginária) com Rossellini a que deu um título de poética contundência: “Um cineasta é também um missionário”. Tinha acabado de sair o filme Índia (na altura conhecido como Índia 58) e, numa apaixonada celebração da solidão criativa de Rossellini, escrevia o futuro autor de Pedro, o Louco: “(...) humildade e lógica eram os dois singulares valores que iluminavam esta viagem ao fim da noite cinematográfica, viagem que o conduziu ao berço da civilização indo-europeia”.

segunda-feira, março 23, 2015

Cannes sob o signo de Bergman

Ingrid, entenda-se. Ingrid Bergman será o rosto simbólico da 68ª edição do Festival de Cannes (13/24 Maio): o cartaz oficial do certame é feito com uma fotografia da actriz de Casablanca (1942), Difamação (1946) e Stromboli (1950), da autoria de David Seymour (um dos fundadores da agência Magnum).
A escolha ocorre no ano em que se assinala o centenário do nascimento de Ingrid Bergman, facto que dará origem, em Setembro, a um espectáculo (Ingrid Bergman Tribute) que está a será preparado pela filha, Isabella Rossellini. Entretanto, espera-se que a secção Cannes Classics dê especial destaque a alguns títulos da filmografia da actriz — para já, está anunciado o documentário Ingrid Bergman, In Her Own Words [foto], realizado por Stig Björkman.

Os filmes de Laura Marling

O novo álbum de Laura Marling chama-se Short Movie. Sugestão cinematográfica? Muito provavelmente, sobretudo porque a sua delicadeza folk continua a possuir a dimensão confessional de pequenas histórias que se fazem e desfazem através do próprio canto (ela já nem sequer está com o cabelo escuro...). Por vezes, tudo isso pode acontecer através de desenhos animados tão transparentes quanto assombrados — eis o teledisco do tema-título.

domingo, março 22, 2015

Cinderela vs. Cinderela

2015
O projecto dos estúdios Disney de refazer os clássicos de animação "encalhou" na nova Cinderela — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Março), com o título 'Estudando os clássicos'.

Os críticos não gostam de filmes de efeitos especiais... Eis um lugar-comum de agressiva ignorância. Para além de tratar os “críticos” como um rebanho de gente desmiolada, o seu uso tem-se reduzido a produções recentes, de preferência com super-heróis a destruir arranha-céus...
1950
Assim se mascara o facto de o conceito de efeito especial ser tão antigo como o próprio cinema (vejam-se os filmes de Georges Méliès, realizados há mais de cem anos), estando muito longe de se restringir aos blockbusters da última década (quem reparou que um momento decisivo na evolução da tecnologia cinematográfica se chama Irmãos Inseparáveis, foi realizado por David Cronenberg em 1988 e encena Jeremy Irons a dialogar com... Jeremy Irons?).
Vem isto a propósito da frustrante ostentação da nova Cinderela. O problema não é a utilização de efeitos especiais, mas sim a sua pacatez: a transformação da abóbora em carruagem dourada é de tal modo amadorística que não faz justiça ao tradicional rigor dos estúdios Disney. Mais do que isso: o filme confunde artifício e ruído com a subtileza de uma fábula, a ponto de reduzir a cruel madrasta a uma desastrada caricatura, para mais condenando uma actriz como Cate Blanchett a passar o filme a fazer caretas para grandes planos tão breves quanto banalmente instrumentais.
Maléfica, outra produção recente com chancela Disney, pode servir de contraponto: porque arriscava transfigurar a história original de forma feliz e contagiante, e também porque oferecia aos seus actores (a começar, claro, por Angelina Jolie) a possibilidade de existirem face à câmara. Além do mais, quando revemos a serena elegância narrativa do desenho animado Cinderela (foi em 1950!), não podemos deixar de reconhecer que vale mesmo a pena estudar os clássicos.

sábado, março 21, 2015

"House of Cards", política & etc.

Na sua terceira temporada, House of Cards continua a ser um exemplo da mais sofisticada ficção televisiva — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Março), com o título 'Na intimidade da política'.

Quais são os impulsos temáticos que podem ajudar a explicar certos fenómenos de popularidade? Por certo temas universais como a paixão amorosa ou o medo da morte... Nesse aspecto, de Shakespeare às modernas grelhas televisivas, talvez as coisas não tenham mudado tanto quanto pensamos (ou queremos acreditar).
É evidente que a série House of Cards — cuja terceira temporada arrancou, há poucas semanas, no TV Séries — ilustra de forma exemplar esse poder universal da ficção. Afinal de contas, através das atribulações da personagem de Frank Underwood (Kevin Spacey), agora chegado à condição de Presidente dos EUA, deparamos com as convulsões mais radicais da política, vividas entre a vida e a morte (literalmente, como bem sabem os espectadores fiéis).
Ainda assim, julgo que será importante não cairmos no cinismo corrente, sempre empenhado em empolar as desilusões que muitos protagonistas da cena política vão provocando nos seus eleitores. House of Cards não é, longe disso, uma banal demonização dos políticos (coisa que, infelizmente, parece ser o único plano de trabalho de algumas linguagens que encontramos no domínio jornalístico). Se há tema subjacente à dinâmica da série, particularmente reforçado nesta terceira temporada, dir-se-ia que é o de um trágico intimismo.
Repare-se na transfiguração a que Frank é sujeito, quando compreende que a consolidação do seu poder não é acompanhada pelas figuras do seu círculo interior que, ao terceiro episódio da nova temporada, lhe dão a conhecer a decisão de não o apoiar nas eleições de 2016. E observe-se, sobretudo, a evolução da personagem da mulher do Presidente, Claire Underwood, algo perdida (ou talvez não) na teia de poder que ela própria construiu.
A crescente importância afectiva e simbólica de Claire reforçou o peso subtil da sua intérprete, Robin Wright, inclusive enquanto realizadora — já tinha assinado um episódio na segunda temporada, dirigindo mais dois (9º e 12º) na terceira.