sábado, Agosto 23, 2014

Jeff Buckley: "Grace" faz 20 anos

Grace, o único álbum de estúdio completado por Jeff Buckley foi lançado a 23 de Agosto de 1994, faz hoje vinte anos — o cantor americano viria a falecer num acidente no Wolf River Harbor, um canal do rio Mississipi, perto de Memphis, no dia 29 de Maio de 1997, contava 30 anos.
Mojo Pin, Grace ou Lilac Wine são algumas das canções de uma obra-prima em que Buckley sintetiza todas as suas heranças, da folk ao blues, do pai Tim Buckley aos Led Zepellin, para criar uma singularíssima sonoridade rock sustentada por uma voz de inigualável densidade dramática. Seja como for, seria a versão de Hallelujah, de Leonard Cohen, a ficar como emblema universal do álbum e, mais do que isso, símbolo da fulgurância breve da vida de Buckley — aqui fica a sua imaculada memória.


>>> Site oficial de Jeff Buckley.
>>> Grace no AllMusic.
>>> Página de Jeff Buckley na Rolling Stone.

sexta-feira, Agosto 22, 2014

Passar ao lado da vida — uma reflexão

Matias Santa Maria
Daqui a uma década teremos uma geração, agora na casa dos vinte anos de idade, a meio dos trinta e rapidamente a caminho dos quarenta, confrontando-se com o facto de que a vida lhe passou ao lado. Muitos destes portugueses nunca terão conhecido um emprego estável, transitando entre estágios pouco relevantes e contratos precários, remunerações baixas e uma perspectiva de futuro esvaída de qualquer previsibilidade.

Daniel Carrapa
8 Agosto 2014

Estas são as palavras de aberturas de um belo texto disponível no blog de arquitectura A Barriga de um Arquitecto — sem ignorar a acumulação de factores que condicionam essa geração sem história, Daniel Carrapa não deixa de reagir ao "discurso da inevitabilidade promovido por governantes e sustentado por alguns especialistas da área do jornalismo económico".
Num tempo de estreitamento da agilidade do próprio pensamento político — e dos modos políticos de pensar —, eis uma reflexão que vale mesmo a pena ler, sob o título dramático e sugestivo 'À espera que o longo prazo nos caia em cima'.

Os ecrãs contra as crianças

FOTO: Chris Stein/Getty Images — Time
1. "Muitas pessoas estão a considerar os benefícios dos meios digitais na educação, mas não há muitas a ter em conta os aspectos negativos. Um desses aspectos é uma diminuição da sensibilidade em relação a sinais emocionais, ou seja, a compreensão das emoções dos outros" — são palavras de Patricia M. Greenfield, professora de psicologia da Universidade da Califórnia (UCLA), num estudo que comparou o comportamento de um grupo de crianças que passaram cinco dias com acesso regular a televisão, telefone e Internet com o comportamento de outro grupo que, durante o mesmo período, apenas conviveu entre si. Resultado: face às mesmas imagens com que, depois, todas foram confrontadas, as crianças que não tinham estado em contacto com ecrãs deram provas de muito maior agilidade e acutilância na leitura de sinais "não verbais".

2. Como escreve Belinda Luscombe em artigo da Time sobre este estudo, citando a respectiva coordenadora, Yalda T. Uhls, do Children's Digital Media Center, não se trata de demonizar todas as utilizações dos ecrãs, mas sim de lembrar que, para os jovens, o face a face é "uma parte importante do processo de socialização".

3. São dados, observações e interpretações tanto mais importantes quanto nos movemos em contextos que tendem a considerar os ecrãs — nomeadamente a televisão — como um espaço "natural" cujos efeitos de (anti-)socialização são irrelevantes. Em boa verdade, esse ponto de vista, frívolo e demagógico, apenas serve para boicotar qualquer reflexão série sobre os ecrãs do mundo em que vivemos.

Pepê Rapazote — a excepção e a regra

A notícia tem estado em todo o lado: no programa Verão Total (RTP1), ao apresentar um passatempo, o actor Pepê Rapazote sugeriu esta forma de utilização do dinheiro do prémio: "Para utilizar este dinheiro terá de utilizar um cartão multibanco. Mas pode comprar o que quiser! Se quiser comprar, por exemplo, droga! Desde que o seu dealer [traficante] tenha um terminal multibanco, pode comprar droga, já viu? Não é uma coisa maravilhosa? Estes mil euros vão dar-lhe muito jeito ao fim do dia. Mas não gaste tudo nestas coisas, nem em vinho. Tudo com moderação, tudo com moderação!" [transcrição de notícia e video do DN].
Como escreveu Nuno Azinheira, mesmo recusando os disparates que de imediato se multiplicaram nas "redes sociais", trata-se de uma "tremenda irresponsabilidade"; ou, como recorda Joel Neto, o facto concentra uma parte significativa do "paradigma" da televisão portuguesa de hoje.


Só posso sentir cumplicidade com tais pontos de vista. Apesar disso — aliás, corrijo: precisamente por causa disso —, creio que vale a pena extrapolar um pouco e enfrentar o mais incómodo dos factos: na sua monstruosa futilidade, a performance de Pepê Rapazote não emerge como a excepção, mas sim como o produto directo da regra. Que regra? A de que as práticas televisivas dispensam qualquer consideração pedagógica ou artística sobre o seu contexto e, nessa medida, qualquer pensamento sobre a relação que estabelecem com os espectadores.
Mais ainda: não é possível desligar tão patético episódio de todo um sistema de promoção social que, há muitos anos, se foi enraizando através do brutal reforço do poder simbólico (para não falar do económico) das telenovelas, depois prolongado pelo vergonhoso triunfo do Big Brother e seus derivados.
Que aconteceu, então? Muitos protagonistas de tais universos — e Pepê Rapazote é apenas uma das muitas dezenas de actores medíocres que são vendidos como o supra-sumo da arte de representar — são promovidos à condição de porta-vozes de "eventos" ou "dramas" sociais, não poucas vezes assumindo a condição de conselheiros encartados para todos os males que possam afectar os incautos espectadores, desde a gestão dos seus recursos financeiros até problemas de violência doméstica, passando pelo tratamento de queimaduras do sol durante as férias de Verão...
Pepê Rapazote é, de facto, apenas uma banal emanação da regra que, metodicamente, foi triunfando no espaço televisivo. Segundo tal regra, a mais absoluta irresponsabilidade serve-se com um sorriso grosseiro para, depois, se passar à frente e começar a inventar novo disparate.
Quem tem coragem — nomeadamente no interior dos nossos partidos políticos e das nossas instituições democráticas — para reconhecer que estamos perante um gravíssimo problema de esvaziamento dos valores sociais, logo de apocalíptica decomposição cultural?

Uma canção para o verão (2014.15)


Hoje recordamos uma canção que nos leva a um dos mais belos álbuns editados já neste século. Trata-se de Comfy in Nautica, o tema de abertura de Person Pitch, disco fundamental na afirmação de um espaço próprio na carreira de Panda Bear mas também um espaço de reflexão importante sobre a criação musical que teria depois reflexos nos Animal Collective, a banda à qual pertence.

A canção surgiu originalmente em 2005 num single double A side e partilhava então o espaço do disco com I'm Not. A canção inclui um sample de Jisas Holem ya Holem Hand Blom, que surgiu na banda sonora do filme A Barreira Invisível, de Terrence Malick.



O álbum Person Pitch foi o primeiro disco do músico norte-americano a surgir depois deste se ter mudado para Lisboa, onde ainda hoje vive. O músico prepara neste momento o lançamento de um novo álbum a solo.

The Knife anunciam separação


A dupla The Knife, sem dúvida uma das forças maiores da música neste início de século, anunciou que colocará um ponto final na sua atividade mal termine a digressão que está ainda na estrada (e tem último concerto em novembro, na Islândia).

Formados em 1999 lançaram uma série de discos que exploraram tanto o trabalho de composição com eletrónicas como redefiniram a forma de entender a música como força política. O mais recente disco, Shaking The Habitual, merecerá mesmo ser um dia recordado como um dos exemplos mais claros de expressão de ideias políticas através da música.

Além de debaterem a distribuição da riqueza e o acesso igual a oportunidades, o disco tem particular importância também no expressar de todo um quadro de ideias e olhares sobre questões de género que, nas entrevistas concedidas, o grupo explorou com clareza e seriedade.

Convém não esquecer também que, através dos The Knife, tivemos um dos casos mais importantes de incursão de figuras nascidas nos espaços da "música popular" pelo território da ópera, sendo Tomorrow In A Year um importante esforço pioneiro num processo de diálogo entre formas musicais que sublinha a rara visão dos dois irmãos Karin e Olof.

Dele sabe-se já que continuará a trabalhar com Houwaida Hedfi. Dela - que numa pausa dos The Knife editou um disco sob a designação Fever Ray - ficamos à espera de notícias.

Podem recordar aqui uma entrevista com os dois irmãos, realizada por alturas do álbum Shaking The Habitual:
Parte 1
Parte 2

Em busca de uma canção

Depois da publicação de uma entrevista com o escritor Michael Cunningham feita a propósito da edição em Portugal do seu mais recente romance, A Rainha da Neve e que foi originalmente publicada nas páginas do suplemento Q,. do DN, apresentamos hoje o livro e o autor. Este é também um excerto desse texto.

Estamos numa manhã de novembro de 2004 na cozinha de um pequeno apartamento na Knickerbocker Avenue, em Brooklyn (Nova Iorque). Tyler, um dos protagonistas desta história, tenta afastar um pensamento da sua mente: “Não vão reeleger George Bush. Não podem reeleger George Bush”... E depois recentra as atenções numa canção que está a escrever. Uma canção que “devia manter-se muito próxima de Dylan e dos Velvet Underground. Não devia ser um faux-Dylan, nem uma imitação de Lou Reed; devia ser original (original, naturalmente; de preferência sem precedentes; preferencialmente tingida de génio), mas isso ajuda, ajuda um pouco a apontar numa certa direção”. Trabalha na letra, na música... Canta, à espera de que os primeiros versos “vão dar a... qualquer coisa”, numa cozinha entre fotografias de Burroughs, Bowie, Dylan, Faulkner e Flannery O’Connor (estas últimas escolhidas por Beth, com quem vive).
Pouco depois Barrett, o seu irmão (que também partilha o espaço daquele apartamento), veste umas calças justas e uma T-shirt dos Clash puída. Prepara-se para sair para o trabalho numa loja onde vende jeans, T-shirts e acessórios. “O que me preocupa deveras é o corte de cabelo do Kerry”, tinha respondido na véspera ao irmão, confrontados os dois com sondagens que davam Bush com vantagem sobre o candidato democrata.

E é com as vésperas da eleição presidencial de 2004 (que acabaria por dar um segundo mandato a George W. Bush) e uma primeira mão-cheia de referências musicais que entramos n’A Rainha da Neve, novo romance de Michael Cunningham, escritor norte-americano que, depois do sucesso de As Horas – uma narrativa em três épocas que toma o livro Mrs. Dalloway de Virigina Woolf como principal fonte de inspiração –, no final dos anos 90, se tornou presença habitual nos escaparates das livrarias a cada novo título que publica.

A sua carreira começou há 30 anos, com o único dos seus romances que nunca conheceu reedição. Trata-se de Golden States, lançado em 1984 e que o escritor explicou já ter sido um exercício feito para provar a si mesmo que conseguiria terminar um romance. O reconhecimento estava ainda longe. E em 2011, por ocasião de um lançamento de um outro romance seu em Lisboa, ele mesmo explicaria então como foi longo o período de silêncio que antecedeu as atenções que chegariam à sua escrita em finais dos noventas: “Passei os meus vinte anos à procura do amor e outras drogas. E só quando cheguei aos 30 é que pensei que tinha de ter uma carreira. E depois demorou seis ou sete anos até alguém publicar alguma coisa minha. Não sou apenas disciplinado. Sou muito autoconfiante e muitas vezes pensava ‘que se lixem’ por não publicarem o que escrevia. Em meados dos meus 30 anos pensei que se calhar não aconteceria, que poderia ser uma dessas pessoas que nunca chega a ser escritor. Decidi que ia continuar a escrever, mesmo que me tornasse um professor ou algo parecido. E pouco depois, quando decidi que não me ia preocupar, a New Yorker publicou um conto meu e a partir daí as coisas seguiram”, como ele mesmo explicou na altura.

E foi assim que chegamos a livros como Uma Casa no Fim do Mundo (1990, que teria depois adaptação ao cinema em 2004 por Michael Mayer e com argumento adaptado pelo próprio escritor) e Sangue do Meu Sangue (1995), romances que também antecederam a publicação de As Horas (1998), o título com o qual Michael Cunningham venceu vários prémios – entre os quais um Pulitzer – e conheceu a sua primeira tradução para o mercado livreiro português.
De então para cá, e antes do novo A Rainha da Neve, lançou os romances Dias Exemplares (2005) e Ao Cair da Noite (2011), a sua bibliografia tendo entretanto somado ainda a presença de Land’s End: A Walk in Provincetown, um pequeno livro sobre a cidade onde costuma passar os dias de verão e que não conheceu ainda tradução. Um retrato do seu trabalho recente não pode esquecer trabalhos para o cinema, introduções e prefácios para livros (entre os quais reedições de textos de Virginia Woolf, Thomas Mann ou Walt Whitman) e alguns contos já publicados, além de um lugar como professor de escrita criativa na Universidade de Yale.

Uma certa disciplina rege o seu dia-a-dia, no qual a escrita surge devidamente arrumada. “Se há algo que eu, ao longo dos anos, aprendi foi a tornar-me menos obsessivo no meu método de escrita”, contava em 2011 perante uma plateia de leitores seus em Lisboa. “Acordo, vou para o meu estúdio e escrevo durante umas quatro ou cinco horas. E depois vou tratar da minha vida e não escrevo frases em guardanapos nem vou a festas a pensar que isto seria bom para um romance. Acho que preciso ir direto do sono e sonhos para escrever”, acrescentou nessa mesma ocasião. E agora, ao mesmo tempo que nos chega A Rainha da Neve, Michael Cunningham termina a escrita de um episódio-piloto para uma série de televisão e revê o argumento para uma adaptação ao cinema de um romance de Ann Leary.

Para ler: 'God Help The Girl',
de álbum a filme musical


Começou por ser um disco no qual Stuart Murdoch experimentava uma ideia para lá dos Belle & Sebastian. Havia já a vontade de fazer um filme, mas parecia coisa difícil de concretizar. Mas agora está aí. O Guardian entrevistou-o e conta como de um disco nasceu um filme.

Podem ler aqui.

quinta-feira, Agosto 21, 2014

Ty Segall, o próprio

Vivemos tempos de todos os cruzamentos e influências. De tal modo que, por vezes, parece que alguns artistas e bandas apenas têm para oferecer o catálogo das referências que os inspiraram... Dito de outro modo: como manter a fidelidade a si próprio? Uma resposta possível: Ty Segall.
Californiano, 27 anos, Ty Segall é um daqueles trabalhadores incansáveis que vai acumulando álbuns e colaborações em bandas de existência mais ou menos efémera, explorando um som agreste e poético que se mantém fiel à sua energia mais visceral, situada algures numa província remota do pós-punk, mesmo não desdenhando as mais inusitadas inspirações — enfim, se os Beatles tivessem continuado numa via de banda psicadélica, digamos que, quase meio século depois de Lucy in the Sky With Diamonds, soariam assim... Oops!
Simplifiquemos. E lembremos que está a aparecer o novo álbum de Ty Segall, Manipulator, disponível para audição integral na NPR. Aqui fica o som de uma das suas canções, Feel — e quem vier atrás, que não feche a porta.

Cinema & poesia

O filme colectivo Tar é um objecto comercialmente pouco protegido e, ao mesmo tempo, pleno de energia e lições a ter em conta — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Agosto), com o título 'Bruscamente no Verão de 2014'.

Há qualquer coisa de profundamente redutor na imagem dominante dos jovens sustentada pelo mercado cinematográfico (tendo como principal aliado, há que reconhecê-lo, o populismo “juvenil” de muitas formas de fazer televisão). Por um lado, circula a ideia simplista segundo a qual “super-heróis” e “efeitos especiais” constituem os únicos valores a ter em conta na relação informativa e comercial com os jovens; por outro lado, o chamado jovem adulto é muitas vezes implicitamente caracterizado como um pateta alegre cujos interesses se esgotam na má língua das famosas “redes sociais” ou no mais recente gadget a aplicar no seu telemóvel...
Vem este desabafo a propósito da estreia de um filme como Tar, inspirado na poesia de C. K. Williams, autor americano distinguido com um Pulitzer no ano 2000 (Tar é também o título de um dos seus livros). De facto, num contexto cultural e comercial que tivesse uma visão mais ágil dos seus públicos, Tar seria um objecto especialmente trabalhado para mobilizar o interesse de qualquer espectador jovem ou adolescente. Porquê? Pela mais motivadora das razões: trata-se de uma obra colectiva, assinada por doze estudantes da Universidade de Nova Iorque.
Não se trataria, entenda-se, de enaltecer de forma abstracta a “juventude”. Acontece que Tar constitui um exemplo interessantíssimo de uma aliança pouco comum (mesmo no contexto americano) entre as instâncias de ensino e as estruturas de produção cinematográfica. Na prática, os estudantes novaiorquinos puderam mesmo contar com a disponibilidade de alguns actores da “lista A” de Hollywood, incluindo James Franco (também co-produtor) Mila Kunis e Jessica Chastain.
O resultado de tal conjugação de esforços e talentos exibe marcas de uma óbvia influência de Terrence Malick e, muito em particular, de A Árvore da Vida (2011). Seja como for, creio que será importante dizer que a energia contagiante de Tar não resulta, longe disso, de um mero catálogo de inspirações. Através de um estrutura fragmentada e fragmentária, este é um filme sobre o poder visceral das palavras.
E não será verdade que, no fascinante património de Hollywood, existe toda uma nobre tradição ligada a esse poder? Será preciso recordar títulos como Bruscamente no Verão Passado (1959), de Joseph L. Mankiewicz [cartaz pequeno], e a sua delicada arte de exposição da transparência e das máscaras que as palavras podem envolver?
Enfim, importa não simplificar: Tar não está, de facto, ao nível de Mankiewicz... Mas não é isso que está em jogo. O que deve ser sublinhado e valorizado é o facto de este ser um filme tocado por uma vitalidade que, ao atender à densidade da escrita poética, celebra o cinema muito para além dos lugares-comuns tecnológicos que, hoje em dia, enquadram muitos aspectos do seu consumo. Que isso envolva também uma visão mais digna da própria juventude, eis o que não me parece secundário.

Guerra em Gaza — um mapa

FOTO: AP/Hatem Ali — Le Monde
Não é simples lidar com as notícias perturbantes — incluindo as muitas imagens, fotográficas e televisivas — que vão chegando todos os dias da Faixa de Gaza. E não é fácil depurar informações nem resistir a maniqueísmos políticos, ideológicos ou morais. Em boa verdade, o que continua a acontecer entre israelitas e palestinianos envolve também, necessariamente, um desafio ao trabalho jornalístico. Eis um exemplo, apenas um, de uma expressão desse trabalho que tenta recuar à frieza possível dos factos, além do mais utilizando de forma eficaz os recursos específicos da Net — é uma proposta videográfica do jornal Le Monde, intitulada 'Compreender as origens da guerra em Gaza em 5 minutos'.


Comprendre les origines de la guerre à Gaza en... por lemondefr

Uma canção para o verão (2014.13)


Hoje visitamos o importante legado das edições em disco da Red + Hot Organization para recuperar uma parceria entre David Byrne e Caetano Veloso. A canção, com o título Dreamworld: Marco de Canavezes evoca a figura de Carmen Miranda e abriu em 1998 o alinhamento do álbum Onda Sonora: Red Hot + Lisbon.

Juntamente com os dois volumes Red Hot + Rio, este disco com Lisboa como mote corresponde às abordagens dos títulos desta organização que angaria fundos para a luta contra a sida focados numa geografia e na sua cultura. Na verdade, o disco dedicado a Lisboa é, mais que uma celebração da cidade, um espaço de exploração dos vários caminhos da lusofonia.



A Red + Hot Organization continua ativa e este ano tem dois discos na sua agenda. Um deles, dedicado a Bach, foi lançado há poucas semanas. Para outubro está previsto o lançamento de um tributo a Arthur Russell.

Gravações históricas dos Beatles
chegam a disco em setembro

A editora OxTango Music vai lançar em setembro quatro discos novos com gravações históricas dos Beatles que cobrem um período entre 1963 e 69. A editora lançara já este ano lançara os registos históricos no Star Club, vai editar três volumes (em formato de CD duplo) sob o título Historic Live Recordings e um quarto disco, a que chamará The Get Back Nagra Tape Remasters.

Os três primeiros são antologias de gravações ao vivo captadas em diversos palcos e geografias, desde atuações nos programas de Ed Sullivan ou na Royal Variety Performance até apresentações na Austrália, Japão ou um concerto histórico no Shea Stadium, em Nova Iorque, em agosto de 1965.

Podem consultar aqui os alinhamentos completos:
- Volume 1
- Volume 2
- Volume 3

O quarto disco, The Get Back Nagra Tape Remasters recupera as gravações que tiveram lugar nos estúdios de cinema, em Twickenham, em janeiro de 1969.

O alinhamento deste disco pode ser consultado aqui.

Uma semana no Museu do Brinquedo


Mais três imagens do museu que encerra as suas portas, em Sintra, no próximo dia 31. Hoje espreitamos três exemplos da vasta coleção de miniaturas de soldados, de várias épocas e nacionalidades, que estão em exposição. A terceira imagem corresponde a uma reconstituição do Regicídio, em 1908.

Em conversa: Michael Cunningham (2014.4)

Continuamos a publicação de uma entrevista com o escritor Michael Cunningham feita a propósito da edição em Portugal do seu mais recente romance, A Rainha da Neve. A entrevista foi originalmente publicada nas páginas do suplemento Q,. do DN.

O título do novo livro A Rainha da Neve é uma referência a Hans Christian Andersen?
Sim, o livro pede o título emprestado a um conto dele. Quando comecei o livro sabia que lhe ia chamar A Rainha da Neve. Em parte porque gosto do conto de Andersen, mas também porque as palavras neve e rainha têm um som tão ressoante e certo... Ao começar a escrever senti que não haveria um paralelo com a história de Hans Christian Andersen... Sem soar pretensioso, acho que estava a pensar nas coisas que o inspiraram a chegar àquele conto... Como a rainha que vive no que crê ser uma perfeição, mais os grandes temas do conto que os detalhes da narrativa.

Pela sua escrita tem revelado relações com o universo da literatura e de vários autores em particular. Não há na Rainha da Neve uma presença dominante como a de Virginia Woolf em As Horas ou Walt Whitman nos Dias Exemplares. Mas fala de Flaubert mais do que uma vez. 
É verdade... Talvez porque sou um book geek... Um escritor escreve sobre coisas que lhe interessam e há muitas coisas que me interessam. O desejo do Tyler em escrever uma grande canção é algo que me interessa. A luta de Liz para amar um homem que a ame de volta interessa-me. Assim como me interessam os grandes trabalhos da literatura. E todos acabam por encontrar uma maneira de ali entrar. 

Madame Bovary é assim apenas um livro de que gosta particularmente? Foi um marco na história da literatura.
É um dos meus livros preferidos. Mas de uma forma geral as referências literárias surgem porque estão na minha mente e são parte do que penso. Não me vejo como alguém que está a promover a leitura de Flaubert.

Mas As Horas chamou muita gente à Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf...
Aí foi um efeito secundário inesperado d’As Horas. Mas era um caso diferente. O livro tinha uma relação muito intricada com Mrs. Dalloway. Havia livrarias onde se estavam a vender mais cópias do Mrs. Dalloway que de As Horas, o que me pareceu muito bom.

Como é viver depois de ganhar um Pulitzer?
Pensei muito nisso na altura e perguntava a mim mesmo: então a partir de agora é sempre a descer? E após algum tempo olhei para mim. Se quase 20 anos sem qualquer reconhecimento não te tinham parado, não o ia ser por prémios. Se a falta de sucesso não me tinha travado porque o seria com o sucesso? Seria insultuoso para tantos autores que nunca ganharam um prémio ficar histérico por causa de um. Ou seja: havia que continuar a escrever.

Através da adaptação ao cinema por Stephen Daldry, As Horas ganhou uma banda sonora por Philip Glass. Imagina quem possa dar som às canções de Tyler?
Acho que algum músico que eu respeite e que queira fazer uma abordagem fá-lo-á melhor seguindo a sua interpretação do que se seguir uma ideia minha. Acho que o que tenho para dizer das canções está já no livro.

Assimila as suas personagens?
É um pouco como os atores. Habitamos um papel. Sabemos que não somos nós, mas eles habitam-nos o suficiente ao ponto de sentirmos que temos uma vida paralela.

Os nomes que lhes dá têm alguma justificação?
É como com os diálogos: sei quais são os seus nomes. É misterioso, aparecem assim. Há elementos na ficção que são calculados, naturalmente. Mas há outros elementos que são espontâneos e intuitivos. Eu sei apenas qual é o nome daquelas personagens. E não sei porquê. Nunca tive dúvidas nem mudei um nome. É como dar o nome a um bebé. 

E as profissões? São tão importantes de imaginar para definir as personagens?
Sim. Há escritores que subestimam a importância do trabalho das personagens. Talvez seja algo que se apanha na televisão... Mas nas velhas sitcoms a ação decorria em casa, ao fim do dia, depois do trabalho. As pessoas tinham trabalhos e os espectadores sabiam quais eram. Ter um trabalho é uma experiência importante. É uma parte da nossa vida. Mas sim, presto muita atenção ao que as pessoas fazem para ganhar a vida.

E o que tem feito além da escrita de romances?
Tenho muito trabalho em mãos. Fiz um piloto para uma série televisiva para mostrar ao Showtime, um canal de cabo. E estou a fazer uma nova revisão a um argumento criado a partir de um romance de Ann Leary chamado The Good House. E a menos que mudem de ideias, a Meryl Streep e o Robert De Niro estarão no filme.

A ficção televisiva é atualmente um espaço atraente para quem escreve ficção?
É fantástica. Estou muito interessado na televisão. E não só na televisão americana. Mas a televisão americana está a viver um renascimento. Vejo várias séries. The Wire, por exemplo, mas essa já terminou... Há uma na BBC chamada Orphan Black. Muitas mais.

Para ouvir: novo tema de Thurston Moore

O antigo elemento dos Sonic Youth tem um novo álbum a solo a editar em Outubro. Thurston Moore acaba de revelar um primeiro tema do seu alinhamento. É este The Best Day, canção que deverá dar título ao disco.

Podem ouvir aqui.

Para ler: Morrissey explica razões
para o afastamento da editora

Poucas semanas depois de ter editado o seu mais recente álbum, de título World Peace Is None Of Your Business, Morrissey afastou-se da editora que o lançara: a Harvest. Segundo avança a Pitchfork o disco poderá ser em breve lançado por uma outra editora.

Podem ler aqui a notícia, que inclui citações do próprio Morrissey, que explica o que justificou este afastamento da editora.

quarta-feira, Agosto 20, 2014

O trailer do ano?

Cerca de um ano depois de Um Segredo do Passado, Jason Reitman tem um novo filme. Chama-se Men, Women & Children e baseia-se no livro homónimo de Chad Kultgen, sobre relações familiares e sexuais num mundo em que há mais SMS a circular do que verdadeiras trocas de palavras... Pelo menos, é essa mensagem que passa no espantoso trailer, por certo um dos mais sugestivos e subtis deste ano cinematográfico.

Uma canção para o verão (2014.12)


Hoje recuamos no tempo para evocar os melhores dias na carreira dos The B-52's, uma das bandas de referência da new wave norte-americana. Num mundo (como o de hoje) que muitas vezes reduz injustamente uma obra a uma ou um par de canções - e nos B-52's parece que, salvo ocasiões de fuga a essa norma, nunca se lembram de mais que Rock Lobster ou Love Shack quando, na verdade, há muito mais para ouvir - vamos espreitar uma das canções sem sempre visitadas pela indústria da nostalgia.

Legal Tender surgiu em 1983 como cartão de visita para o álbum Whammy! É uma canção pop solarenga e o teledisco fez questão de explorar as suas qualidades mais garridas, sobretudo através do conjunto de cabeleiras usadas por Kate e Cindy (as duas vocalistas), que eram de resto parte da assinatura visual da banda.



Legal Tender foi originalmente editada como single, mas teve então uma performance relativamente discreta. A canção traduz uma presença evidente dos sintetizadores nessa fase da obra do grupo.

Na rodagem de um filme a quatro vozes (1):
'Sereias do Tejo', de Marie Losier

Fotos: Miguel Valverde

O Indie Lisboa lançou este ano um desafio a Denis Côté, Dominga Sotomayor, Gabriel Abrantes e Marie Losier: um filme feito a quatro "vozes", assinado por figuras que ao longo dos anos viveram importantes episódios de relacionamento com o festival lisboeta. De comum tinham uma única "regra" como ponto de partida: filmar em Lisboa (algo que, de resto, era desejo antes já por todos manifestado). Hoje "espreitamos" os bastidores da rodagem de um desses filmes, através das palavras e imagens de Miguel Valverde, um dos diretores do festival.

"Quando nos propusemos a fazer uma longa metragem, dividida em quatro segmentos, deixamos a liberdade criativa de cada um dos autores escolhidos falar e de acordo com as suas necessidades fomos tentando fazer o possível para que os filmes se parecessem com o que tinham imaginado", explica Miguel Valverde antes de avançar em concreto pelo segmento que hoje visitamos: A Sereia do Tejo, de Marie Losier.

E sobre o filme diz-nos:

"Inspirado na figura de Fernando Santos, mais conhecido como a performer Deborah Kristall, Marie Losier imaginou um filme cheio de texturas, cor e matéria. Filmar em película 16mm foi o maior desafio, mas é este o território da realizadora e onde a mesma se sente mais à vontade. Com a ajuda de Rui Xavier (o director de fotografia que fez também a segunda câmara) foi construído um universo onírico e poético na imagem que corresponde à fantasia da realizadora e da sua personagem. Com uma equipa muito esforçada e os muitos amigos que vieram ajudar, está em marcha provavelmente o filme mais revelador do universo desta cineasta". 

Em conversa: Michael Cunningham (2014.3)

Continuamos a publicação de uma entrevista com o escritor Michael Cunningham feita a propósito da edição em Portugal do seu mais recente romance, A Rainha da Neve. A entrevista foi originalmente publicada nas páginas do suplemento Q,. do DN.

Não é também a primeira vez que escreve sobre alguém que busca a perfeição. Que tenta fazer algo bem feito (como aqui sucede com Tyler, que quer fazer a canção certa)... A Laura n’As Horas queria cozinhar o bolo perfeito...
É verdade. Bem observado. Quem escreve romances está fixado em coisas diferentes. Quando comecei a escrever não me decidi a escrever sistematicamente sobre o desejo humano em criar algo maior que a média dos seres humanos. Mas é uma das coisas mais interessantes sobre a espécie humana. O desejo de criar algo belo e duradoiro. Se um extraterrestre aparecesse pela minha frente e me pedisse para descrever os seres humanos em poucas palavras, uma das coisas que eu responderia era que somos seres que querem produzir o belo, querem produzir trabalhos que transcendam os nossos próprios limites. É parte do que é interessante em nós mesmos.

Mas há também o revés da medalha... No novo livro lembra que, no Iraque, afinal, não havia armas de destruição maciça...
Por cada pessoa que tenta criar uma obra de arte há algum chefe corporativo a envenenar o ambiente ou a procurar o lucro... Mas isso eu não diria ao extra-terrestre [risos].

Quão exigente é consigo mesmo quando escreve? É como a personagem Tyler, que luta pela canção certa?
Sou muito exigente comigo mesmo, como acho que qualquer escritor deve ser. Escrevo e depois reescrevo e volto a reescrever. Sou talvez menos nervoso que o Tyler. Se um parágrafo não serve sei que mais tarde o posso mudar. O que é uma qualidade útil para qualquer artista. O Tyler é como aquelas pessoas dotadas, mas que não conseguem terminar nada, porque nunca nada chega ao patamar das suas expectativas. Eu sei que não chego ao nível das minhas expectativas, mas faço as coisas à mesma.

Algum dos seus livros se aproximou desse nível de exigência pessoal?
Não quero insultar os meus próprios livros. Creio que temos sempre um bom livro em mente. Deveríamos ter. Deveríamos sempre sentir que o livro que escrevemos não é tão bom como o livro que tínhamos em mente. Se deixarmos de sentir assim e ficarmos muito satisfeitos, então acabamos mal.

Nos últimos livros tem aprofundado a escrita de diálogos. Ouve-lhes os sons das vozes? Imagina-os a falar?
Escuto as vozes das pessoas, sim, e isso é muito espontâneo. Sei como as personagens falam... Sei como é o ritmo das suas frases, as palavras que tendem a repetir... É uma das coisas que chega, mas não sei de onde vem.

As personagens nascem antes da história ou é a evolução da narrativa que acaba por defini-las melhor?
É um pouco das duas coisas. Tenho um sentido claro das personagens no primeiro rascunho (que é sempre muito diferente do livro que é depois publicado). Mas ao escrever sobre estas pessoas vamos descobrindo melhor quem elas são. Vamos descobrindo as suas contradições... E depois faz-se um segundo rascunho que estabelece melhor quem são, o que mexe com elas... O que as assusta. Um dos objetivos do romancista é o de produzir personagens verosímeis. Sem personagens complexas e nas quais se acredite um romance não pode ser bom.

Visualiza estas personagens? E o que acontece, depois, quando é confrontado com filmes que usam atores para lhes vestirem a pele?
É um processo um pouco estranho. Mas tenho tido sorte com os atores que têm recriado as personagens que inventei. Não sei se acredito na reincarnação... Mas imaginemos que a reincarnação existe, pelo menos para servir esta discussão. Ver atores a interpretar personagens é um pouco como ter conhecido alguém intimamente. Essa pessoa que amamos morreu e surge reincarnada... Conhecemos então uma nova pessoa. É um novo corpo (é outra pessoa). Mas entendemos que aquele é o nosso velho amor reincarnado. 

Este é um livro que acontece na Nova Iorque dos nossos dias. É uma história que acontece depois do 11 de Setembro. Não se fala sequer do 11 de Setembro... Mas há algo que ali ficou. É como se tivesse ficado inscrito implicitamente na cidade e em quem nela vive...
Sim, o 11 de Setembro está lá. Teve um efeito profundo no sentido de segurança dos americanos, no seu sentido do futuro. Tornou-se parte de como pensamos e sentimos. Está lá implicitamente.

A arte em finais do século XX e inícios do século XXI – e sobretudo a arte criada em Nova Iorque – retratou de diversas formas a epidemia da sida. Sente que As Horas faz parte de um corpo de obras que, tal como por exemplo a Sinfonia n.º 1 de John Corrigliano, expressam dessa forma uma atenção com marcas de contemporaneidade?
Na altura era impossível não falar do tema. Foi importante escrever e ainda é um tema importante. A epidemia não acabou. Veja-se África. Veja-se o que acontece entre americanos consumidores de certo tipo de drogas... Mas hoje sinto que essa já não é a história para eu contar. Segui em frente. Não ia escrever romances sobre doentes com sida a vida toda. Mas não diria nunca que o mundo resolveu a epidemia.

Para ouvir: uma nova canção de Leonard Cohen

Chama-se Almost Like The Blues e é um primeiro tema à escuta do alinhamento de nove canções que integram o novo álbum de Leonard Cohen, que será editado em setembro. Relativamente minimalista na instrumentação, com discretos fundos lançados por teclas, uma teia rítmica mais evidente e pontuais afloramentos do piano e outros instrumentos, é uma canção que segue em linha com os caminhos recentes da obra de Cohen, com palavras que, afinal, são aqui as protagonistas.

Podem ouvir aqui a canção.

Para ler: os melhores filmes de 2014
(numa lista em construção)

A revista Sight & Sound tem, através da sua edição online, o (bom) hábito de acompanhar, semana a semana, o que vai acontecendo nas salas de cinema. E vai assim elegendo o "filme da semana". Uma lista, em jeito de work in progress, do que tem sido 2014, está assim disponível no site oficial da revista.

Podem ver aqui o conjunto de textos dos "filmes da semana" de 2014 até aqui.

Stallone já foi outro Stallone

Sylvester Stallone reaparece no terceiro capítulo de Os Mercenários e não será por aqui que o Verão cinematográfico nos trará qualquer surpresa — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Agosto), com o título 'Os descendentes de Rambo'.

Talvez valha a pena dizer qualquer coisa sobre a percepção social da crítica de cinema. Compreendi à minha custa que há muitas pessoas que, por atitudes que podem ir de uma cândida ingenuidade à mais elaborada má fé, reduzem o crítico a um estereótipo que dispensa até o conhecimento da sua escrita. Exemplo? Não é fácil escrever sobre Sylvester Stallone sem que, através de um automatismo cego, a maior parte dos espectadores deduza (!) que se trata de um nome obrigatoriamente (?) demonizado por qualquer crítico de cinema... Enfim, há coisas mais graves neste mundo. E, sejamos realistas, não fará sentido gastar muito tempo com a avassaladora mediocridade de Os Mercenários 3, filme em que Stallone retoma a personagem de Barney Ross, uma derivação simplista sobre o simplismo em que há muito desembocou a sua série de filmes sobre John Rambo.
Gostaria apenas que isso não escamoteasse a simpatia com que sempre olhei para a fase inicial da carreira de Stallone, a começar por Rocky (1976), de John G. Avildsen, o filme que o revelou como argumentista, actor e também símbolo de uma nova conjuntura para o tratamento da noção de heroísmo em Hollywood. Aliás, pouco depois, estreou-se na realização com Beco do Paraíso (1978), interessante exemplo da vaga revivalista que, na altura, marcava a produção dos grandes estúdios. Isto sem esquecer que o primeiro filme de Rambo, dirigido por Ted Kotcheff, entre nós chamado A Fúria do Herói (1982), constitui uma peça importante na evolução ideológica da abordagem da guerra do Vietname pelo cinema dos EUA. Por tudo isso, é pena que a saga dos Mercenários mais não seja que o sintoma de um “estilo” que, literalmente, passou a celebrar o ruído, dispensando qualquer forma de inteligência.

terça-feira, Agosto 19, 2014

A IMAGEM: Martin Kozlowski, 2014

MARTIN KOZLOWSKI
2014

Uma canção para o verão (2014.11)


Hoje regressamos a 2007 e à canção que marcou o início de uma nova etapa no processo de internacionalização global da carreira de Robyn. Na Suécia Konochiwa Bitches foi o single que se seguiu a With Every Heatbeat, a canção com maior impacte entre as que surgiram no alinhamento do álbum a que chamou, muito simplesmente, Robyn. O seu impacte local foi bem discreto face ao que outros dos seus singles tinham obtido.

Mas mesmo assim a canção foi escolhida como cartão de visita internacional para o álbum. E mesmo tendo vivido uma discreta passagem pela tabela de singles no Reino Unido, representou o primeiro passo na apresentação de um álbum que lhe daria maior visibilidade que nunca.



O nome da canção está entretanto associado a algo que transcende este single na obra de Robyn, já que a cantora decidiu chamar Komnoichiwa Records à sua própria editora.

Em conversa:
Michael Cunningham (2014.2)

Continuamos a publicação de uma entrevista com o escritor Michael Cunningham feita a propósito da edição em Portugal do seu mais recente romance, A Rainha da Neve. A entrevista foi originalmente publicada nas páginas do suplemento Q,. do DN.

No seu novo romance o mapa político entre 2004 e 2008, apesar de nos ajudar a definir quem são as personagens, cria sobretudo um cenário temporal para esta história. O que o fez chegar então a estas personagens e que gatilho desencadeou a narrativa? Não foram Bush e Obama...
Não... É difícil dizer o que define o ponto de partida para um romance. Geralmente são várias coisas... Eu estava interessado na ideia de alguém como o Barrett, que é secular, que não tem uma relação particular com a religião e a crença, a ver algo que é inegavelmente sobrenatural.

A tal luz que ele vê uma noite...
A minha mãe era católica. E fez uma escolha interessante. Ela continuou a ser praticante mas não me obrigou a mim nem à minha irmã a irmos nem à missa nem à catequese. Deixou-nos esperar até que fôssemos mais velhos e pudéssemos escolher. E escolhi contra o catolicismo... Mas cresci com o catolicismo em casa. Os mistérios, os misticismos... Aquilo habitava a nossa casa no subúrbio e isso sempre andou na minha mente. E depois há ainda outro ponto de partida, que se foca em volta de Tyler e das drogas, em particular... Eu não tomo aquelas drogas!... A América tem a maior população presa do mundo e na maior parte dos casos é devido a leis incrivelmente severas quanto às drogas. A namorada que guiava o carro quando o namorado fez um negócio com droga, por exemplo... Estava a pensar como nos EUA se vê quem usa drogas como sendo má pessoa. A ideia de que as drogas são coisas que fazem mal, quem as usa é fraco, está a tentar escapar da realidade e terá um final infeliz... O livro não glorifica o uso da heroína ou da cocaína. Mas estou ciente do facto de não haver apenas uma história possível sobre tendências humanas e que há pessoas que tomam drogas para tentar expandir as suas consciências. Há quem use drogas como Tyler o faz. Pessoas que querem ser melhores artistas. Quando leio histórias “diz não!” penso sempre numa Nancy Reagan e na sua forma de ver a guerra às drogas na América. Que tal Cocteau? A relação da humanidade com substâncias que alteram a realidade é mais variada e complexa que apenas fraqueza e loucura. E queria escrever sobre isso.

Quão importante é, além do tempo, estabelecer também o lugar onde uma história acontece? A avenida onde vivem os dois irmãos fica em Brooklyn...
Os lugares são sempre importantes num romance. E eu escrevo sobre Nova Iorque porque vivo em Nova Iorque. Se vivesse em Lisboa o romance aconteceria em Lisboa. Aquele bairro em particular tem a sua importância. Manhattan é muito caro para todos os que não são muito ricos. E os artistas e quem não ganhe muito dinheiro estão a mudar-se para bairros mais afastados. Está a acontecer em várias cidades e não apenas em Nova Iorque. Bushwick é o bairro onde as personagens vivem... E há uns dez anos era um bairro duro. Hoje há ali cafés e galerias de arte, mas não existiriam então quando estas personagens ali viviam. Eu queria que eles vivessem um pouco à margem da sociedade. Bushwick pareceu-me o sítio certo.

Eles mudam-se depois para uma nova casa no East Village... Um upgrade?...
Não é bem a Park Avenue... Mudam-se assim para aquilo a que chamaria o limiar da civilização. Naquele lugar hoje há já alguns restaurantes, mas não quando estariam lá no tempo em que a ação decorre.

O East Village está a mudar? Onde antes estava o CBGB [o clube onde o punk conheceu um dos seus maiores focos em meados dos anos 70] hoje há uma loja de roupa de marca...
É verdade. E isso diz tudo, não é?... Onde o punk nasceu, onde a Patti Smith começou a cantar, agora vendem-se casacos de cabedal a 700 dólares. Mas é um processo estranho o do East Village, que não mudou assim tanto nos últimos anos. O que está a acontecer é que os artistas estão a mudar-se para Brooklyn.

Na sua escrita há sempre uma certa musicalidade. Podemos entender As Horas como um espaço de onde partem variações jazzísticas em torno de Mrs. Dalloway e Virginia Wolf... Aqui tem pela primeira vez alguém a escrever uma canção num livro. E a música materializa-se assim, mais do que nunca, na sua escrita.
Um amigo meu, a quem o livro é dedicado, foi quem me ensinou sobre música. Aprendi assim sobre música com um músico. E uma das coisas que descobri sobre escrever romances é que se se escreve sobre um grande poeta não se faz a sua poesia. Mas quando se escreve sobre um compositor que não é brilhante, então podemos escrever a canção. Porque, como escritor, deixa-se claro que a personagem o que está a fazer não é uma obra de arte.

Imaginou como soaria a canção (de Tyler) quando a escrevia?
Sim, imaginei! E o Billy (o tal meu amigo) ajudou-me a imaginá-la. Mas não a sei cantar. Posso cantarolar para mim mesmo.

Segundo Tyler a noção de paradigma de grande música está entre Mozart e Jimi Hendrix... Por algum motivo especial estes e não outros?
São nomes de dois grandes músicos. Poderia dizer milhares de outros. Mozart e Jimi Hendrix surgiram porque são grandes por razões bem diferentes.

Um outro nome que refere em concreto, e numa mixtape, é Leonard Cohen... Mas chama à mixtape ‘Why Don’t You Just Kill Yourself’...
Sim, é uma piada autobiográfica. Eu trocava mixtapes com um amigo... E gostávamos muito de canções tristes. E tínhamos uma série chamada why don’t you just kill yourself... Quando o meu amigo Mark descobria uma canção triste dizia-me que tinha descoberto algo que me faria saltar da janela.

São referências que ligam assim a ficção à vida de quem a cria?
A escrita tem disso. Cada escritor tem a sua maneira de o fazer, naturalmente. A escrita não é estritamente autobiográfica, mas é claro que usamos experiências pessoais, por vezes de forma indireta.

Uma semana no Museu do Brinquedo (2)


Esta semana andamos entre peças da coleção do Museu do Brinquedo (em Sintra), que encerra as portas dia 31. Hoje olhamos para uma série de brinquedos que se relacionam com imagens e o cinema em particular.

Boris Blank edita antologia
de música feita a pensar no cinema

Um dos dois elementos dos Yello (nome marcante no panorama da música feita com eletrónicas na primeira metade dos anos 80 e talvez o caso mais notável da história da pop made in Suíça), Boris Blank vai editar em setembro uma antologia que junta o seu trabalho para bandas sonoras nunca de facto usadas criadas entre 1977 e 2014. O disco surge em vários formatos, desde o triplo vinil à caixa de dois CDs com um DVD.

Para ouvir: novo tema de Caribou



O novo álbum do projeto Caribou - ou seja, de Dan Snaith - chega no início de outubro. Para ir descobrindo o que nos traz o músico revelou para já este tema.

Para ler: casa de Johnny Cash abre ao público

A pequena casa da família Cash, onde o futuro músico viveu alguns dos seus primeiros anos, foi restaurada e está agora aberta ao público. O projeto de recuperação, que se liga à recuperação de outros elementos do património de Dyess (Arcansas) envolve diretamente a Arkansas State University.

Podem ler aqui um artigo no New York Times sobre a casa.
E aqui podem visitar o seu site oficial.

segunda-feira, Agosto 18, 2014

Annie Lennox em tom nostálgico

Annie Lennox tem um novo álbum, o sexto a solo, a ser lançado em Outubro: chama-se Nostalgia e é uma colecção de versões de canções que a marcaram, em especial das décadas de 1930/40 — entre os temas eleitos, incluem-se Summertime (George Gershwin), September in the Rain (Harry Warren, Al Dubin) e The Nearness of You (Hoagy Carmichael, Ned Washington). Que podemos esperar?... Evoquemos, para já, a versão de A Whiter Shade of Pale, clássico de 1967 dos Procol Harum que Lennox incluiu em Medusa (1995).

O Príncipe foi ao futebol

Porventura inspirado pela frase promocional do jogo Monaco-Lorient — "A poesia nem sempre tem necessidade de palavras" — , o Príncipe Alberto reagiu no final com apenas alguns gestos eloquentes. Ou como a "espontaneidade" da televisão está sempre envolvida, nem que seja por indução, com uma determinada visão do mundo — esta crónica foi publicada na revista "Notícias TV", do Diário de Notícias (15 Agosto), com o título 'O príncipe e os pobres'.

A equipa de futebol do Mónaco, treinada por Leonardo Jardim, começou o campeonato francês com uma derrota, em casa, frente à equipa do Lorient (1-2). No final do jogo, durante uns breves segundos, uma câmara mostrou o Príncipe Alberto a abandonar o seu camarote, abrindo os braços e abanando a cabeça, numa atitude que não pôde deixar de ser lida como de enfado e reprovação.


Curiosas imagens, sem dúvida. Podemos encará-las a partir de três vectores. O primeiro decorre do espírito Big Brother que contaminou todos os registos televisivos, incluindo as linguagens informativas. A visão do Príncipe, sob o efeito de uma poderosa teleobjectiva, nasce de uma intrusão visual enraizada num conceito “jornalístico” que ganhou muitos adeptos: ser uma figura pública não decorre tanto do poder que se exerce ou da função que se desempenha, mas da banal possibilidade de entrar numa qualquer galeria de “apanhados”.
Depois, deparamos com uma componente bem conhecida do universo futebolístico e, no limite, do imaginário político-social: independentemente de funções que possam desempenhar em clubes, muitas personalidades da cena política desenham a sua identidade pública a partir dos mais diversos cruzamentos com o futebol. Escusado será dizer que, em si mesmo, o fenómeno não é “positivo” nem “negativo” — apenas reflecte o peso do futebol na configuração mediática dos poderes políticos.
Finalmente, importa sublinhar o mais óbvio: hoje em dia, o tratamento televisivo do futebol tornou-se inseparável de uma perversa figuração universalista. Dito de outro modo: do mais anónimo espectador (vejam-se os planos das bancadas no início ou nos intervalos dos jogos) ao Príncipe Alberto, todos, ricos e pobres, são figurantes potenciais de uma narrativa a que, literalmente, ninguém escapa. Nesta perspectiva, pode dizer-se que a televisão conseguiu uma proeza inquietante: a de promover o futebol à condição de matriz obrigatória de todas as actividades humanas. Por mim, como espectador fascinado pelo futebol, gostaria de saber o que os políticos pensam do assunto.

Uma canção para o verão (2014.10)


Realizado em 1982 por Russell Mulcahy numa praia de Antigua, o teledisco que acompanhou o tema-título do segundo álbum dos Duran Duran é talvez uma das mais conhecidas celebrações do sol, do calor, das cores do verão (e de um modo de vida que não é coisa para carteiras em contenção) entre as memórias dos primeiros tempos da era do vídeo musical.

O teledisco apresenta os cinco elementos da formação original em várias situações relativamente constrangedoras e toma um iate como presença central para as imagens, como se de um refrão se tratasse. Mais que uma alusão (indireta) ao Rio de Janeiro, a canção é uma celebração da vida na América, espaço que o grupo então começa a explorar.




Rio surgiu como a faixa de abertura para o álbum com o mesmo título que os Duran Duran lançaram na primavera de 1982 (e que os catapultou para um patamar de fama global). A canção surgiria no formato de single na reta final do ano (seria o quarto extraído do alinhamento do álbum) e ainda hoje é uma presença regular no alinhamento dos concertos do grupo.

Novas edições:
Suzanne Vega

“Close-Up Series”
Cooking Vinyl
4 / 5

Entre 2010 e 2012 Suzanne Vega voltou a olhar para a sua obra e levou-a de novo para estúdio, voltando a registar as canções segundo uma lógica de maior contenção instrumental (que não corresponde à noção de dieta acústica com que por vezes são referidas estas regravações). Com todo um corpo de trabalho abordado segundo novas visões, a arrumação das canções fez-se depois por temas, o que garantiu a cada um dos volumes que editou uma variedade nas fontes de origem dos temas (ler álbuns onde originalmente surgiram) e ao conjunto das novas abordagens uma versatilidade formal, os novos arranjos oscilando entre diálogos para voz e guitarra acústica e a presença de ensembles de cordas, aqui e ali com uma discreta presença elétrica. Sob a designação Close-Up Suzanne Vega apresentou assim uma espécie de “songbook” ao qual juntou a capacidade que o tempo dá às coisas, permitindo repensar como as vemos e com elas lidamos. Na essência os reencontros trazem perspetivas que não colidem com as leituras originais, aqui e ali sublinhando um ponto de vista (a coisa só funciona menos bem nos instantes originalmente mais elétricos e electrónicos de 99.9F, revelando as abordagens simplificadas uma perda face às experiências textural e estruturalmente mais invulgares que a cantora apresentara nesse álbum de 1992). Os volumes sucederam-se, apresentando sucessivamente as canções de amor (2010), canções sobre pessoas e lugares (2010), canções sobre estados de alma (2011) e canções sobre a família (2012). A edição, que agora se apresenta sob o título comum Close-Up Series junta aos quatro volumes anteriormente lançados um outro com os temas extra que surgiram nas respetivas edições digitais e um DVD com uma atuação ao vivo (na City Winery, em Nova Iorque) e uma entrevista. O modelo é interessante. E há por aí outros músicos a quem uma abordagem deste género daria bons motivos para novos reencontros com as suas canções.

Uma semana no Museu do Brinquedo (1)


A poucos dias de fechar as suas portas, o Museu do Brinquedo - que até dia 31 podem visitar no edifício em que mora há 26 anos, na Rua Visconde de Monserrate, a dois passos do Palácio da Vila, em Sintra - estará em destaque aqui pelo Sound + Vision.

O encerramento do museu deve-se a motivos financeiros, não podendo a fundação que o detém manter o espaço sob as condições presentes (ver notícia aqui).

Uma das maiores coleções de brinquedos do mundo vê-se assim obrigada a ficar guardada em caixotes, até que novo espaço a possa eventualmente mostrar. Segundo nos avisam no museu, há hipóteses em estudo, não revelando todavia quais, para já... Ao que parece em Lisboa. É de ficar à espera.

Uma coleção como estas será sempre uma potencial referência maior em roteiros turísticos. E, já agora, não seria má ideia juntar a um espólio soberbo melhores condições de exposição (ler mais espaço, melhor distribuição das peças ou até mesmo uma seleção do que se mostra) e algum trabalho museográfico complementar que permita juntar ao que se vê alguma contextualização social, industrial (os materiais usados, as histórias das respetivas fábricas) e de época, assim como jogos de informação em diversos níveis de leitura. A matéria prima, pelo menos, está lá: a coleção é fabulosa.

Começamos a "visita" ao Museu do Brinquedo olhando para alguns carrinhos, motos e carruagens de comboios. E há lá muitos mais para ver...

Em conversa: Michael Cunningham (2014.1)


Iniciamos hoje a publicação de uma entrevista com o escritor Michael Cunningham feita a propósito da edição em Portugal do seu mais recente romance, A Rainha da Neve. A entrevista foi originalmente publicada nas páginas do suplemento Q,. do DN.

Há uns anos disse-me que, como cidadão, faria o possível para que George W. Bush não fosse eleito (foi no ano 2000, numa entrevista publicada no suplemento DNa). Estávamos em inícios do ano 2000. Bush venceria as eleições em novembro...
O que podia fazer era tentar. Nada era garantido...

O início da narrativa que lemos em A Rainha da Neve leva-nos no tempo às vésperas da reeleição de Bush, em 2004... E o candidato republicano vence novamente... A sua incapacidade de mudar então as coisas terá de algum modo ficado à espera para que um dia pudesse escrever sobre este assunto?
É um ponto interessante... Inconscientemente, sim. Nem estava a pensar nisso. Mas cada novo livro é o resultado das experiências que tivemos desde que terminámos o anterior. E sim, penso que o choque e desânimo que senti, como aconteceu com tantos outros americanos, ao ver George W. Bush a ser reeleito ficou ali e surge agora neste novo livro.

Refere-o neste livro como o pior presidente na história dos EUA.
Uma das coisas boas ao ser romancista é que podemos ter personagens a dizer coisas dessas.

O livro termina nas vésperas de algo que pode mudar em 2008, apesar de os dois irmãos estarem a preparar-se para uma vitória McCain/Palin... E não acreditarem num triunfo de Barack Obama. Sobretudo Tyler.
Sim... Tyler é a personagem mais obcecada com a política e está sempre errado. E pareceu-me certo estruturar o livro desta maneira, abrindo na véspera da reeleição de Bush e terminando na véspera da eleição de Barack Obama. Se bem que as personagens não saibam ainda que ele será eleito. Quis acabar aí porque passaram seis anos de presidência Obama, que foram uma experiência contraditória. Por um lado fez coisas espantosamente boas, mas também houve desilusões. É difícil governar qualquer país, sobretudo um país tão grande como os EUA. Eu naturalmente lembro-me da noite da eleição. E estávamos em êxtase. Parecia impossível que o mesmo país que ainda tão recentemente tinha reeleito George W. Bush estava agora a eleger um homem afro-americano, feroz, inteligente e uma força moral. E aquele pareceu-me o lugar ideal para deixar as pessoas neste livro. No limiar de serem invadidos por um grande otimismo.

É uma noite que ficará na sua memória, essa da eleição em 2008?
Sem dúvida. É uma daquelas noites que muitos vamos lembrar. E nunca esquecer. Nos EUA temos memória de muitas eleições presidenciais anteriores que seguiram em direções chocantes. Sou suficientemente velho para me lembrar de ver Ronald Reagan a ganhar. Jimmy Carter foi uma boa surpresa. Clinton foi uma boa surpresa. Mas no meu tempo de vida nunca tinha havido uma surpresa como Barack Obama. A América é um país com problemas enormes de racismo. E a ideia da eleição de um presidente afro-americano é uma razão suficiente para lembrar essa noite para sempre.

E acredita que em 2016 o país vai eleger uma mulher, se Hillary Clinton decidir avançar?
Sim, acredito. Nunca há garantias... Mas acredito que há americanos em número suficiente preparados para eleger uma mulher. Mas é importante ver que Hillary Clinton não é apenas uma mulher: é também Hillary Clinton! As pessoas não vão votar numa mulher, mas numa pessoa que mostrou já por diversas vezes um sentido de Estado incrível, é inteligente, combina diplomacia e força... Creio que a América está preparada para eleger um candidato altamente qualificado que acontece que é uma mulher. E é mais que a América ultrapassar o seu sexismo. É ver as qualificações do candidato.

Imagina o que teria sido uma América McCain ou Romney?
É quase assustador ter de imaginar. Ainda bem que assim não foi.

Mas pensou que isso pudesse acontecer?
A ideia de ter uma vice-presidente Palin faria até um George W. Bush sentir vergonha. É alguém que achava que África era um país. Mas é assustador que alguém como Sarah Palin possa ter chegado tão perto de poder ser eleita.

Como pode um escritor ver a sua voz a chegar à sociedade? Através das personagens dos seus livros?
Acho que isso é o melhor que pode fazer. Parte do que um romance faz é mostrar aos líderes o que é ser um outro ser humano. E quanto mais empáticos formos talvez consigamos que menos crianças mexicanas sejam deportadas, por exemplo... Mas acho que essa é a principal contribuição de um romancista. Mais do que um ativismo político. Os romancistas servem para nos lembrar que cada um é um ser humano. E ninguém deve ser deportado. Ninguém deve ser aniquilado por um drone no dia do seu casamento. Há estudos que saem todos os dias, é verdade. Mas num que saiu recentemente foi mostrado que as pessoas que leem ficção trabalham de uma forma mais empática que as que não o fazem. Isso é interessante. O trabalho do ficcionista é o de nos levar para as mentes de outros. A ficção é a melhor ferramenta para revelar os outros a nós. O escritor de ficção não tem as limitações de um biógrafo... Há tanto que podemos saber de uma pessoa real... Mas não havia limites sobre o que Tolstói podia saber sobre Anna Karenina. Se o escritor de ficção for bom leva-nos até à alma da personagem como nenhum outro escritor pode fazer.

(continua)