terça-feira, Outubro 21, 2014

Ver + ouvir:
Pond, Elvis' Flaming Star



Projeto paralelo de elementos dos Tame Impala, os Pond anunciam um novo álbum para edição logo no início de 2015. Aqui fica um primeiro avanço, na forma de um teledisco (realizado pelos próprios elementos da banda).

Atenção: mais bilhetes para Björk,
mas agora para a sessão das 19.00


As salas de cinema UCI no El Corte Inglés (Lisboa) e Arrábida Shopping (Porto) vão apresentar amanhã em sessões às 19.00 e 22.00 o filme-concerto Björk: Biophilia Live, captado ao vivo em Londres em 2013, no Alexandra Palace.


O Sound + Vision tem hoje mais 10 convites duplos, desta vez para as sessões das 19.00 horas em Lisboa e no Porto. Para os obter basta que entre em contacto connosco através do email oficial do blogue (em sound--vision@hotmail.com), devendo aí dizer-nos qual é o seu disco preferido da cantora islandesa. Se quiser juntar uma ou duas frases a dizer o porquê da escolha, serão opiniões bem vindas. A atribuição dos bilhetes será feita pela ordem de chegada dos emails (o "voto" no disco é mais uma curiosidade nossa).

Os vencedores do passatempo de ontem foram já avisados por email.

Já agora lembramos que a sessão das 22.00 no El Corte Inglés (Lisboa) terá uma apresentação pelos dois autores deste blogue.

Novas edições:
Julian Casablancas & The Voidz

“Tyranny”
Cult Records
2 / 5

Na aurora do milénio os Strokes anunciavam o reencontro das atenções do mundo (indie) com a música elétrica made in Nova Iorque. Estabelecendo ligações diretas com memórias das escolas de 70 que da cidade chegaram depois ao mundo via CBGB e outros palcos, o álbum de estreia dos Strokes brilhava porque não se limitava a propor um exercício de mascarada nostálgica. Trazia de facto grandes canções, um sentido de atualidade no seu discurso e transportavam a carga de quem nascera e crescera sobre as memórias que ali eram tomadas como genética na base de todo o edifício musical. Depois houve um segundo álbum em registo mais-do-mesmo (mas com uma nova bela coleção de canções) e ainda um terceiro, o belíssimo First Impressions of Earth, onde se levantavam hipóteses de novos caminhos. A pulverização do grupo em projetos paralelos e a medíocre discografia que editaram desde então deixou sombrias nuvens sobre o grupo que, a menos que estejamos todos enganados, arrumou nos seus três primeiros álbuns o que de interessante nos tinha para contar. Dividindo muitas opiniões o álbum de estreia a solo do vocalista Julian CasablancasPhrazes For The Young, de 2009 – aproveitava algumas sugestões do opus 3 dos Strokes, juntava sintetizadores vintage e um sentido pop acridoce para mostrar para onde a coisa poderia ter ido em grupo (sim, gostei muito do álbum)... Mas agora, cinco anos depois dessa experiência promissora e um ano após uma colaboração com os Daft Punk que assentou que nem uma luva num álbum que se afirmou como um dos casos de popularidade maior de 2013 (mas que de todo não representa o melhor do duo francês), eis que Julian Casablancas regressa com um segundo álbum que prefere assinar em conjunto com os The Voidz, a banda que agora o acompanha. Tyranny não é contudo nem um sucessor natural do álbum a solo de 2009 nem uma derivação ou reencontro com o terreno “clássico” dos Strokes. É, como diriam os Monty Python, algo completamente diferente. O que pode ser bom ou nem por isso. E na verdade é mais o segundo caso. Se por um lado o disco promove um alargamento de horizontes que vão da assimilação de heranças do punk de segunda geração (Black Flag e afins) a uma mais evidente presença de teclados com sabor vintage, traduzindo o que parece ser um olhar crítico e irado sobre o nosso tempo, ocasionalmente resultando em propostas convidativas e desafiantes (como sucede ao som de Nintendo Blood ou Take Me In Your Army), a verdade é que muito do alinhamento parece mais uma coleção de ideias à espera de arrumação que um conjunto de canções com a solidez que a obra de Casablancas já antes nos mostrou. Human Sadness, o longo épico de dez minutos que foi cartão de visita do álbum, dava conta de um mundo vasto de ideias em jogo. O álbum, contudo, peca por não as aproveitar devidamente.

Em conversa: Perfume Genius (1)


Voltei a conversar com Mike Hadreas a propósito de um disco do seu projeto Perfume Genius, desta vez com Too Bright na berlinda. Esta entrevista serviu de base a um artigo publicado no DN.

Fez dois discos lentos, com canções de enorme fragilidade. E agora surge um álbum que se apresentou ao som de duas canções completamente diferentes. Era preciso mudar? 
Tentei ir um pouco mais longe com este disco, em todos os sentidos. E não seria justo para com o disco se não o começasse a apresentar com canções que que deixam claramente essa ideia de mudança. Até a capa do disco queria que traduzissem uma sentido de força muito especial. Não que as outras canções não fossem fortes, mas traduzem um outro sentido de força.

Há uns anos apresentava como foto oficial o seu rosto com um olho esmurrado. Agora o homem que se mostra na capa do novo disco parece ser aquele que dá murros...É um pouco essa a ideia. Sim...

Conquistou uma certa auto-confiança? O que mudou?
Conquistei alguma confiança, sim. Durante algum tempo mantive uma certa atitude de quem tomava um olhar de vítima perante o mundo. Estava em modo de defesa. Ressentia o mundo. Mas não estava mais a funcionar para mim manter-me nesse modo, paciente e apologético. Isso ainda está um pouco comigo, é verdade. Mas esta canção foi uma maneira de procurar ir para além disso, me dá força. Uma força que não vem da mudança, mas de um orgulho em ser quem sou e como sou. Não a fazer as coisas de forma diferente, mas processando-as de outra maneira. Ao mesmo tempo é uma canção em que aponto o dedo a outras pessoas também.

Fazer canções, enfrentando plateias, foram lições de autoconfiança para si nestes últimos anos?
Estar ali à frente de toda a gente? Sim... Mas mesmo que as coisas tenham melhorado, e estou mesmo satisfeito com isso, ainda não me encaixei a 100%... Mesmo que a música traduza a autoconfiança maior que sinto, é mais uma projeção do que quero ser. É um lugar a que sei que posso chegar se me livrar dos meus problemas e das minhas inseguranças ridículas. Aos poucos estou a chegar lá... Mas sou uma pessoa de humores... Mas se me sento e paro para pensar lembro-me de como, há quatro anos, ficava aterrorizado só por estar em palco. Agora estou preocupado com o concerto, mas não com o facto de ter de lá estar. É importante para mim fazer as coisas mesmo que me assustem. Há anos sentia demasiadas inseguranças. Este disco envolveu algum rico para mim. Envolveu enfrentar a timidez de partilhar estas coisas. Mas é importante mostrar as coisas. E é por isso que o lado performativo é também importante.

Há mais raiva neste disco? 
Sim... Os meus dois primeiros discos tinham a ver com o enfrentar do meu passado. Eram coisas que já tinham acontecido e era importante ter compaixão e ser gentil para com essas coisas. Não que esses dois álbuns não tenham qualidades de coragem e força, mas havia uma doçura na forma de lidar com tudo. Mesmo quando os temas eram negros... Desta vez era importante para mim agir de forma diferente. Era mais terapêutico para mim estar zangado... Pode parecer mais sofisticado, mas é mais gutural.

(continua)

Para ler: Ainda sobre a ópera de John Adams,
chega a resposta do Met

É um dos casos do ano nos palcos de ópera. Levantada a "polémica" (por quem a entendeu levantar), o Met responde aos "protestos"...

Podem ler aqui texto de hoje no Guardian.

segunda-feira, Outubro 20, 2014

A natureza segundo Björk

* As salas de cinema UCI no El Corte Inglés (Lisboa) e Arrábida Shopping (Porto) vão apresentar no próximo dia 22, em sessões às 19.00 e 22.00 o filme-concerto Björk: Biophilia Live.

* Convites para oferecer — ver informação.

Na longa história da passadeira vermelha dos Oscars, o vestido/cisne que Björk usou na cerimónia de 25 de Março de 2001 integra, em posição de grande destaque, a galeria de excentricidades. A ponto de se omitir quase sempre que a islandesa estava nessa cerimónia (73ª da Academia de Hollywood) como nomeada na categoria de melhor canção original, com I've Seen It All, de Dancer in the Dark (música de Björk; letra de Lars von Trier e Sjon Sigurdsson), que aliás interpretou durante o espectáculo [video]. Em boa verdade, o pitoresco não chega para definir a sua insólita presença. Num certo sentido, podemos mesmo considerar que o seu devir-ave foi tão só uma derivação dos seus muitos, fascinantes e divertidos exercícios de contaminação animal — para nos ficarmos por um dos mais notáveis, lembremos o pequeno zoo do teledisco de Human Behaviour (Michel Gondry, 1993). Dito de outro modo: o universo figurativo de Björk implica um permanente desafio às fronteiras do factor humano e, nessa medida, um jogo de ambivalências com as suas evidências ou as suas máscaras. Também em forma de cisne, hélas!

Ver + ouvir:
U2, The Miracle (Of Joey Ramone)



Os U2 lançaram finalmente um teledisco para o primeiro single que extraem do alinhamento do álbum Songs of Innocence, que na passada semana conheceu edição em suporte físico. Aqui ficam as imagens.

Ganhe aqui bilhetes para ver
'Biophilia Live' de Björk dia 22


As salas de cinema UCI no El Corte Inglés (Lisboa) e Arrábida Shopping (Porto) vão apresentar esta quarta-feira, dia 22, em sessões às 19.00 e 22.00 o filme-concerto Björk: Biophilia Live, captado ao vivo em Londres em 2013, no Alexandra Palace.

O Sound + Vision tem 10 convites duplos para as sessões das 22.00 horas em Lisboa e no Porto. Para os obter basta que entre em contacto connosco através do email oficial do blogue (em sound--vision@hotmail.com), devendo aí dizer-nos qual é o seu disco preferido da cantora islandesa. Se quiser juntar uma ou duas frases a dizer o porquê da escolha, serão opiniões bem vindas. A atribuição dos bilhetes será feita pela ordem de chegada dos emails (o "voto" no disco é mais uma curiosidade nossa).

Já agora lembramos que a sessão das 22.00 no El Corte Inglés (Lisboa) terá uma apresentação pelos dois autores deste blogue.

Reedições:
Underworld

“Dubnobasswith- myheadman”
Universal
5 / 5

Entre os muitos frutos da revolução que partiu da música de dança em finais dos anos 80 conta-se a definitiva sedução de muitos (músicos e melómanos) vindos de escolas mais próximas do rock aos espaços das novas pistas de dança e às electrónicas. Se as primeiras manifestações deste novo entendimento ganharam forma em diálogos como os que foram promovidos por nomes como os Stone Roses, Happy Mondays ou Primal Scream entre finais dos 80s e inícios dos 90s, com a entrada de uma nova década em cena algumas destas formas entranharam-se e definiram novas maneiras de estar na música electrónica tendo toda uma série de heranças colhidas na cultura rock já assimiladas e transformadas. Nomes como os KLF ou Underworld foram aqui peças centrais na afirmação de um terreno que depois floresceu e gerou as suas descendências. Se os primeiros são hoje uma presença injustamente esquecida – com discografia há muito a merecer um tratamento antológico e a criação de reedições “deluxe” que tardam a surgir – dos segundos chega-nos o álbum que os inscreveu no mapa dos acontecimentos maiores dos anos 90 e que antecedeu o clássico Born Slippy que então correu mundo. Com uma outra formação (e uma outra orientação musical) os Underworld já tinham gravado dois discos antes de encontrarem o caminho que aqui os conduziu. O eureka que os impediu de serem um entre tantos nomes inconsequentes entre os demais da sua geração surgiu quando entra em cena o muito jovem Darren Emerson, que se juntou ao núcleo central constituído por Karl Hyde e Rick Smith e o levou a descobrir os caminhos de novas visões que então ganhavam forma nas noites de Londres, então entregues aos deleites da cultura rave. Uma primeira sucessão de singles definiu aos poucos uma clara reorientação do caminho pelo qual nascia a música dos Underworld. Mas coube a Dubnobasswithmyheadman a definição de um livro de estilo para uma nova forma de entender não apenas uma relação entre a forma da canção e a pista de dança, mas também um modo diferente de pensar a voz neste quadro de acontecimentos. Conciliando heranças escutadas desde os tempos do disco e assimilações profundas de ensinamentos do dub, juntando um sentido de arquitetura rítmica intenso e envolvente, os temas do álbum lançado há precisamente 20 anos traduziam ao mesmo tempo um sentido de novidade e de convite a participar na festa, mas com uma capacidade rara de gerar familiaridade, cativando com facilidade não apenas os já arrebatados pelas noites longas das raves de então, mas os rockers que ali sentiram afinidades que criações anteriores via house, acid house ou techno não haviam sugerido. A edição DeLuxe que assinala o 20º aniversário deste disco que fez história junta um segundo CD com temas extra, entre os quais os longos (e magníficos) Rex – onde se nota uma certa relação com o tipo de devaneio repetitivo em cruzamento de escolas techno com um serto sentido pop que então tinha nos Fluke uma referência - e Spikee, singles que acabaram fora do álbum mas que, com Mmm... Skyscraper I Love You deram os primeiros sinais do que seria esta nova era para os Underworld. Já em Eclispe e Dirty, também neste CD2, encontramos os elos “perdidos” com o techno e o acid house que, com o tempo, os Undeworld integrariam, já digeridos, no âmago da sua música. Vinte anos depois, e com notas assinadas por Jon Savage, serve-se um álbum que fez diplomacia entre os mundos da música de dança e do rock. Mais um muro caia por terra de vez.

Pixies lançam edição especial
que assinala 25 anos de 'Doolittle'


Originalmente lançado em 1989, o álbum Doolittle, dos Pixies, vai ter uma edição comemorativa dos seus 25 anos. Com uma nova capa (que apresentamos neste post), o disco vai juntar ao alinhamento do álbum original uma série de faixas extra, entre as quais lados B de singles, maquetes e sessões gravadas em estações de rádio. Todos estes extras estão diretamente relacionados com a época que corresponde ao disco e a edições de singles extraídos do seu alinhamento. Com o título Doolittle 25, este lançamento especial é editado a 2 de dezembro.

Para os interessados fica aqui o alinhamento:

Disco 1: Doolittle
1. Debaser (2.52) 2. Tame (1.55) 3. Wave of Mutilation (2.04) 4. I Bleed (2.34) 5. Here Comes Your Man (3.21) 6. Dead (2.21) 7. Monkey Gone to Heaven (2.57) 8. Mr. Grieves (2.05) 9. Crackity Jones (1.24) 10. La La Love You (2.43) 11. No. 13 Baby (3.51) 12. There Goes My Gun (1.49) 13. Hey (3.31) 14. Silver (2.25) 15. Gouge Away (2.45) 

Disco 2: Lados B & Peel Sessions
Peel Session gravada a 18 de outubro de 1988 1. Dead (3.18) 2. Tame (1.58) * 3. There Goes My Gun (2.18) 4. Manta Ray (1.49) Peel Session gravada a 2 de maio de 1989 5. Into The White (4.11) * 6. Wave of Mutilation (2.31) 7. Down To The Well (2.14) 'Monkey Gone To Heaven'™ Lados B 8. Manta Ray (2.40) 9. Weird At My School (1.58) 10. Dancing The Manta Ray (2.14) 'Here Comes Your Man' 11. Wave of Mutilation (UK Surf) (3.02) 12. Into The White (4.43) 13. Bailey's Walk (2.24)

Disco 3: Maquetes
1. Debaser (3.00) 2. Tame (2.10) * 3. Wave of Mutilation (First Demo) (2.04) * 4. I Bleed (1.46) * 5. Here Comes Your Man (1986 Demo) (3.07) 6. Dead (1.35) * 7. Monkey Gone To Heaven (2.52) * 8. Mr. Grieves (1.42) * 9. Crackity Jones (1.21) * 10. La La Love You (2.08) * 11. No. 13 Baby - VIVA LA LOMA RICA (First Demo) (2.17) * 12. There Goes My Gun (1.29) * 13. Hey (First Demo) (3.22) * 14. Silver (2.11) * 15. Gouge Away (1.42) * Bonus Demo Tracks 16. My Manta Ray Is All Right (2.30) * 17. Santo (2.17) * 18. Weird At My School (First Demo) (1.53) * 19. Wave Of Mutilation (1.30) * 20. No. 13 Baby (3.07) 21. Debaser (First Demo) (3.37) * 22. Gouge Away (First Demo) (2.08) *

Os temas com asterisco são gravações inéditas

Para ler: Ópera de John Adams no Met
estreia hoje sob protestos

Um perfeito disparate, digo eu, sobre os protestos que, ao que parece, vão hoje "acolher" a estreia no Met de uma nova produção da magnífica ópera The Death of Klinghoffer, de John Adams. O "caso" já dura há meses e resultou no cancelamento da transmissão da ópera no programa Met Opera in HD, que a Gulbenkian chegou a ter agendado.

Podem ler sobre estes protestos aqui, em notícia do New York Times.

domingo, Outubro 19, 2014

Alain Resnais vai ao teatro (1/2)

Os dois títulos finais de Alain Resnais chegaram, em simultâneo, às salas portuguesas: é um dos grandes acontecimentos cinematográficos do ano — este texto integrava um dossier sobre essas estreias, publicado no Diário de Notícias (10 Outubro).

Alain Resnais, nome fundamental da Nova Vaga francesa, faleceu no passado dia 1 de Março, contava 91 anos. O seu derradeiro filme, Amar, Beber e Cantar chegou às salas francesas poucas semanas mais tarde, a 26 de Março — quer isto dizer que Resnais trabalhou até final, deixando uma obra em que o gosto experimental se combina sempre com a alegria criativa.
Agora, justamente, o mercado português oferece-nos a possibilidade de descoberta do período final de Resnais, com a estreia simultânea de Vocês Ainda Não Viram Nada, o penúltimo dos seus títulos, datado de 2012, e Amar, Beber e Cantar. O mínimo que se pode dizer é que se trata de uma oportunidade especial de (re)encontro com as singularidades de um autor que, desde as primeiras longa-metragens — Hiroshima, Meu Amor (1959) e O Último Ano em Marienbad (1961) — desafiou cânones e abriu os nossos olhares para novas paisagens expressivas.
Tal como diversos títulos da última fase da sua carreira, a começar pelo díptico Fumar/Não Fumar (1993), ambos os filmes se inspiram em textos teatrais. Dir-se-ia que, em determinado momento, Resnais decidiu apostar em questionar o cinema através do teatro. Aliás, Alan Ayckbourn, o autor inglês da peça Intimate Exchanges, na origem de Fumar/Não Fumar, é o mesmo que escreveu Life of Riley, adaptada em Amar, Beber e Cantar. Quanto a Vocês Ainda Não Viram Nada, é o teatro de Jean Anouilh que lhe serve de inspiração, mais concretamente através dos textos de Eurídice e Cher Antoine ou l’Amour Raté.
Ambos os filmes definem um discreto testamento cinematográfico. Resnais nunca foi um criador que reivindicasse uma dimensão confessional, mas é um facto que estes dois títulos, socorrendo-se dos artifícios do teatro, deixam uma visão, a um tempo pedagógica e sarcástica, da própria condição autoral. Mais do que isso: tanto num como noutro, a presença da morte é um dado de poética ambivalência.
Vocês Ainda Não Viram Nada envolve um insólito trabalho de luto, já que a figura central, interpretada por Denis Podalydès, é um encenador de teatro, já falecido, que deixou um invulgar legado: um filme em que solicita a um grupo de actores, com que trabalhou ao longo dos anos, uma avaliação da sua encenação da Eurídice, de Anouilh (o filme dentro do filme foi registado por Bruno Podaydès, irmão de Denis, com jovens intérpretes do grupo La Compagnie de la Colombe). Perante tal filme, os actores — que Resnais identifica pelos nomes verdadeiros: Sabine Azéma, Pierre Arditi, Michel Piccoli, etc. —submetem-se a um verdadeiro jogo de espelhos em que todas as diferenças entre a vida representada e a vivida vacilam de forma irónica, por vezes cruel.
O caso de Amar, Beber e Cantar tem qualquer coisa de genuína farsa, já que as personagens estão envolvidas na preparação de uma peça com o enigmático Riley (citado no título de Ayckbourn) que, em boa verdade, só vai estando presente através daquilo que os outros dizem sobre ele... A ponto de a doença que o afecta pairar como um fantasma quase burlesco.
Com Vocês Ainda Não Viram Nada e Amar, Beber e Cantar, Resnais concluiu sob o signo do teatro uma obra cinematográfica que se desenvolveu ao longo de cerca de sete décadas. A sua vitalidade é inseparável de uma continuada atenção a outras linguagens artísticas, desde a pintura (lembremos a curta-metragem Guernica, de 1950, sobre o quadro de Picasso) até à música (Nos Lábios Não, de 2003, adapta uma opereta do começo do séc. XX). Para ele, o cinema podia sempre reinventar-se através das outras artes.

Twin Peaks, 2016

Twin Peaks vai voltar em 2016... O espaço televisivo aposta, assim, na reconversão das suas próprias memórias — esta crónica de televisão foi publicada na revista "Notícias TV", do Diário de Notícias (10 Outubro), com o título 'Twin Peaks e um café...'

Por estes dias, chegou uma notícia, de facto, inesperada, ou melhor, muito pouco provável, mesmo para os que há muito esperavam ouvi-la: a série Twin Peaks vai voltar, um quarto de século depois do seu espectacular impacto [Variety].
A primeira passagem de Twin Peaks ocorreu em 1990-91. O conjunto de nove episódios agora anunciado surgirá em 2016, desta vez com chancela do canal Showtime (cujo maior trunfo é a série Homeland/Segurança Nacional). David Lynch e Mark Frost vão regressar como autores, não se sabe ainda se recuperando ou não alguns nomes do elenco original, a começar por Kyle MacLachlan, o enigmático Dale Cooper, agente especial do FBI.
Seja como for, este é um daqueles anúncios que suscita uma dúvida, curiosa e desconcertante, sobre a evolução conceptual da própria televisão: será que as sequelas, e outras formas de recuperação de sucessos de um passado mais ou menos distante, tão típicas da produção cinematográfica das décadas mais recentes, vão passar a ser uma variante do próprio espaço televisivo? Porque, repare-se: já não se trata de refazer modelos do cinema (coisa que a televisão sempre fez, nem sempre com resultados muito estimulantes), mas sim de relançar um produto “interno”.
A informação publicada em The Hollywood Reporter (6 Out.) diz isso através de uma “teorização” bizarra: “A notícia chega numa altura em que os criativos da televisão continuam a olhar para o passado, esperando garantir novos sucessos, à medida que a tendência para reinventar e modernizar títulos populares com uma fiel base de fãs se torna uma prática normal.” São palavras que não podem deixar de atrair uma especulação algo pessimista: na falta de novas ideias, os “criativos” agarram-se às referências do passado...
Enfim, não está em causa o talento de Lynch/Frost, até porque Twin Peaks ficou, de facto, como um objecto de excepção. Mas o problema começa aí: será que alguém acredita que a excepção se pode transformar em regra? O agente Cooper, entretanto, limitou-se a pedir mais um café...

>>> Twin Peaks no DMOZ.
>>> Fundação David Lynch.

A música clássica também se remistura!

O conceito de remistura (como o usa hoje a indústria musical) floresceu nos anos 70 em plena era de afirmação do disco sound como força marcante no panorama da música de então, acompanhando desde cedo a entrada em cena de um novo formato discográfico: o máxi-single (de doze polegadas, ou seja, com um diâmetro idêntico ao do LP) no qual começaram então a surgir versões longas criadas para a pista de dança. As remisturas, que alongavam e, aos poucos, começaram a transformar os temas que tomavam como matéria prima, ganharam expressão bem visível nos anos 80, com o tempo sendo rara a edição em single nas áreas da pop, rhythm’n’blues, hip hop e naturalmente da música de dança que não serviam a versão máxi com uma ou mais remisturas... A (re)descoberta do jazz por figuras do acid jazz, rare groove, soul e jazz hip hop (entre outros caminhos) na alvorada dos anos 90 transportou o conceito para as periferias do género. Mais dia menos dia a música clássica lá chegaria. Assim foi. Nomes como Philip Glass e Steve Reich – tomados como referência para novas gerações de criadores de música electrónica – foram dos primeiros a lançar álbuns de remisturas através das quais fragmentos de obras suas conheciam novas abordagens sob pontos de vista levantados por novas formas de entender, no presente, a carga das suas heranças. Mais recentemente a editora Deutsche Grammophon abriu no seu catálogo um espaço para que músicos vindos dos espaços das novas electrónicas e da música de dança – como Moritz Von Oswald, Carl Craig ou Herbert, entre outros – pudessem operar transformações a partir de gravações do seu catálogo de música orquestral. Assim nasceu a série re-composed, onde do conceito de remistura nascia uma abordagem ainda mais profunda ao nível da estruturação da obra que, com um ponto de partida numa gravação de uma obra “clássica”, acabava por nos apresentar uma nova visão: a tal “re-composição”. Um dos nomes chamados a colaborar nesta série foi o alemão Max Richter, que resolveu operar uma transformação sobre as Quatro Estações de Vivaldi a um nível de partitura. Diferente, portanto, do cruzamento com técnicas e formas habituais na música electrónica contemporânea que até aqui estavam a caracterizar muitas das edições desta série.

Max Richter é contudo agora coprotagonista num trabalho mais “canónico” de remistura. Com obra a solo que remonta a 2001, em muitos dos seus discos tendo já cruzado a presença da orquestra com a das electrónicas, Max Richter viu recentemente o tema Berlin By Overnight, do seu álbum 24 Postcards in Full Color (de 2008) ser incluído por Daniel Hope no alinhamento de Spheres. Agora, esse tema é tomado como material de trabalho para quatro remisturas, que assim promovem mais uma série de encontros e diálogos, contribuindo para o talhar de uma ideia do que pode ser a música do século XXI como espaço onde tudo pode confluir e onde todas as vozes se podem entender. 

As abordagens vão dos espaços mais próximos do tecno minimal na leitura de Efdemin (Alemanha) às explorações minimalistas da “voz” do violino por CFDF (Canadá), onde sentimos uma presença das lições de Steve Reich, passando por um espaço de partilha entre estes dois terrenos na faixa assinada por Lorna Dune (presentemente em Nova Iorque), terminando o alinhamento na proposta mais “transformadora” do britânico Tom Adams, compositor, multi-instrumentista e autor de canções, que junta uma presença vocal e traça uma noção de cenografia orquestral mais elaborada, sem perder nunca de vista o ponto de partida (que de resto o disco inclui, logo como faixa de abertura). SE dívidas houvesse da boa relação da música orquestral com o conceito de remistura, este disco arruma-as (e bem).

Três décadas de Pop dell' Arte


Este artigo foi originalmente publicado na edição de 11 de outubro do DN com o título 'Os trinta anos da banda que foi diferente entre as diferentes'.

Depois de normalizada a vida política e de criada uma cultura jovem no Portugal de inícios dos anos 80, o passo seguinte para muitos foi o que procurou aprofundar o gosto pela busca de novos desafios, estimulando a criatividade para além dos limites normativos. Da música à moda, a Lisboa de então acolheu novos vultos e ideias. Diferentes entre os diferentes os Pop Dell’Arte surgiram em inícios de 1985 com o (mítico) Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous na mira dos seus primeiros objetivos. Não ganharam, mas saíram de lá com o Prémio de Originalidade. Troféu justo, brindando logo à nascença uma banda que desde então traçou um percurso único, sem comparação a mais nenhuma banda deste e do outro lado das fronteiras. São os Pop Dell’Arte, está tudo dito. E quase 30 anos depois, são uma força ainda viva, tendo assinalado com a passagem pelo palco do Sabotage Club, em Lisboa, no passado dia 10, uma noite que assim abre um ano que justifica esta e outras abordagens à sua obra.

O ponto de partida para a música dos Pop Dell’Arte foi, pela ordem instrumental e pelo universo em que se afirmaram, o espaço que genericamente se descreve como o pop/rock alternativo. Mas desde cedo outros estímulos e influências – da literatura e artes plásticas à própria música – incentivaram a procura de outros caminhos. Heranças de visões de Braque e Picasso sobre a colagem (em inícios do século XX), a ideia do ready made de Duchamp e a pop art de Warhol foram apenas alguns entre os muitos dados que o grupo levou às suas composições, imagens e concertos. Assim se definiram temas icónicos como Sonhos Pop ou Illogic Plastik, esse álbum de estreia absolutamente visionário que foi Free Pop (editado em 1987) e, toda uma restante discografia que, muito espaçada no tempo, inclui ainda os álbuns Ready Made (1992), Sex Symbol (1995) e Contra Mundum (2010), além de vários máxis e EPs – entre os quais o belíssimo So Goodnight (2002) e duas antologias.

Passo determinante na afirmação não apenas da personalidade única dos Pop Dell’Arte mas de um espaço próprio no panorama da música portuguesa de meados dos oitentas, numa altura em que uma nova cultura alternativa emergia, foi o surgimento da editora independente Ama Romanta, que assegurou o lançamento dos primeiros títulos da obra do grupo, a eles juntando outros que ajudaram a dar forma a uma geração que procurava, de uma genética comum, partir rumo a horizontes desconhecidos, fugindo a sete pés de mimetismos ou seguidismos. Ser ousado, ser diferente era a norma. E juntamente com nomes seus contemporâneos como os Mler Ife Dada ou Mão Morta, os Pop Dell’Arte fizeram a diferença.

A obra dos Pop Dell’Arte passou por várias etapas, cada qual atenta a novos estímulos e surgindo em contextos distintos. Mas sempre não alinhada. Houve assimilações da cultura rave nos anos 90. Houve uma breve passagem por uma multinacional (a Universal, onde editaram um álbum em 1995). Houve problemas pessoais e pausas. Mas sempre que regressam revelam uma rara capacidade em juntar novas gerações que deles tinham ouvido falar aos velhos admiradores que nunca os abandonaram.

Há alguns anos, numa entrevista para o DN, João Peste dizia-me que sabia que o projeto da Ama Romanta estava condenado à partida, porque começavam “com uma situação em défice”. Essa consciência fez com que ali nunca procurassem o negócio, o lucro. Mantiveram assim intacta a atitude e, como ele mesmo descreveu, uma certa “pureza de intenções”. O álbum de estreia dos Velvet Underground, por exemplo, foi um fracasso nas vendas em 1967. É verdade que deixaram mais evidente descendência. Mas, como os Pop Dell’Arte, cruzaram universos e aproximaram a noção de arte ao espaço da cultura pop/rock.

Com João Peste agora e sempre como a sua voz e mais visível rosto, os Pop Dell’Arte são hoje, além dele, Paulo Monteiro (guitarras), Zé Pedro Moura (baixo), Nuno Castedo (bateria) e Eduardo Vinhas (teclados, percussão e electrónicas). Trinta anos depois, e com várias formações pelo meio, estão vivos e recomendam-se. E agora, como sempre, arriba avanti!

sábado, Outubro 18, 2014

Björk — o filme-concerto

* As salas de cinema UCI no El Corte Inglés (Lisboa) e Arrábida Shopping (Porto) vão apresentar no próximo dia 22, em sessões às 19.00 e 22.00 o filme-concerto Björk: Biophilia Live.

* O Sound + Vision vai ter bilhetes para oferecer aos seus leitores para todas estas sessões em Lisboa e no Porto. Basta para isso que fiquem atentos ao que aqui anunciaremos logo no início da semana...

A constatação será óbvia, mas aquilo que está em jogo é tudo menos convencional: Björk é uma das criadoras contemporâneas para quem a consciência de viver (e fazer música) numa sociedade mediática envolve uma vontade de pensar todas as formas de comunicação também através das imagens. Se outras provas fossem necessárias, a sua videografia bastaria para esclarecer tal vocação — para Björk, uma canção, mais do que "ilustrada", pode ser reinventada através das mais sofisticadas narrativas visuais.
Não admira, por isso, que o trailer de Björk: Biophilia Live se apresente como um breve, mas incisivo, catálogo de um espaço cenográfico todo ele pensado para servir a música e, por assim dizer, libertá-la para novas paisagens — aqui fica cerca de um minuto e meio, algures entre o teatro e a ficção científica.

O cinema através da televisão

SIX FOIS DEUX (1976), de Jean-Luc Godard
O espaço televisivo português é um triste exemplo de falta de diversidade, desde logo no domínio da ficção: onde está um pensamento político capaz de enfrentar esta tragédia cultural? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Outubro).

Enquanto o país continua a ser massacrado pela desvergonha da Casa dos Segredos — devidamente “sancionada” pelo silêncio de uma classe política que se demitiu da reflexão sobre a degradação dos padrões da cultura popular —, há acontecimentos realmente importantes na área da televisão. E, em particular, no domínio das relações entre espaço televisivo e produção cinematográfica.
Desde logo, através de um exemplo português: o filme Os Maias, de João Botelho, é o testemunho vivo da possibilidade de conceber um objecto audiovisual versátil — a adaptação de Eça de Queiroz será transmitida em formato de série, em 2015, na RTP — sem que isso implique qualquer cedência aos padrões dominantes de telenovelas e afins.
Surgiram também nas salas as duas partes de Heimat – Crónica de uma Nostalgia, mini-série cinematográfica com que Edgar Reitz prolonga a sua visão da história alemã: depois da primeira série Heimat (iniciada em 1984 e produzida ao longo de duas décadas), sobre o séc. XX, a nova produção recua a meados do séc. XIX, perscrutando as raízes rurais das suas personagens.
A conjuntura é tanto mais motivadora quanto, no âmbito do relançamento de dezassete filmes de Ingmar Bergman em cópias restauradas, surgiu em DVD Cenas da Vida Conjugal (1973), precisamente um título pioneiro de um entendimento da relação cinema/televisão que aposta nas potencialidades de cada um dos meios, sem menosprezar as respectivas especificidades. Espantosa viagem através das ilusões, silêncios e traumas de um casamento, Cenas da Vida Conjugal existe numa versão televisiva de 281 minutos, tendo sido remontado para as salas de cinema com 167 minutos (sendo esta a versão lançada em DVD).
O filme/série de Bergman, produzido há mais de quarenta anos, serve de amostragem de uma ideia essencial, regularmente mascarada pelo cinismo de alguns discursos televisivos: as possibilidades de uma inteligente e frutuosa interacção cinema/televisão não são uma “novidade” inventada pelos críticos, mas sim um dado de pensamento e acção há muito presente no audiovisual.
Roberto Rosselini foi um dos primeiros a conceber e valorizar as opções artísticas e pedagógicas de tal interacção — importa não esquecer que o seu admirável (tele)filme A Tomada do Poder por Luís XIV tem data de 1966. Lembremos também Jean-Luc Godard, autor da série Six Fois Deux, Sur et Sous la Communication em 1976, ou Michelangelo Antonioni que dirigiu a produção televisiva O Mistério de Oberwald em 1981.
Quando deparamos com o espaço televisivo português, não apenas minado pelos horrores da “reality TV”, mas também saturado de infinitas horas de telenovelas, o menos que se pode dizer é que as nossas coordenadas culturais foram obrigadas a recuar várias décadas... Onde está um politico com coragem e lucidez para falar desta hecatombe?

sexta-feira, Outubro 17, 2014

Revisitando Drácula (2/2)

HORROR DE DRÁCULA (1958)
A estreia de Drácula: a História Desconhecida surge, aqui, como pretexto para revisitar algumas referências emblemáticas na história cinematográfica dos vampiros — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Outubro), com o título 'Elogio dos vampiros'.

[ 1 ]

As coisas mudam... Quando consultamos a biografia oficial de Christopher Lee, as primeiras linhas definem-no como “estrela da trilogia de O Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson, depois citando a sua participação em dois episódios de A Guerra das Estrelas, produzidos por George Lucas. Onde está, então, a memória das suas lendárias interpretações do Conde Drácula? Há apenas uma referência ao filme Dracula (1958), entre nós chamado O Horror de Drácula [traduzindo a versão americana], sem que seja citado o nome fundamental do seu realizador, Terence Fisher, nem sequer o respectivo ano de produção. Mais ainda: na caracterização dos grandes papéis de Lee, a sua emblemática passagem pelas produções da Hammer Films é omitida e até mesmo a palavra “vampiro” nunca é utilizada...
Há outra maneira de caracterizar esta opção. Envolve um factor lamentável: a redução da memória a matrizes do presente, rasurando as diferenças e contrastes do próprio devir histórico. No caso concreto de Christopher Lee, defini-lo a partir dos seus papéis nos filmes de Peter Jackson ou George Lucas é uma simplificação tão infeliz como seria, por exemplo, considerar que a importância histórica de Alfred Hitchcock provém do facto de ter revelado Shirley MacLaine (o que, aliás, não deixa de ser verdade: foi sob a sua direcção que ela se estreou, em 1955, no filme O Terceiro Tiro).
Há, aqui, um sintoma que, como é óbvio, excede o caso pontual de Christopher Lee. Dir-se-ia que os padrões correntes da aventura e do espectáculo se dão mal com a pluralidade de um século de história do cinema. Há mesmo toda uma nova “cinefilia” que menospreza o valor das memórias, desse modo renegando o próprio gosto cinéfilo. Enfim, estejamos atentos ao simplismo do presente e não abdiquemos da convivência com os vampiros.

Ver + ouvir:
New Pornographers, Dancehall Domine



Mais um teledisco para um dos temas do álbum que o coletivo canadiano apresentou este verão. O teledisco tem assinatura Leblanc + Cudmore.

Novas edições:
Caribou

"Our Love"
City Slang
5 / 5

Através de nomes como Manitoba, Daphni ou Caribou o músico canadiano Dan Snaith tem vindo a construir uma das mais interessantes obras nos espaços da música eletrónica neste início de século. O projeto Caribou tem dominado as suas atenções nos últimos anos e, na sequência do muito promissor Swim, álbum de 2010 no qual arrumava mais que nunca as ideias em jogos de aproximação à música de dança e a sugestões da forma da canção, eis que nos dá em Our Love o seu melhor disco até à data. Quatro anos depois de Swim (com um disco de Daphni pelo meio) Our Love aprofunda mais ainda as ideias que o álbum de 201o ensaiara, apresentando um conjunto de dez composições magistralmente produzidas nas quais Dan Snaith cruza memórias, linguagens e formas para, definir um corpo coeso onde a variedade de referencias convocadas encontra um patamar comum de entendimento. O trabalho vocal, que não é exatamente o que conhecemos nos terrenos da “escrita” pop/rock, junta tonalidades e uma noção de corpo a estas composições que podemos entender como canções (o tema que abre o alinhamento, Can’t Do Withou You será um bom exemplo). Apesar de serem aqui frequentes as incursões por memórias de formas e sons (o tema-título do disco coloca-nos numa rota de reencontro com criações de Kevin Saunderson, um dos “pais” do techno, em finais dos oitentas), Our Love é um álbum que vinca o continuado gosto de Dan Snaith (leia-se aqui Caribou) em experimentar ideias, uma delas sendo a cada vez mais evidente aproximação à pista de dança. Inspirado, tecnicamente irrepreensível e com Owen Palett entre a equipa de colaboradores em estúdio, Caribou coloca-nos aqui perante um dos discos mais entusiasmantes do ano.

Björk: recordar 'Biophilia'

As salas de cinema UCI no El Corte Inglés (Lisboa) e Arrábida Shopping (Porto) vão apresentar no próximo dia 22, em sessões às 19.00 e 22.00 o filme-concerto Björk: Biophilia Live. O Sound + Vision vai ter bilhetes para oferecer aos seus leitores para todas estas sessões em Lisboa e no Porto. Basta para isso que fiquem atentos ao que aqui anunciaremos logo no início da semana... Até lá vamos recordando alguns momentos na obra de Björk que se cruzam com este projeto. Este, por exemplo, é um texto sobre o álbum Biophilia que aqui publicámos em 2011:

Se caminharmos através dos álbuns que Björk editou desde que, em 1993, encetou nova etapa da sua carreira com o excelente Debut, verificaremos que na sua agenda sempre morou uma vontade de não se repetir e um gosto particular pelo desafio. Umas vezes acertando na mouche, como sucedeu com olhares sobre formas e arranjos elaborados nos dias de Homogenic (1998) ou quando apontou azimutes à exploração digital do detalhe em Vespertine (2001). Outras tropeçando em armadilhas formais, como sucedeu com Medúlla (2004). Bipohilia assinala o regresso de Björk aos seus melhores dias, num disco que junta as electrónicas a fontes de som que resultam de novos instrumentos feitos à medida das necessidades. Reencontrando o poder primordial da canção. E com um quadro de intenções que vão para lá da música (mas nela concentrando a medula dos acontecimentos).

Não apenas representa o seu melhor disco em dez anos como traduz a expressão de uma vontade de ir além da música, usando a imaginação e as novas tecnologias ao seu dispor como ferramenta para a criação de algo que é mais que apenas um disco. De resto, por várias vezes Biophilia foi já descrito como um álbum de aplicações. Se, pegando no CD, nos parece “apenas” um disco, na verdade tanto a sua criação como a pluralidade de formatos em que é apresentado sublinham uma relação com uma nova era em que a música e as imagens podem existir em várias plataformas multimédia. Durante a gestação do álbum Björk e colaboradores criaram novos instrumentos pensados para servir características de som pretendidas (como aconteceu, por exemplo, com o caso do cruzamento de uma celesta com um gamelão, que escutamos em Crystalline). Ao mesmo tempo Björk desenvolveu um conjunto de aplicações para iPhone e iPad, cada canção surgindo assim como uma experiência multimédia em alguns suportes, umas vezes propondo jogos, noutras expondo informações complementares ou sugerindo aventuras virtuais através de imagens digitais.

Pelos títulos das canções passa uma relação próxima com o chão que pisamos e com o mundo vivo a que pertencemos. Esta ligação à terra parece ser, de resto, referência genética natural numa zona do globo sempre colocou o homem face a uma relação próxima com o fogo dos vulcões e o frio do gelo, realidades de um quotidiano vivido com o mar em volta. Se Hekla (obra com o nome do maior vulcão activo da ilha), de Jón Leifs , assinalou em 1961 o nascimento de uma música moderna islandesa, na relação com a geologia que passa pela música de Björk (que ganha particular materialidade neste disco), encontramos assim a continuação da expressão de uma realidade que brota do solo, traduz ligações culturais mas que depois a cantora lança ainda mais adiante, vincando uma vez mais a sua forte personalidade.

Quando a diferença assusta


A venezuelana Mariana Rondón apresenta em ‘Cabelo Rebelde’ (‘Pelo Malo’ no original) a história de uma jovem mãe preconceituosa que teme que o filho possa ser diferente. O filme está já em exibição entre nós. Este texto foi originalmente publicado no DN com o título 'Nem o cabelo é mau nem a diferença devia assustar'.

O cinema sul-americano (sobretudo o argentino) tem-nos apresentado nos últimos anos um expressivo (e muito recomendável) conjunto de reflexões sobre as temáticas da descoberta da sexualidade e da identidade de género. Filmes como XXY de Lucía Puenzo, O Último Verão da Boyita de Julia Solomonoff, Glue de Alexis dos Santos ou os mais recentes Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, e Atlântida, de Inés Maria Barrionuevo (ambos exibidos na edição deste ano do festival Queer Lisboa) são claros exemplos de um cinema que tem pegado nestes temas de caras neles encontrando histórias, personagens e visões que definem já um corpo sólido que tem conhecido representação à escala global sobretudo através do circuito dos festivais. Cabelo Rebelde, da venezuelana Mariana Rondón, que esta semana chegou aos ecrãs portugueses (depois da antestreia no Leffest em 2013), é mais um título a juntar a esta lista e, tal como sucedeu com o filme da argentina Julia Solomonoff, um dos raros exemplos destas cinematografias a conhecer estreia comercial em sala entre nós.

O “cabelo rebelde” de que aqui se fala (uma tradução mais literal do título original Pelo Malo diria qualquer coisa como “cabelo mau”) é, por um lado, o cabelo de facto muito encaracolado do jovem protagonista, um menino que sonha poder tirar uma foto em pose de cantor e com o cabelo liso. Por outro, representa uma expressão do medo da diferença, que encaramos através de uma mãe, dominada por preconceitos, que vive o que toma como possíveis primeiras manifestações de homossexualidade do filho. Contudo, mais que fazer mais um ‘coming of age’ ou traçar um mero quadro de descoberta da sexualidade, o que a realizadora Mariana Rondón procura em ‘Cabelo Rebelde’ não é mais que o jogar com os preconceitos enraizados na sociedade e o temor que tantas vezes levanta o enfrentar do que não é normativo para, afinal, falar sobre o que assusta os que receiam quem é diferente.

O filme toma por protagonista o pequeno Júnior (Samuel Lange Zambrano), o mais velho dos dois filhos de uma profissional de segurança que perdeu o marido e o emprego. Júnior diverte-se com uma vizinha procurando personagens entre a multidão de janelas e varandas do decrépito bloco de apartamentos em frente àquele – em igual estado de degradação – onde ambos vivem. Não gosta do cabelo, que imaginamos herdado do pai, e não perde oportunidades para, com maionese ou óleo (ou o que mais lhe digam que resulta), tentar alisar os caracóis. O dia em que a mãe o vê a dançar de forma bem diferente dos outros meninos desperta primeiros receios que a chegam a levar ao médico, tentando saber até mesmo se há culpa sua no facto de o filho poder ser diferente... Atitude oposta à da sua sogra, que alimenta os sonhos do neto, que ela mesma gostaria de criar. 

Procurando através da câmara um sentido de realismo, que os cenários de um bairro decadente e as vidas assombradas pelo desemprego ilustram, Cabelo Rebelde é assim ao mesmo tempo um retrato do lado menos propagandístico da Venezuela da era Chavez e uma reflexão sobre como o medo e o preconceito são afinal quem mais mal lida com a diferença.

Para ouvir: 'Red Hot + Arthur Russell'

Podem já escutar, através do site da NPR (a estação pública de rádio norte-americana) o álbum novo da Red + Hot Organization.

Trata-se de Master Mix: Red Hot + Arthur Russell um disco de homenagem a Arthur Russell, que de resto aqui fomos noticiando e do qual já demos a escutar algumas versões. O álbum pode agora ser escutado na íntegra.

Podem ouvir o disco aqui.

Para ler: um almoço com Thurston Moore

A residir perto de Londres há cerca de um ano e com um álbum novo (a solo) a caminho, o músico que em tempos integrou os Sonic Youth almoçou há dias com um jornalista do The Guardian. O restultado é um belo texto...

Podem ler aqui o artigo.

quinta-feira, Outubro 16, 2014

Filme-concerto 'Björk: Biophilia Live'
dia 22 nos cinemas UCI em Lisboa e no Porto


As salas de cinema UCI no El Corte Inglés (Lisboa) e Arrábida Shopping (Porto) vão apresentar no próximo dia 22 (uma quarta-feira), em sessões às 19.00 e 22.00 o filme-concerto Björk: Biophilia Live, captado ao vivo em Londres em 2013, no Alexandra Palace.

O filme apresenta assim a visão de palco de um projeto multimedia criado pela cantora islandesa e leva a cena uma multidão de sonoridades, usando eletrónicas, instrumentos tradicionais e outros de classificação menos... fácil.

A sessão das 22.00 no El Corte Inglés (Lisboa) terá uma apresentação pelos dois autores deste blogue.

Passatempos no Sound + Vision

O Sound + Vision vai ter bilhetes para oferecer aos seus leitores para todas estas sessões em Lisboa e no Porto. Basta para isso que fiquem atentos ao que aqui anunciaremos logo no início da semana... Teremos 10 convites duplos para oferecer para cada sessão!

terça-feira, Outubro 14, 2014

Ver + ouvir:
Caribou, Our Love



Este é o teledisco para o tema que dá título ao magnífico novo álbum de Caribou. A realização é assinada por Ryan Staake.

Marianne Faithfull
50 anos depois de 'As Tears Go By'


Este texto, que evoca os 50 anos de carreira de Marianne Faithfull, foi originalmente publicado na edição de 27 de setembro do DN.

Há precisamente 50 anos uma então muito jovem Marianne Faithfull escutava, sentada num café, uma emissão de rádio, ouvindo o locutor a apresentar o seu primeiro single, As Tears Go By, editado poucos dias antes, descrevendo-o como uma canção escrita para si por Mick Jagger e Keith Richards... A mitologia assim fixou a história. Contudo, a canção que abriu uma carreira que agora assinala as bodas de ouro com a edição de Give My Love to London, um novo álbum de temas originais, nasceu de uma inesperada sucessão de (felizes) acasos.

A história começa alguns meses antes, numa festa em Londres que assinalava o lançamento de um disco de Adrienne Posta, uma jovem cantora cujo mais recente single fora produzido por Andrew Loog Oldham, o então manager dos Rolling Stones (que nesse ano tinham chegado pela primeira vez ao número um no Reino Unido com It’s All Over Now). Pela festa estavam figuras como Paul McCartney e alguns elementos dos Rolling Stones. Mas quem nela reparou foi Loog Oldham. “Ela sabe cantar?”, indagou a quem a acompanhava... E uma semana depois um telefonema chamava-a aos Olympic Studios onde Loog Oldham tinha preparado uma sessão de gravação para um eventual single que, estava previsto, seria um tema de Lionel Bart, o autor das canções do musical Oliver!. Não correu bem, ao que parece, e tentaram depois a canção que estava pensada para o lado B... Era um original de Mick Jagger e Keith Richards, que surgira numa tarde em que o manager os fechara numa sala dizendo que regressaria daí a duas horas e que, por essa altura, queria que lhe mostrassem uma canção... Jagger e Richards corresponderam ao pedido, apresentando-lhe um inédito a que chamaram As Time Goes By. Para evitar eventuais comparações com o clássico tema da banda sonora de Casablanca, Oldham mudou a letra para As Tears Go By e, tendo o tema em carteira, acabou por dá-lo a Marianne Faithfull, que o gravou com a voz cândida e inocente da rapariga de quase 18 anos que então era. A canção fez-se então, de facto, sua. E foi na mouche! Um êxito imediato no Reino Unido (onde chegou ao número nove), que a transformou numa personalidade da cultura pop. O romance com Mick Jagger, que fez correr tinta, só chegou depois.

Foi a própria Marianne Faithfull quem assim relatou o nascimento da canção que a revelou discograficamente. Uma entre as muitas revelações que fez, há precisamente 20 anos quando lançou Faithfull, uma autobiografia, onde arrumou de vez a curiosidade de tudo e todos sobre os muitos episódios do que eram então três décadas de carreira de uma vida que somou tantas histórias de canções como de escândalos, entre episódios com drogas, álcool e dias vividos na rua. Há alguns anos, ela mesmo me contou, por ocasião de uma visita a Portugal, que essa era uma das funções que esperava desse livro, libertando as entrevistas desde então para outros focos de curiosidade. Nessas mesmas páginas ela mesma reconhece que a sua voz em 1964 não era a ideal para uma canção com carga emocional e narrativa que a letra sugeria, apontando antes à versão que registou em 1987 no álbum Strange Weather como mais adequada ao que a canção exigira.

Coube contudo à leitura leve, com travo folk, do single editado em 1964 o papel de lançar uma carreira que fez desta descendente de um antigo companheiro de armas do imperador Carlos Magno uma figura admirada por várias gerações, um mais unânime reconhecimento crítico tendo contudo chegado apenas em finais dos anos 70 quando, depois de uma década feita de episódios conturbados e de discos quase invisíveis, se apresentou em 1979, de voz mais grave, profunda e intensa, em Broken English, disco que acompanhou com uma sucessão de telediscos realizados por Derek Jarman. O disco abriu uma nova etapa na sua carreira, que conheceria uma sucessão de lançamentos marcantes, entre os quais o histórico álbum ao vivo Blazing Away, em que recupera o pungente Sister Morphine, tema coescrito pela cantora, em parceria com Jagger e Richards e que originalmente tinha surgido num lado B em 1969 e que os Rolling Stones transformariam num clássico em 1971, na leitura apresentada no álbum Sticky Fingers.

O reconhecimento crítico, confirmado pelas sucessivas edições nos anos 80, abriu caminho a novas experiências nos anos 90, entre as quais colaborações com Angelo Badalamenti (célebre pela música que fez para muitos filmes de David Lynch) ou abordagens à memória de Brecht e Weil. O cinema, que já experimentara nos anos 60 e 70, voltaria depois a chamá-la, juntando papéis em filmes como Intimidade, de Patrice Chéreau, Marie Antoinette, de Sofia Coppola ou Irina Palm, de Sam Garbarski, onde foi a protagonista.

A chegada do século XXI tomou-a como ícone admirado por novas gerações de músicos, pelos seus discos mais recentes tendo surgido colaborações com nomes como Beck, PJ Harvey, Damon Albarn ou Nick Cave. Este último é um dos colaboradores no novo Give My Love to London, onde encontramos ainda o trabalho de Anna Calvi, Roger Waters, Ed Harcourt ou Adrian Utley (dos Portishead). O disco abre caminho para uma digressão na qual, aos 67 anos, Marianne Faithfull celebrará cinco décadas de atividade na música. A digressão, que arrancou a 11 de outubro em Estugarda (Alemanha) e passará, entre outras salas, pelo Olympia de Paris (20 de novembro) ou o Royal Festival Hall de Londres (29 de novembro), não tem ainda nenhuma data apontada a Portugal, o concerto mais próximo da nossa fronteira sendo, para já, o que visitará o Palau de la Musica Catalana, em Barcelona, a 9 de dezembro. Teremos a oportunidade de, com o nosso fôlego, ajudar a soprar as suas 50 velas?

Três espelhos para David Bowie


Há já alguns anos que David Bowie toma imagens de si mesmo noutras épocas como espaço de reflexão sobre si mesmo e o tempo que passou. Fê-lo quando ele recriava uma pietà nos dias em que editava hours (em 1999), nesse mesmo disco o teledisco de Thursday's Child mostrando-o frente a um espelho onde ecos da memória de si mesmo em dias passados se materializava. Esta mesma ideia do confronto com os "eus" de outrora voltou a ganhar forma por exemplo no casal jovem que contracena com ele mesmo e Tilda Swinton em The Stars are out Tonight. Ou numa nova pietà, desta vez com o Pierrot que lembra os tempos de Ashes to Ashes, no teledisco que serviu a versão remisturada de Love is Lost.

Agora, com a antologia Nothing Has Changed a caminho, recupera três olhares sobre espelhos em três épocas distintas para, uma vez mais, refletir sobre o que afinal mudou, ou nem por isso.

Para ouvir: 'Sgt. Pepper's' pelos Flaming Lips

Uma abordagem, de fio a pavio, às canções do álbum de 1967 dos Beatles Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band é a nova proposta dos Flaming Lips, mais uma multidão de convidados. O site da banda começou a divulgar as colaborações.

Podem ouvir aqui Lucy in the Sky With Diamonds, com Moby e Miley Cyrus.

Para ler: o Bob Dylan russo?

Chama-se Boris Grebenshikov e é uma figura de referência no panorama musical russo, com uma história que lhe vale ser tomado como o padrinho da cultura rock local. A BBC apresenta um perfil do músico, que neste momento soma 60 anos de vida.

Podem ler aqui o artigo.