Domingo, Novembro 08, 2009

Madonna em 47 telediscos (5)

O DVD Celebration: The Video Collection revisita a música de Madonna através de 47 dos seus telediscos — são outros tantos momentos de uma história, de facto, audiovisual. [1] [2] [3] [4]

MATERIAL GIRL (1985)
Real.: Mary Lambert

O gosto da duplicação conduz, inevitavelmente (e ironicamente), a uma das componentes emblemáticas da modernidade audiovisual: a proliferação de ecrãs e, através deles, a relativização simbólica de todas as imagens. Ponto fundamental: tal acontece através de um jogo calculado, cada vez mais cruel, com os olhares masculinos. Aqui, um realizador de Hollywood (interpretado por Keith Carradine, à direita na imagem) dialoga com o seu assistente (Robert Wuhl, à esquerda): em causa o modo como deverá ser tratada a star que ele quer conquistar. No ecrã, a Madonna que surge enredada numa teia masculina já não é a "intérprete", mas sim alguém que se transfigura, ousando pisar os terrenos do seu alter-ego, Marilyn Monroe — o teledisco refaz, em rigoroso ambiente de estúdio, um quadro musical (Diamonds Are a Girl's Best Friend) de Os Homens Preferem as Louras (1953), de Howard Hawks. A partir daí, o jogo de espelhos tem tanto de vertigem como de esquecida ternura. Sim, porque este é um conto de fadas: no final, o par fica constituído, selado não por uma prenda de diamantes, mas... um ramo de flores. E garantem as crónicas que foi durante a rodagem de Material Girl que Madonna conheceu Sean Penn, vindo a casar-se com ela a 16 de Agosto de 1985, data do seu 27º aniversário.

Anselmo Duarte (1920 - 2009)

Anselmo Duarte, actor, argumentista e realizador brasileiro, faleceu no dia 7 de Novembro, em São Paulo, contava 89 anos. O seu filme O Pagador de Promessas, adaptado de uma peça de Dias Gomes, com Leonardo Villar, Glória Menezes e Norma Bengell, é um dos maiores sucessos internacionais de toda a história do cinema brasileiro — em 1962, conquistou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, proeza que, até agora, não foi repetida por nenhum outro filme do Brasil [foto: Anselmo Duarte com a Palma]; no ano seguinte, obteve uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro, tendo sido o primeiro título sul-americano a conseguir tal reconhecimento.

>>> Obituário na Folha de São Paulo.

Shakespeare, segundo Mendelssohn

‘Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing’,
de William Blake (1786)

Várias edições discográficas surgiram ao longo deste ano, assinalando o bicentenário do nascimento de Felix Mendelssohn-Bartholdy (1809-1847). Uma delas, sob a direcção de Philippe Herreweghe, juntando os músicos da Orchestre dês Champs Elysees e as vozes do Collegium Vocale Gent e La Chapelle Royale, apresenta agora, numa caixa de cinco CD (ed. Harmonia Mundi) uma série de importantes obras corais do compositor alemão, entre as quais os oratórios Paulus e Elias e aquela que é uma das mais célebres das obras de Mendelssohn, juntando a música que, em duas etapas da sua vida, compôs sob inspiração de Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare.

Escrita entre 1594 e 1596, a peça de Shakespeare conheceu ao longo da história uma série de adaptações musicais. No século XVII Henry Purcell partiu do texto para criar a ópera The Fairy Queen. Já no século XX o alemão Carl Orff compôs música incidental para uma produção da peça – atribuindo-lhe o título alemão Ein Sommernachtstraum. Vaughan Williams partiu do mesmo texto para uma das suas três canções shakespeareanas. Britten levou-a à ópera em 1960. E Henze inspirou-se igualmente na mesma peça para a sua Sinfonia Nº 8...
Mendelssohn descobriu, muito jovem, o texto de Shakespeare numa das tardes de leitura de poemas e peças que a família frequentemente organizava. Tinha apenas 17 anos quando desta fantasia romântica partiu para a criação de uma abertura, que conheceu estreia em 1827 em Settin (hoje na Polónia), para onde viajou sob um temporal para marcar presença no concerto. Tinha completado os 18 anos alguns dias antes e, além de marcar presença na estreia da sua peça, actuou no mesmo concerto como solista numa obra para piano de Weber e, depois do intervalo, juntou-se depois à orquestra (como violinista) para uma 9ª de Beethoven.
A obra, como hoje a conhecemos, resulta da junção desta abertura a uma série de elementos incidentais que, duas décadas depois, compôs para uma representação do texto de Shakespeare na corte de Guilherme IV, em Potsdam, estreada em 1843 sob a direcção do próprio compositor.

Estoril Film Festival: Dia 4

Um dos grandes momentos do dia de hoje no Estoril Film Festival será certamente a apresentação de Tetro, o novo filme de Francis Ford Coppola, com a presença do realizador na sala. Encontro marcado para as 20.30 no Centro de Congressos do Estoril. O filme, que terá brevemente estreia em sala em Portugal, é a história de um reencontro de irmãos, e conta com nomes como os de Vincent Gallo, Maribel Verdú, Alden Ehrenreich, Klaus Maria Brandauer e
Carmen Maura no elenco. A música é, tal como no último filme de Coppola, assinada por Osvaldo Golijov.
Em competição passa ainda hoje, às 18.00 horas, o filme Moon, de Duncan Jones, que estreia dia 12 em sala.
Ver aqui o programa de hoje.

Beatles (e os milhões)

Discografia Beatles - 33
'The Beatles' Million Sellers' (EP), 1965

O mercado de Natal de 1965 contou com um novo EP dos Beatles que juntava quatro canções que haviam representado alguns dos seus maiores êxitos de 1963 e 64. Eram elas She Wants You, I Want To Hold Your Hand, Can’t Buy Me Love e And I Feel Fine… O facto de não haver aqui novidades não impediu o EP de ter atingido o nº1 no Reino Unido nas primeiras semanas de 1966. O título The Beatles’ Million Sellers é, em tudo, uma verdade, já os singles onde surgiram as quatro canções aqui reunidas já tinham ultrapassado, todos eles, a fasquia do milhão de unidades vendidas. Hoje, esta soma atinge os 27 milhões de unidades à escala mundial.

Sábado, Novembro 07, 2009

Em conversa: António Pinho Vargas (3)

Terceira parte da publicação de uma entrevista com António Pinho Vargas que serviu de base a uma entrevista publicada no DN a 26 de Outubro com o título ‘Um ciclo de álbuns que abriu novos caminhos’. Esta entrevista vai ser aqui publicada ao longo dos próximos fins de semana.

Os caminhos que algum jazz tomou nos anos 90 terão propiciado essas mudanças [ver parte 2 da entrevista] que se têm verificado nos últimos tempos? Ver um Brad Mehldau a tocar Radiohead foi importante? Bom, mas na ECM já havia esse tipo de ligações desde os anos 80...
Evidentemente. Mas não eram americanos!... Esse alargamento para muitos músicos claramente competentes na área do jazz – como o Brad Mehldau, extraordinário músico, e não é caso único – terá provocado uma reflexão nalguma rigidez que terá havido antes. E algumas pessoas terão reequacionado os seus valores. Porque é outra vez o vento lá fora. É a realidade do que se faz a obrigar a pensar... Muitas vezes o artista deixa perplexo o receptor. E precisa às vezes de tempo.

Isso é, de resto, recorrente ao longo de toda a história da música, em todas as épocas...
E em todas as áreas... Não nos podemos esquecer que o Charlie Parker levou, depois de um período de reflexão, o crítico francês Hugues Panassié a pensar se era jazz ou não. E depois decretou que não era jazz... (risos) É evidente que se enganou redondamente. E ficou com uma espécie de boutade do ridículo que é a rigidez da identidade, como diz o Amin Malouf, assassina. Que é tentar colocar uma coisa numa tal fronteira dentro de certas fronteiras que se procura estabelecer de uma forma muito clara e muito rígida. E depois a realidade explode...

Faz sentido hoje em dia falar de géneros de uma forma tão estrita como em tempos se fazia? Veja-se o caso de um Ambrose Field... É música medieval? É electrónica? É fora das fronteiras que estão a acontecer os grandes desafios da música?
É evidente que há gente que continua a trabalhar dentro das diversas zonas de mainstream... O jazz, a música contemporânea da tradição serial ou pós-serial ou qualquer coisa do género... Mas há cada vez mais uma proliferação de experimentações de diversa ordem, de encontros inusitados. E se às vezes os resultados não são propriamente extraordinários, por outro às vezes há surpresas incrivelmente estimulantes. Julgo que isso tem a ver com um processo de cruzamento de conhecimentos e de esbatimento de formações. Por exemplo, o Brad Mehldau claramente é um intelectual. É um homem que estudou Brahms e Liszt, e no seu disco de piano solo, que é maravilhoso, fala do conceito de elegia e vai falar do romantismo alemão. Um músico de jazz ter este tipo de interesses há 40 anos seria impensável. De uma certa maneira o Bill Evans interessava-se pela música de Debussy, de Ravel, pelo impressionismo. É um grande músico, evidentemente, mas não teria sido capaz de elaborar esse tipo de reflexão que, naturalmente, conduz ao seu universo... Porque, em última análise, a perspectiva é: tudo o que vier à rede me interessa. Eu estou aberto ao mundo. Falando de mim... Muitas vezes estou em casa a tocar e aquilo segue uma direcção. E aquilo segue uma certa direcção. E num dado momento estou a fazer uma coisa que nunca tinha feito, e estou a pensar: isto é interessante, é bom, penso eu na minha imodéstia... Quando se descobre coisas o fascínio é uma cosa exaltante. É quase como a chamada composição que eu às vezes digo milagrosa. Num dado momento estou a tocar ao piano uma coisa de Debussy ou Bach e de repente começo a compor e no fim há uma música que se chama Tom Waits... E eu não sei o que se passou pelo meio, mas ela existe. E digo milagroso porque não posso reconstituir o processo de pensamento. Foi uma coisa que saiu do acto de tocar, naturalmente tocada e pensada ao mesmo tempo... Que fluiu com uma tal velocidade que no fim existe uma composição.

Perante o mundo de possibilidades que existe à nossa volta corremos o risco de nos perdermos? Ou é bom podemo-nos perder?
Embora existam todos estes processos, nem tudo vai a par. Ou seja, há processos de carácter institucional e há tribos, pequenos mundos, muito fechados em relação a qualquer exterior. Eu devo dizer que poucas pessoas terão tanto esta consciência como eu por razões de ordem biográfica. Lembro uma pequena história. Nos anos 90, quando vim da Holanda, tinha o meu grupo ainda a funcionar. Fazia às vezes concertos com o Zé Nogueira em duo. E procurava espaçar a estreia de uma peça minha na Gulbenkian ou outro sítio qualquer... E falei disso com o António Miguel Guimarães, que era o meu agente. E ele disse-me uma coisa que na altura desconfiei fortemente que ele tivesse razão. Disse-me que não me devia preocupar muito com isso porque são universos que quase não têm nenhum contacto entre si... Na altura achava que ele estava errado e hoje acho que está certo. Eu na altura tinha uma perspectiva diferente do mundo... Hoje vou a um concerto de música contemporânea e muito raramente encontro um músico de jazz que conheça. Vou ver um concerto de jazz e ficarei muito surpreendido, e às vezes fico, quando encontro um dos meus antigos alunos de composição ou um dos meus colegas compositores portugueses. Isto quer dizer que cada tribo só presta atenção ao seu mundo e considera o lá fora inexistente.

(continua)

"Uncut": 150 x 150

Em tempos de tops mais ou menos fúteis e pueris, muitas vezes promovendo um paradoxal apagamento de memórias (em cinema e música), a revista britânica Uncut teve uma boa ideia: para comemorar a sua edição nº 150 (Novembro), decidiu estabelecer uma lista dos seus "150 álbuns da década" (ou, se preferirem, do século XXI). Jack White é a personalidade da capa, uma vez que White Blood Cells, dos White Stripes, ocupa o primeiro lugar; além do mais, o seu nome está ligado a nada mais nada menos que oito dos álbuns escolhidos. É este o Top 10 da Uncut:

* THE WHITE STRIPES, White Blood Cells (2001)
* BOB DYLAN, "Love and Theft" (2001)
* WILCO, A Ghost Is Born (2004)
* BRIAN WILSON, Smile (2004)
* THE STROKES, Is This It (2001)
* ROBERT PLANT E ALLISON KRAUSS, Raising Sand (2007)
* THE ARCADE FIRE, Funeral (2005)
* BOB DYLAN, Modern Times (2006)
* RYAN ADAMS, Heartbreaker (2000)
* FLEET FOXES, Fleet Foxes (2008)

Destes dez, dois deles — os de Wilco e Ryan Adams — estão representados no CD, com 15 canções, que acompanha a revista. Entre os restantes, surgem, por exemplo, Okkervil River (The Stage Names), The Felice Brothers (The Felice Brothers) e Calexico (Feast of Wire).
De White Blood Cells, aqui recordamos Dead Leaves and the Dirty Ground, em teledisco dirigido por Michel Gondry.

"Ray of Light" por Snow Patrol

Os estúdios de Maida Vale (Delaware Road, Londres) são indis-sociáveis da história da BBC — foi lá, por exemplo, que entre 1967 e 2004 foram gravadas as lendárias John Peel Sessions. Recentemen-te, celebraram 75 anos de actividade, facto que levou a BBC Radio 1 a promover uma série de evocações e performances, incluindo um directo com a banda irlandesa Snow Patrol — entre os temas can-tados, aqui fica Ray of Light, de Madonna.

Entrevistas rápidas... Que entrevistas?

As "entrevistas rápidas" do futebol continuam a ser um triste exemplo do pior que há na televisão — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 de Novembro), com o título 'Um jogo que "correu mal"'.

Por vezes, circunstâncias acidentais adquirem um inesperado valor cognitivo. Aconteceu-me na passada sexta-feira [30 de Outubro], ao ouvir as chamadas “entrevistas rápidas”, na RTP1, no final do F.C. Porto-Belenenses. De facto, apenas as ouvi (através do som que a Antena 1 reproduziu). Talvez por isso, chocou-me ainda mais deparar com um repetido exemplo da ligeireza de muitas “reportagens” sobre futebol.
Assim, com o portista Ernesto Farías, o repórter quis desde logo saber o que é que tinha “corrido mal”. Semelhante formulação decorre de uma ideologia desportiva (?) que apenas reconhece dimensão informativa aos chamados grandes. Pior que isso: não interessa atentar nas singularidades de cada jogo, uma vez que se parte do pressuposto determinista segundo o qual sempre que os grandes não ganham os jogos (este acabou empatado), algo “correu mal”. Escusado será dizer que esta visão preconceituosa favorece um militante menosprezo pelos “pequenos”.
Pouco depois, Jesualdo Ferreira [foto] viu-se condenado a falar como se estivesse face a uma parede... O treinador do Porto deu conta dos seus pontos de vista sobre as incidências do jogo. E fê-lo com invulgar serenidade: embora demonstrando alguma frustração pelo resultado, fez passar a mensagem de que o futebol não é um palco de certezas e que, afinal de contas, um jogo é apenas um jogo. Perante tão transparentes explicações, que fez o repórter? Perguntou-lhe: “Como é que explica este resultado?”.
O problema, entenda-se, não tem a ver com o repórter A, B ou C, mas sim com o facto de haver toda uma geração de profissionais do jornalismo que foram educados para este comportamento conflituoso e simplista. Porquê conflituoso? Porque apenas utiliza o interlocutor como alguém que deve ser “picado” para dizer qualquer coisa de drástico ou bélico. Porquê simplista? Porque, na prática, muitos repórteres perderam a mais básica virtude humana, inerente ao seu próprio trabalho: escutar, saber escutar. Daí esta obscenidade ontológica em que nos querem fazer viver: da política ao futebol, é preciso encontrar conflitos; quando não os houver, o melhor será tentar provocá-los.

Da Alemanha... com pop (1)

Estabelecemos hoje uma ponte entre a história que aqui evocámos no último mês e a que se segue: pop/rock na Alemanha, antes e depois do muro. E começamos com os Kraftwerk, numa canção marcante do álbum de 1978 The Man Machine, aqui todavia na versão que foi editada na Alemanha… em alemão. Aqui fica então o teledisco de Das Model.



Kraftwerk, 1978
'Das Model'

Estoril Film Festival: Dia 3

O Estoril Film Festival apresenta hoje, em antestreia nacional, o filme O Laço Branco, o mais recente de Michael Haneke, que este ano venceu a Palma de Ouro, em Cannes. Trata-se de um filme de época, com a acção centrada numa pequena localidade rural alemã em 1913. Do mesmo realizador são exibidos também hoje os filmes Caché (pelas 17.45) e Código Desconhecido (15.15).
Ver aqui o programa de hoje.

A caminho de 1966

Discografia Beatles - 32
'We Can Work It Out'/'Day Tripper' (single), 1965

Depois de terminado o Verão de 1965, os Beatles seguiram caminho em frente. Nos EUA tinham editado Yesterday em single (no Reino Unido a canção só sairia do alinhamento do álbum em que surgira, num EP editado já em 1966). Para edição à escala global gravaram então um novo single. Duas novas canções, registadas em sessões em finais de Outubro. Uma delas escrita em parceria entre Mccartney e Lennon, a segunda composta pelo segundo. We Can Work It Out, iniciada por McCartney mas terminada num trabalho de colaboração, representou então a que foi até à época a mais longa sessão de gravação em torno de uma só canção pelos Beatles: 11 horas. Foi esta a canção escolhida para a face A do single. Lennon contudo insistia em Day Tripper… Acabando o single apresentado publicamente como um “double A side”, ou seja, onde cada canção teria igual protagonismo. Certo é que chegou ao número um em ambos os lados do Atlântico.

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Norah Jones, opus 4

Está a chegar (17 de Novembro) o quarto álbum de estúdio de Norah Jones. Chama-se The Fall e, durante alguns dias, pode ser ouvido, na íntegra, no site da NPR — maravilhas de uma sonoridade que permanece, por vezes com alguns saborosos "desvios" mais rock... A propósito, vale a pena recordar Don't Know Why, do álbum de estreia Come Away With Me (2002) — é uma versão para o programa Sesame Street, cujo título correcto será Don't Know Y.



>>> Site oficial de Norah Jones.

Paulo Bento no altar das televisões

Hoje, as televisões voltaram a ter aquilo que tanto prezam: uma vítima para sacrificar no seu altar. Subitamente, fazendo zapping pelos noticiários das 13h00, todos — sublinho: todos — privilegiavam a demissão do treinador do Sporting, secundarizando, por exemplo, a discussão do programa de Governo na Assembleia da República, a situação legal de Armando Vara, o assassinato de treze pessoas num quartel do Texas, etc., etc.
Escusado será dizer que não se trata de um drama meramente desportivo. Claro que é, no mínimo, insólito que se assista a um coro mediático objectivamente contra Paulo Bento, num contexto em que, na Liga Europa, o Sporting tem mais pontos (e, sobretudo, uma mais confortável situação para seguir para a fase seguinte) do que equipas como Ajax, Valencia, Roma, Fulham, Lazio, Villarreal, Everton, Sparta de Praga e Atlético de Bilbau. Em todo o caso, a questão do "muito" ou "pouco" mérito de Paulo Bento como treinador é irrelevante para avaliarmos o seu processo de martirização mediática.
O que está em jogo é outra coisa. E de outra natureza. Não tem a ver com o Sporting, nem com qualquer outro clube. Tem a ver, isso sim, com a necessidade de promover "heróis" ou "vítimas" por parte de um sistema de informação que vive, sobretudo, da procura de situações extremas e extremadas: o que conta é a simples e desumana possibilidade de encontrar um alvo preferencial.
Não fará sentido dizer que foram as televisões que demitiram Paulo Bento. Mas vale a pena, pelo menos, imaginar o que (não) estaria a acontecer se, nas últimas semanas, ele não tivesse sido tratado como personagem sacrificial de uma ficção apocalíptica.

Há música na ponte...

Hoje visitamos uma das aventuras de Justin Vernon (ou Bon Iver, se preferirem). Volcano Choir é um colectivo construído em colaboração, do qual um primeiro disco, Unmap, surgiu há já algumas semanas. Aqui fica o interessante teledisco que Michinori Saigo dirigiu para Island Is

Terry Riley... em remistura

Depois de Steve Reich e Philp Glass, Terry Riley é o terceiro dos grandes compositores minimalistas a ver o seu trabalho remisturado por músicos de uma outra geração. Como matéria prima entra em cena In C, uma das mais importantes obras na definição do minimalismo. In C, numa gravação recente pelo Grand Valley State University New Music Ensemble, surgirá agora em novas leituras assinadas por nomes vários, entre os quais Nico Muhly, Kleerup ou o próprio Riley. A edição está marcada para 17 de Novembro.

A maçã dos 'fab four'

Uma maçã? Sim, uma maçã digital… Ou, antes, uma pen USB, em forma de maçã. A maçã… Apple. Da Apple dos Beatles… Ou seja, uma drive com música e imagens dos Beatles. Na verdade, nada mais que os 14 álbuns (versão estéreo) recentemente reeditados, juntamente com os conteúdos multimédia… A maçã dos Beatles surge em edição limitada de 30 mil exemplares e tem data de edição a 7 de Dezembro. O preço? Ali na casa dos 190 euros (279,99 dólares), segundo a Pitchfork…

Estoril Film Festival: Dia 2

Juliette Binoche é a figura hoje em destaque no Estoril Film Festival. Além de serem projectados alguns filmes em que participa, como Rendez Vous de André Techiné (1985), Déséngagement de Amos Gitai (2007) ou Les Amants du Pont Neuf de Léos Carax (1991), a actriz assina autógrafos (Centro de Congressos do Estoril, 18.00) e apresenta a sua exposição de pintura, retratos e poemas Portraits In Eyes.
Ver aqui o programa de hoje.

Histórias de Berlim (4)

Era uma das antigas portas da cidade. Uma das mais monumentais, no topo da alameda Unter den Linden, onde em tempos morava o palácio dos reis da Prússia. As Portas de Brandenburgo foram construídas entre 1788 e 1791 e ainda hoje são um dos símbolos de Berlim. Um símbolo carregado de mais sentidos depois da queda do muro. Foi ali que, em Dezembro de 1989, os chefes dos governos das duas alemanhas se encontraram, caminhando um para o outro, sem ter de atravessar o muro que, durante anos, impedira aquela passagem.

O peso simbólico das Portas de Brandenburgo ganhou novo sentido em 1945. Representava então a passagem do sector britânico para o sector russo na Berlim ocupada pelos aliados. Os primeiros sinais de “atenção” nascem logo nessa época.



A construção do muro de Berlim fez das Portas de Brandenburgo solo inacessível aos berlinenses ocidentais. A visão total do monumento era apenas possível de Leste, ao fundo de Unter den Linden. Uma larga terra de ninguém assim nasceu em volta das portas, estendendo-se a sul ao igualmente desolado terreno onde hoje mora novamente a Potsdamer Platz.

O segmento frente às Portas de Brandenburgo foi uma das secções do muro mais visitadas em Novembro de 1989 quando a barreira se rompeu (e depois caiu). Nos primeiros dias sob vigilância a Leste, que entretanto abranda e cede o espaço aos berlinenses. A estrutura foi retirada em Dezembro do mesmo ano.


A história deste local durante a guerra fria conheceu duas visitas marcantes. Uma, em 1963, por John F. Kennedy. Na ocasião as autoridades a Leste colocaram panos vermelhos entre as colunas, para que o presidente americano não pudesse ver o outro lado da cidade… Em 1987, Ronald Reagan falou ali aos berlinenses. A fechar o discurso, a famosa frase: “Mr Gorbachev, tear down this wall”…

Hoje as Portas de Brandenburgo (restauradas entre 2000 e 2002) são ponto de passagem diária para berlinenses e turistas. À sua volta, na Praça de Paris, no topo de Unter den Linden nasceram novos edifícios. Embaixadas, escritórios, cafés e até mesmo o Museu dos Kennedy.

Kraftwerk, as reedições (8/8)

Mais uma etapa num percurso através dos álbuns dos Kraftwerk que agora são reeditados com som remasterizado. Ordenados cronologicamente, chegamos hoje a Tour de France Soundtracks, de 2003.

A presente campanha de reedições da discografia inclui o seu mais recente álbum de originais, Tour De France Soundtracks, editado em 2003. O disco foi aguardado com alguma curiosidade, uma vez que haviam passado 17 anos desde o seu mais recente disco de originais (recorde-se que The Mix, de 1991, é um disco de regravações, sob novas leituras, de temas antigos). Retomando a ideia clássica de um conceito que confere unidade (ou um tema ao disco), o álbum reencontrou um velho interesse do grupo e até mesmo uma canção que chegara a ser pensada para o alinhamento de Techno Pop, mas entretanto editada como single independente em 1983: Tour de France. O centenário da prova francesa foi apontado como o motivo para este reatar de atenções com o ciclismo, apresentando o disco, como os Kraftwerk o haviam feito em alguns álbuns anteriores, uma suite, em várias faixas, em volta das ideias musicais desenvolvidas a partir de Tour de France. O alinhamento do álbum inclui depois uma série de canções tematicamente independentes, entre as quais Aero Dynamik, que mais tarde seria editada em single e conheceria remistura pelos Hot Chip. A essência da personalidade clássica do grupo está bem patente numa música que, ritmicamente, apresenta sinais de curiosidade pelos novos destinos das facetas mais minimalistas das electrónicas ao serviço da música de dança. A acompanhar o lançamento do álbum o grupo encetou uma nova digressão, que mais tarde seria registada no álbum e DVD ao vivo Minimum / Maximum.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Madonna em 47 telediscos (4)

O DVD Celebration: The Video Collection revisita a música de Madonna através de 47 dos seus telediscos — são outros tantos momentos de uma história, de facto, audiovisual. [1] [2] [3]

LIKE A VIRGIN (1984)
Real.: Mary Lambert

Se a questão do pecado (entenda-se: o pecado enquanto questão católica) atravessa toda a obra de Madonna, escusado será lembrar que Like a Virgin é o hino ambíguo dessa fixação. Em termos históricos, o teledisco é um dos que mais se confunde com o próprio impacto do canção, exponenciado pela célebre performance nos Prémios MTV de 14 de Setembro de 1984, com Madonna em perversa pose de noiva (com o cinto "Boy Toy"). Aliás, o teledisco — estreado na MTV cerca de dois meses mais tarde, a 13 de Novembro — retoma esse guarda-roupa numa das duas personagens em que, uma vez mais, Madonna se divide; a outra personagem deambula pelos canais de Veneza, naquela que é, afinal, a primeira grande síntese do seu visual de rua, meio trash, meio paródico — o mesmo visual teria a sua consagração cinematográfica em Desesperadamente Procurando Susana, na altura em rodagem (estrearia em Março de 1985), sob a direcção de Susan Seidelman.

Juliette Binoche abre Festival do Estoril

"Portraits In-Eyes" — assim se chama a exposição de Juliette Binoche com que hoje (Centro de Congressos do Estoril, 19h30) arranca a terceira edição do Festival de Cinema do Estoril. A gala de abertura inicia-se às 21h00, no Casino Estoril, incluindo a ante-estreia de O Fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson. A actriz francesa é uma das personalidades homenageadas, a par de David Cronenberg, Francis Ford Coppola e Victor Erice. O certame encerra no dia 14, sendo os prémios oficiais divulgados na véspera (Casino Estoril, 21h00) — o júri é formado por David Byrne, Alexandre Desplat, Manfred Eicher, Rui Horta e Cindy Sherman.

>>> Site oficial: Estoril Film Festival.

De Filadélfia, com frio

De Filadélfia chegam os Cold Cave. São hoje um quarteto, com timoneiro na figura de Wesley Eisold, que tem uma história que passa por bandas hardcore… Os azimutes por onde evolui esta música são agora outros, e passam por nomes como os Kraftwerk, Gary Numan e, bem evidente em Love Comes Close, os New Order. Aqui fica o telsdisco deste tema, que integra o álbum homónimo. A realização é de Art Boonparn.

O Natal, segundo Julian Casablancas

Julian Casablancas, o vocalista dos Strokes que esta semana editou Phrazes For The Young, o seu primeiro álbum a solo, vai lançar um single de Natal. I Wish It Was Christmas Today tem data de edição marcada para 21 de Dezembro, nos formatos de vinil (sete polegadas) e digital (para download).

Nico Muhly e amigos, hoje em Lisboa

São quatro amigos. Juntos hoje num mesmo palco em Lisboa, no Teatro Maria Matos (pelas 22.00 horas). Eles são Sam Amidon (banjo, guitarra e voz), Nico Muhly (piano e teclas), Ben Frost (electrónica) e Valgeir Sirgudsson (electrónica). Partilham uma editora comum. E agora juntam-se numa digressão a que chamaram Whale Watching Tour…
Antes do concerto falei com Nico Muhly. Podem ler aqui.

Carl sagan... em versão pop

A voz protagonista é a de Carl Sagan (na verdade excertos de momentos da série televisiva Cosmos). Mais aidiante entra em cena Stephen Hawking… A música adicional e o tratamento das vozes coube a John Boswell… E assim nasce uma canção…



A canção tem por título A Glorious Dawn e será editada em single no próximo dia 9 de Novembro, data que assinalaria os 75 anos de Carl Sagan. A edição surge através da Third man Records, a editora de Jack White.

Histórias de Berlim (3)

A um quilómetro a sul das Portas de Brandenburgo, Potsdamer Platz é o centro da nova Berlim. Arquitectonicamente é talvez um dos núcleos mais surpreendentes da Europa dos nossos dias. E representa, acima de tudo, um símbolo da vitória sobre a guerra fria e o encontrar de um novo caminho para a cidade depois da queda do muro. É hoje a sede da Berlinale, de dois grandes cinemas multiples, um centro comercial, restaurantes, cafés…. Alberga uma série de importantes escritórios de grandes companhias, hotéis, e estações de U Bahn, S Bahn e mesmo da rede ferroviária nacional.
A existência deste magnífico núcleo arquitectónico deve-se em tudo ao muro de Berlim. E à sua queda. Derrubado em 1990, ali deixou 60 hectares livres onde antes era uma terra de ninguém intensamente vigiada. Um concurso oficial ditou novo destino a este espaço, hoje novamente vibrante e permanentemente habitado.


Antes da II Guerra Mundial (que devastou completamente esta zona da cidade), Potsdamer Platz era uma praça elegante, cruzada por eléctricos, automóveis e transeuntes. Tinha cafés, hotéis, cinemas… Grandes lojas. E uma das principais estações de comboio de Berlim.

A construção do muro reduziu a um vazio toda a área em torno da velha Potsdamer Platz. Do lado oriental os escombros de 1945 foram totalmente derrubados para assegurar maior e mais vasto campo de visão às patrulhas de vigilância. Do lado ocidental era um dos locais de visita “ao muro”, com uma escadaria montada para observação… turística. Entre os visitantes que por ali passaram para ver o outro lado de Berlim contam-se John F. Kennedy (1962), a rainha Isabel II (1965) ou Jimmy Carter (1978).
Foi em Potsdamer Platz que se abriu o primeiro rombo no muro, em Novembro de 1989. E foi no espaço, deixado então livre entre Potsdamer Platz e as Portas de Brandenburgo, que Roger Waters encenou o mega-concerto The Wall, em 1990.

A memória do muro de Berlim está preservada em Potsdamer Platz. Há ali, durante este ano, um centro turístico dedicado às celebrações da queda do muro. E, para turista (e berlinense) ver, pedaços do muro.

Kraftwerk, as reedições (7/8)

Continuamos a fazer um percurso através dos álbuns dos Kraftwerk que agora são reeditados com som remasterizado. Ordenados cronologicamente, passamos hoje por The Mix, de 1991.

Não é um best of. Nem o grupo queria que alguma vez o fosse. The Mix (capa original ao lado) representou, antes, a vontade de actualizar ideias, de olhar e repensar a obra gravada desde 1974, projectando nas novas gravações algumas das ideias que, entretanto, haviam surgido ao vivo e, assim, integradas na história evolutiva das composições. Estávamos em inícios dos anos 90. Wolfgang Flur tinha deixado o grupo em 1987. Nos estúdios Kling Klang a ordem de trabalhos assistia à digitalização do arquivo de sons. Perante novas ferramentas, os Kraftwerk gravaram The Mix como mais que um álbum de remisturas. Na verdade gravaram novas versões, a todas elas aplicando uma agenda rítmica pensada em função da pista de dança, afinal, e desde há muito, um dos destinos da música do grupo e também um dos focos da curiosidade dos seus elementos. O alinhamento de The Mix passa por momentos de todos os álbuns editados desde 1974, em alguns casos propondo abordagens significativamente distintas. As novas versões de The Robots e Radio-Activity foram então editadas como single. A acompanhar o lançamento do álbum, uma nova digressão chegou à estrada, revelando muitos dos temas apresentados abordagens semelhantes às que então haviam trabalhado para este disco.

Música para nove músicos

Este texto foi publicado na edição do DN de 3 de Novembro, com o título ‘Uma noite à volta da música de Steve Reich’

Integralmente vestido a preto, invariavelmente de boné na cabeça, Steve Reich entrou em cena, no palco do Grande Auditório do CCB, ao lado de David Cossin. Nada nas mangas. Nada nas mãos. Na verdade, apenas com as mãos, batendo palmas, abriam uma noite dedicada à música do compositor norte-americano dando novamente vida a Clapping Music, uma peça composta em 1972.
A música de Steve Reich era a protagonista da noite. Mas o compositor apenas subiu ao palco em Clapping Music e Music For Pieces Of Wood (de 1973). O resto do alinhamento ficou por conta dos Bang On A Can All-Stars, colectivo com 20 anos de carreira apostada ora na divulgação de algumas das grandes obras da música do nosso tempo (de Brian Eno a Steve Reich) ora na apresentação de peças compostas pelos elementos que integram o grupo.
O alinhamento proposto, sem ser necessariamente antológico, promoveu um olhar panorâmico sobre a forma como Steve Reich partiu das ideias estruturais que alicerçam a sua obra rumo à sua exploração num contexto de mais largos horizontes. Se as já referidas Clapping Music e Music For Pieces Of Wood são expressão de uma etapa em que o compositor procurava uma linguagem, já a nova abordagem a Piano Phase (agora como Video Phase) trouxe uma obra de 1967 ao século XXI, colocando um músico em confronto directo com as imagens e sons de uma actuação pré-gravada. No fundo uma lógica próxima da que conduz New York Conterpoint e Electric Counterpoint. A primeira pelo clarinete de Evan Ziporyn sobre camadas pré-gravadas de outros clarinetes. A segunda, numa soberba interpretação de Mark Stewart, guitarrista a solo frente a uma muralha de 10 outras guitarras e dois baixos.
A música de Steve Reich mora no código genético dos Bang On A Can e o concerto não deixou espaço para dúvidas. O momento maior ficou guardado para o fim, em Sextet, numa leitura que deu à visionária obra com 25 anos um corpo sólido e vibrante. Em 1984 terá sugerido uma visão. Agora transformou-se num clássico. Ou, como o compositor descerevera em entrevista ao DN, tornou-se "mobília da sala".

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

1967/2009: uma história com imagens


Pequeno exercício de pedagogia visual: as imagens não existem para lhes ser atribuído "um" sentido — só jornalistas de telejornais acreditam em tal simplismo. Nenhum sentido é único, muito menos unívoco, porque vivemos em permanente labor de significação (Roland Barthes, em O Prazer do Texto, evocava a significância, escrevendo: "O que á a significância? É o sentido na medida em que é produzido sensualmente.").
São vias possíveis para saborearmos estas duas imagens. De que nos falam elas? Em boa verdade, do tempo — é o tempo que as separa, fazendo-as coexistir.
A fotografia de cima, assinada por Pier Paolo Ferrari, integra um espantoso portfolio criado pelo artista italiano Maurizio Cattelan e publicado na secção de moda da revista W (Novembro 2009): Linda Evangelista é a figura humana de um conjunto de fotografias em que a simbologia religiosa ecoa como uma espécie de assombrado look.
A segunda imagem é um fotograma de um filme lendário (e histórico) que, para a história (e para a lenda), ficou como um dos objectos premonitórios de Maio 68: La Chinoise (1967), de Jean-Luc Godard, retrato íntimo das angústias e ironias do maoísmo estudan-til, afinal uma viagem quase burlesca pela ideia de revolução.
Nestes tempos em que proliferam os inimigos da escrita, importa não secundarizar a luminosa evidência em que os olhares de Cattelan e Godard se cruzam: integrar as palavras escritas como elemento iconográfico é uma forma directa de celebrar a sua irredutibilidade. Directa, quer dizer, directamente política.

Linda Evangelista
Foto de Pier Paolo Ferrari / Portfolio de Maurizio Cattelan (W, Novembro 2009)

Metric: a cores e a preto e branco

Diz a velha lição estética (e ética, hélas!) que, por vezes, menos é mais... Assim, por exemplo, no caso do teledisco de Sick Muse, dos Metric. Ao que parece, confessam os protagonistas, a planificação foi mínima e os meios de produção ainda menos: durante uma sessão fotográfica, conduzida por Justin Broadbent e Michael Leach, a banda decidiu experimentar uma "ilustração" da canção (terceiro single do álbum Fantasies). Recursos? Uma pequena colecção de adereços rudimentares, algumas luzes e... uma parede branca. Tudo muito preto e branco, ainda que filmado a cores. Resultado? Uma pequena pérola de austeridade, ritmo e verdade.

O génio de Grigory Sokolov

É bem certo que a palavra génio, como tantas outras, está banalizada, vencida pelo triunfo da mediocridade mediática: do jogador de futebol que marca bem penaltis até ao vencedor habilidoso de um qualquer concurso de televisão, todos são "geniais" — vivemos dentro do imaginário warholiano ("quinze minutos de fama"), agora exponenciado em pesadelo obsceno.
Por uma vez, todavia, vale a pena não recearmos falar de génio. Escutar a arte de Grigory Sokkolov — por exemplo, tocando Schubert (Sonata para Piano em Ré maior, D. 850) e Schumann (Sonata para Piano em Fá menor, op. 14) — é redescobrir a pluralidade imensa do piano e, mais do que isso, ter a certeza de que nenhuma obra, por mais "clássica" ou "integrada", está adquirida como performance. Como se, de facto, ele estivesse ali mesmo, connosco, a detectar os enigmas da pauta (ausente), convocando-nos para um ritual a todos os instantes ameaçado pela maravilhosa vulnerabilidade do factor humano — aconteceu na segunda-feira, 2 de Novembro, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian.

Discos da semana, 2 de Novembro

É inegável reconhecer que Is This It (2001), o álbum de estreia dos Strokes figurará entre os dez títulos de referência pop/rock da presente década. Porém, desde então, mais não fizeram que uma (interessante, convenhamos) gestão das ideias que então lançaram. E depois de First Impressions Of Earth (2006) vimos os seus membros a experimentar ideias a solo. O guitarrista Albert Hammond Jr em nome próprio, entretanto já com dois álbuns editados. O baterista Fabrizio Moretti estabelecendo interessante ponte com o Brasil via Little Joy. O baixista Nikolai Fraiture criando os Nickel Eye… A Julian Casablancas, o vocalista, cabe agora, neste Phrazes For The Young, o disco que não só é o melhor de todos os ensaios a solo de membros dos Strokes como representa o passo em frente que há muito tardava na sequência de Is This it?. Memórias de 80 (que tanto vão do apelo festivo de uns A Flock Of Seagulls ao azeite FM de uns Van Halen) habitam canções que, contra a norma baralha-e-volta a dar que tem sido norma em muitas revisões dos oitentas na pop recente, as enquadram antes num contexto que parte do olhar do novo milénio sobre a Nova Iorque de finais de 70 do qual nascera a estreia dos Strokes. Há teclas garridas, ensopadas em melodias, luz quanto baste, mas também a ocasional assombração. Há canções magníficas (Out Of The Blue é uma das pérolas pop do ano). Há exemplos de arranjos elaborados, ao serviço de visões de dimensão quase teatral (como um Ludlow St. ou Glass). E, num alinhamento curto (mas decididamente gourmet), assim se serve um dos mais discos pop mais irresistíveis dos últimos anos. Daqueles que se não consegue deixar de ouvir em "repeat"…
Julian Casablancas
“Phrazes For The Young”

RCA/Sony Music
5 / 5
Para ouvir: MySpace


Foi um momento histórico. 31 de Agosto de 1970, na Ilha de Wight (Reino Unido). Era a terceira edição do festival, e recebia um público quase cinco vezes superior ao que ali havia acorrido no ano anterior. A noite tinha já assistido a uma actuação xamânica de Jimi Hendrix. Tinha esperado e esperado pelo piano (ou órgão) que Leonard Cohen mandara procurar para garantir a sua subida a cena. E enquanto se aguardava, ele mesmo dormia uma sesta… Já passava das duas da manhã quando, finalmente, subiu palco, frente a 600 mil almas, num clima longe de festivo e que poderia ter gerado situações descontroladas. Com fato colonial e voz calma, começou por contar uma história. E quando, pouco depois, fez soar a primeira nota de Bird On A Wire, tinha conquistado a multidão. Começava assim uma actuação histórica, na qual Cohen se fez acompanhar por Bob Johnston e uma mão cheia de músicos escolhidos a dedo. Palavras, por vezes pequenos poemas, cruzavam o alinhamento aqui e ali, as baladas e os momentos mais vivos devidamente disseminados por entre um ‘set’ que visitava canções como Suzanne, So Long Marianne ou Famous Blue Raincoat. Um concerto de excepção, agora evocado numa edição que junta ao áudio um DVD com o filme do concerto e entrevistas com alguns presentes, como Joan Baez ou Judy Collins. Quase 40 depois, é uma bela história que volta a ser contada…
Leonard Cohen
“Live at The Isle Of Wight 1970”

Columbia/Sony Music
4 / 5
Para saber mais: Site oficial


Não é mais o enigmático e promissor, cantautor de quem mais se ouvia falar que da sua música, isto talvez até aos dias de Rejoicing In The Hands (2004)… Também já passou tempo suficiente para se ultrapassarem as comparações do calibre “novo Dylan” que chegaram, sobretudo por alturas do muito recomendável Cripple Crow (2005). Devendra Banhart ganhou o merecido lugar no panorama da década dos zeros, e hoje é indispensável “mobília da casa”. Não é que tenha entrado em piloto automático mas, sobretudo depois de álbuns como o já citado Cripple Crow ou o anterior Smokey Rolls Down Thunder Canyon (o tal concebido sob a visita de uma série de amigos e convidados), o novo What Will We Be mostra-o essencialmente entregue a uma (boa) gestão dos seus argumentos e princípios… Ultrapassou os limites da ideia freak-folk, não limita horizontes, mas raramente procura sair muito além de um certo terreno seguro em que a sua música entretanto se afirmou. As excepções à regra surgem em instantes magníficos como o dançável rebuçadinho pop de 16th & Valencia Roxy Music ou no piscar de olho a heranças eléctricas dos Doors em Rats (curiosamente os dois temas do disco misturados por Daniel Lanois). Há talvez uma razão para que este pareça um disco em que se arruma uma casa. É o primeiro que grava para uma multinacional, certamente com orçamento para garantir a busca de características que até aqui o low-budget obrigava a quase inevitável concretização lo-fi… Opção certa, esta de ensaiar novas ferramentas sob ideias seguras. Para, quem sabe, voltar a voar para mais longe e mais alto logo a seguir. Não surpreende portanto. Mas em nada desilude. E dá-nos mais um belo disco.
Devendra Banhart
“What Will We Be”

WB / Warner
3 / 5
Para ouvir: MySpace


Jona Bechtolt não é um estreante. Natural de Astoria, no Oregon, integrou os The Blow em inícios da presente década e, desde 2003, tem editado regularmente como Yatch, sempre em pequenas independentes. O que mudou? Bom… Em 2008 foi para a estrada com os LCD Soundystem. E voltou a casa com um contrato para gravar pela DFA Records… Um primeiro EP foi editado em 2008, chegando o álbum de estreia para a nova editora já este Verão… See Mistery Lights não esconde o seu bilhete de identidade, sobretudo quando se refere o novo local de residência: a DFA Records… Estão aqui as características basilares daquilo a que se tem vindo a apontar como o “som” da editora: a relação franca com a música de dança, uma alma rock com ascendência genética no punk e uma certa inquietude urbana nesta idade da comunicação global. Não faltam aqui exemplos de boa relação com a canção, seja nas formas mais directas de Ring The Bell ou Psychic City, ora nos arranjos mais elaborados de The Afterlife (um dos momentos maiores do disco). Há aqui heranças colhidas da assimilação das memórias de uns Talking Heads, Tom Tom Club ou Kraftwerk, além das evidentes afinidades com os LCD Soundsystem e outras figuras que no presente se lançam no mesmo comprimento de onda. A See Mistery Lighs falta apenas um alinhamento mais nutritivo, pelo meio surgindo temas claramente menores, daqueles que não magoam na recta final de um EP mas que comprometem o efeito que se espera de um álbum tão determinante para a afirmação de um projecto como este o deveria ser. Está longe de desiludir, mas podia ser melhor…
Yacht
“See Mistery Lights”
DFA Records / Nuevos Medios
3 / 5
Para ouvir: MySpace


A música portuguesa, nos patamares da invenção pop/rock, está a viver aquele que, em conjunto, talvez seja o seu mais inventivo momento desde aquele que, em finais de 90 - e curiosamente com líderes da nova mensagem cantando em inglês - revelou a muitos David Fonseca (então a bordo dos Silence 4). Mais de dez anos depois, e com segura carreira a solo entretanto firmada, David Fonseca é um dos mais sólidos casos de sucesso e aclamação nesse mesmo panorama pop/rock local. Voz de excepção, evidente talento na escrita de canções, um saber nos arranjos e um reconhecido gosto melómano talharam uma obra que não só nos deu bons discos como lhe garantiu a manutenção de um estatuto de popularidade que não o abandonou desde a estreia dos Silence 4. Chegamos ao seu quarto álbum a solo… e de repente parece que nos sentimos a caminho de um beco. Está cá a voz, a mesma capacidade de sempre em escrever canções e lhes dar arte final, assim como um cuidado na escolha das imagens. Há até momentos magníficos, e o single A Cry 4 Love é um deles. Mas, mesmo com mais tempero aqui ou menos ali, uma sensação de tédio sofisticado instala-se com mais frequência que o que seria de esperar. Por um lado mantém-se um certo jogo em terreno seguro, sobretudo na hora de abrir alas aos ecos vivos da memória Silence 4 (ler, as baladas). Por vezes falta espaço, em canções tão cheias de acontecimentos e sons que soterram a atenção. E falta o golpe de asa, o passo adiante, a ousadia que faz com que as carreiras sejam mais que uma soma ordenada de sucessos, e que aqui começa a tardar… O Portugal pop/rock já é um espaço pequeno por via da sua geografia e dimensão cultural. Caminhar para um beco afunila mais ainda os horizontes. E para quem já deu a um álbum o título “Sing Me Something New” é pena ver um talento, com as potencialidades que David Fonseca tem, a caminhar nesse sentido.
David Fonseca
“Between Waves”
Universal
3 / 5
Para ouvir: MySpace

Também esta semana:
The Hidden Cameras, Weezer, Nirvana (live),Frankie Goes To Hollywood (best of), Bryn Terfel, Rickie Lee Jones, World Party

Brevemente:
9 de Novembro: The Killers (live), Martha Wainwright, Robbie Williams, Shirley Bassey,Tori Amos, The Doors (live), Rolling Stones (reedições)
16 de Novembro: Kraftwerk (caixa),Procol Harum (reedições), Stereophonics, Ryuichi Sakamoto, Soft Machine (live), Kitsouné – Vol 8, Groove Armada, M Pollini (Bach)
23 de Novembro: Tom Waits (live), Miles Davis (caixa), Britney Spears (best of), Lady GaGa (repackage), R.E.M. (live), Landscape (reedições)

Novembro: Atlantic Records (antologia), Foo Fighters, The Cinematics, Spiritualized (reedição),Pixies (caixa), Morrissey (caixa), Tricky
Dezembro: Três Cantos, Echo & The Bunnymen (live), Rolling Stones (reedição), Joni Mitchell (reedições), Cluster, Judy Garland (live)

PS. O texto sobre Julian Casablancas é uma versão editada de uma crítica originalmente publicada na revista NS

Um ano depois

Foi há um ano. A 4 de Novembro de 2008, colocando ponto final a uma árdua campanha eleitoral, Barack Obama era eleito o 44º Presidente dos EUA. Com 52,9% do voto e somando 365 grandes eleitores no colégio eleitoral, contra os 173 de John Mccain. É cedo ainda para fazer o balanço de um ano de presidência, uma vez que administração Obama só tomou posse em Janeiro. O desejo de “mudança” mantém-se vivo, mas Obama e a sua administração sabem hoje, e talvez melhor que há um ano, que mudar não é fácil.
Há promessas já cumpridas, outras a caminho de o ser, outras ainda em lista de espera. Uma das promessas cumpridas tem a ver com um desejo de “transparência” na administração, tendo há dias sido divulgada a primeira lista de individualidades que visitaram a Casa Branca nos primeiros meses da administração Obama. Entre os nomes, o de George Clooney, que visitou Obama e Biden, uma vez, com Darfur na sua agenda de preocupações. A imagem mostra o actor, na Sala Oval, durante o encontro com o presidente. Não foi à porta fechada...

Obrigado, Sérgio

Este texto foi publicado no DN, na edição do dia 2 de Novembro, com o título ‘O Direito à Diferença’.

Tive a sorte de assistir, ao vivo, e ao lado dele, àquele que certamente terá sido um dos mais marcantes encontros da vida do Sérgio. Foi em 1993. Estávamos em Manchester, em plena convenção ‘In The City’, onde se juntavam músicos, editores e divulgadores… Tínhamos partido juntos de Lisboa e levávamos três objectivos na bagagem: comprar discos para a discoteca de uma nova estação de rádio que iniciaria as emissões algumas semanas depois (a XFM), estabelecer contactos com editoras independentes e… desafiar John Peel a fazer um programa para a “xis”…
Ver o encontro entre os dois foi como assistir ao que mais parecia uma reunião de velhos amigos (mas que até aí não se conheciam), rapidamente a conversa saltando da agenda prática do programa (que de facto existiu em exclusivo para a XFM) para discos e trocas de memórias. Chamavam muitas vezes ao Sérgio o John Peel português… Mas ali perderam-se as fronteiras. O Peel português? O Sérgio inglês?... Fiquei calado a assistir… Foi inesquecível.
As minhas memórias do Sérgio recuam contudo mais atrás, a finais de 70 e inícios de 80… Lembro-me da voz, captada em FM, anunciando os discos um a um. Novos discos, sempre desafiantes. E também as referências que completavam esta história sempre em construção… Alguns LPs levavam semanas a chegar a estes lados, e as cassetes com as emissões gravadas da rádio ouviam-se assim vezes sem conta… Até a fita não poder mais… Mal imaginava então que, alguns anos depois aquela seria a mesma voz que me daria, ao vivo, os bons dias de segunda a sexta, sempre com uma pilha de discos na mão, entrando perto das dez da manhã pelo estúdio, tomando o microfone que entretanto eu deixara livre.
Aprendi a ouvir música na rádio. E o Sérgio foi, de todos os que me abriram portas ao som, o mais importante e marcante dos divulgadores. Vincava o direito à diferença. E fez a diferença. Obrigado, Sérgio.

Oscars 2010: Steve Martin + Alec Baldwin

É uma notícia, no mínimo insólita, mas é oficial: os Oscars referentes à produção de 2009 terão, não um, mas dois apresentadores — Steve Martin e Alec Baldwin. Curiosamente, vão surgir muito brevemente como protagonistas do novo filme de Nancy Meyers, It's Complicated, contracenando com Meryl Streep [nas imagens]. A cerimónia da Academia de Hollywood está marcada para o dia 7 de Março de 2010.