quarta-feira, março 04, 2015

Screaming Females, opus 6

Uma banda de uma mulher e dois homens com o nome Screaming Females, eis o que merece atenção. E já há algum tempo: Rose Mountain é o sexto álbum lançado pelo grupo de New Jersey (estrearam-se em 2006 com Baby Teeth), ainda e sempre fiel a uma poética de raiz punk, devidamente configurada na voz agreste, et pour cause, de Marissa Paternoster — eis o teledisco de Hopeless, explorando uma animação deliciosamente primitiva.

terça-feira, março 03, 2015

Passos Coelho = José Sócrates (Parte II)

I. A primeira parte desta novela teve um episódio emblemático há cerca de dois anos e meio. Permito-me sugerir a respectiva evocação, recuando a um texto de 27 de Setembro de 2012: Passos Coelho = José Sócrates.

II. De que falo? De uma possível inocência de José Sócrates ou de uma possível candura de Passos Coelho? Nada disso: o que escrevi naquela altura, bem como o que agora escrevo, não decorre de nenhum juízo moral sobre as pessoas em causa. Aliás, faço questão em repetir que, mesmo que se venha a provar que ambos são responsáveis por crimes terríveis, nada disso rasura o que aqui se discute. Ou seja: a fulanização especulativa da vida política, para mais através da concordância tácita da própria classe política.

III. Este é o país em que os 5 mil euros que parecem manchar a biografia de Passos Coelho dão origem à balbúrdia que se sabe. Por mim, como cidadão eleitor, continuo à espera que os partidos políticos, de direita e esquerda, digam alguma palavra que envolva uma qualquer dúvida, mesmo discreta e pudica, sobre o facto de se ter gasto ligeiramente mais (645 milhões de euros) para fazer dez estádios de futebol para o Euro 2014 — enfim, só estou à espera há cerca de 15 anos... Mas espero também que quando algum político decidir pronunciar-se sobre o assunto não esqueça, já agora, a monstruosidade inútil em que se transformaram alguns desses estádios.

IV. Permito-me, por isso, recordar algumas palavras que aqui escrevi em 2012: A classe política portuguesa parece não compreender que este processo de degradação televisiva da imagem de Passos Coelho, tal como o de José Sócrates, atinge muito para além do partido ou partidos que estão no governo — a sua lógica bélica restringe, dia após dia, o espaço de manobra para o próprio trabalho político de todos.

V. Qual a relação entre esta maneira de (não) fazer política e as taxas de abstenção (elevadíssimas) dos eleitores portugueses? Eis uma questão que a classe política, na sua pusilanimidade global, nunca arriscou formular.

Kenny Wheeler para sempre

Songs for Quintet é o título do derradeiro álbum de Kenny Wheeler, gravado ao longo do mês de Dezembro de 2013, em Londres, nos estúdios de Abbey Road. Figura ímpar da história do jazz, trompetista de uma imaculada serenidade clássica, mas também adepto das tensões do improviso, Wheeler viria a falecer a 18 de Setembro de 2014, contava 84 anos, antes do lançamento desse registo — Songs for Quintet chegou às lojas no passado dia 14 de Janeiro, data em que completaria 85 anos. Um dos temas do álbum pode ser escutada no site da ECM; Entretanto, aqui se evoca Angel Song, do álbum homónimo, de 1996.

Madonna em destaque
quinta-feira às 18.30 na Fnac Chiado
no Sound + Vision Magazine


A edição do novo disco de Madonna, Rebel Heart, é o ponto de partida para o grande destaque da edição deste mês do Sound + Vision Magazine, que decorre na quinta-feira, a partir das 18.30, na Fnac Chiado. Ao novo disco e canções juntamos imagens de outros tempos para olhar uma vez mais para uma obra que há dez anos acompanhamos atentamente por estes lados.

Além de Madonna outros temas do momento vão naturalmente passar por esta edição do magazine que nos fala dos discos, dos filmes e dos livros que vamos, ouvindo, vendo e lendo.

Ver + ouvir:
Bob Dylan, The Night We Called It A Day



E eis que surge um teledisco para um dos temas do belíssimo novo disco de Bob Dylan. A realização é de Nash Edgerton.

Para ouvir: Panda Bear
em remistura por Andy Stott



Um dos temas do mais recente álbum de Panda Bear, em nova leitura por Andy Stott.

Yvone Kane ao espelho

Margarida Cardoso filma um passado colonial assombrado pelas mais inquietantes abstracções. Ao mesmo tempo, é tudo muito concreto, muito nosso — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Fevereiro), com o título 'Jogo de espelhos'.

Estranho filme que é Yvone Kane. Estranho e fascinante. Porquê? Porque a sua estranheza começa numa bizarra naturalidade: não é verdade que nele reconhecemos as marcas das nossas memórias coloniais? Ao mesmo tempo, será que sabemos dizer o que são, e como são, essas memórias? Acima de tudo, será que, para além da linguagem descarnada da diplomacia ou da retórica dos discursos militantes, ainda há espaço para a revelação de personagens singulares, libertas de qualquer facilidade determinista?
A aposta de Margarida Cardoso passa, justamente, pela criação de um leque de personagens, tão cristalinas quanto misteriosas, que não podemos reduzir a meros emblemas da infinita complexidade da história. Rita existe como a mais pura emanação dessa complexidade, a ponto de se inscrever no filme como aquela que pergunta (quem foi Yvone Kane?), ao mesmo tempo que não sabe garantir, nem mesmo a si própria, se as respostas que vai encontrar correspondem a alguma forma de apaziguamento individual ou colectivo. E não é das menores maravilhas deste filme tão depurado que Beatriz Batarda consiga colocar em cena a branda insatisfação de alguém cuja identidade, mesmo no silêncio mais casto, permanece uma ferida em aberto.
Como uma discreta assinatura visual (mas é, sobretudo, um conceito dialéctico do espaço e da usura do tempo), Margarida Cardoso define quase todas as cenas de Yvone Kane a partir da obsessiva presença de janelas que funcionam como espelhos, de espelhos que, momentaneamente, parecem janelas. Como se todos esses vidros fossem, não objectos que aceitam a luz, antes paredes disfarçadas de radiosa transparência. Compreendemos, enfim, o mais difícil: a história resiste sempre aos desejos dos humanos porque todos os cenários são interiores.

segunda-feira, março 02, 2015

Na solidão de Madonna

FOTO: Mert & Marcus
>>> Quando penso na cultura popular agora, não posso deixar de pensar que vivemos numa idade de solidão. Existe essa ilusão de que temos acesso instantâneo a qualquer outro, mas de facto não temos qualquer relação verdadeira.

Madonna
— entrevista a T. Cole Rachel / Pitchfork

domingo, março 01, 2015

Bowie & Björk: a pop no museu

Bela primeira página do Libération para assinalar a abertura da exposição de Björk no MoMA, a par da continuada digressão da mostra 'David Bowie Is'. Um dossier para reflectir esse fenómeno dos nossos dias que é a pop no museu — inclui uma entrevista com Björk, sob o signo de uma pergunta sugestiva: "Como pendurar uma canção na parede?".

sábado, fevereiro 28, 2015

Os olhos grandes de Tim Burton

Num registo porventura mais contido, ou mais clássico, do que em muitos momentos da sua obra, Olhos Grandes leva de novo Tim Burton a uma questão fulcral do seu universo criativo: a identidade privada do artista e a sua relação com os olhares dos outros — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Fevereiro), com o título 'Como Margaret Keane não desistiu de pintar olhos grandes'.

Poderá parecer que estamos a revelar o mistério central do novo filme de Tim Burton, mas esta é, afinal, uma informação disponível no próprio trailer: Olhos Grandes é a história da figura verídica de Margaret Keane (n. 1927), pintora de cujo trabalho o marido Walter Keane (1915-2000) se apropriou, apresentando-se publicamente como autor dos quadros — com figuras de “olhos grandes” — que a sua mulher pintava.
Porventura o mais desconcertante, e também mais sintomático da subtileza de Burton, é que, mesmo conhecendo esse facto, vemos o filme através da persistência de um cruel enigma: afinal, em que momento (ou em que cena) Margaret começa a ser anulada pela impostura de Walter?
Em boa verdade, não parece haver uma resposta segura. Olhos Grandes começa por ser a história de uma despersonalização que Margaret vive e, num certo sentido, alimenta através de uma subserviência que lhe é imposta em nome do decoro conjugal, da harmonia familiar e, enfim, do sucesso comercial. E se mais não houvesse, a subtileza com que Amy Adams sabe compor esse mistura insólita de candura e revolta seria suficiente para reconhecermos que estamos perante um objecto cinematográfico de delicada concepção. Face a ela, Christoph Waltz, no papel do marido, emerge como uma figura de burlesca maldade.
Mesmo não minimizando o rigor e a elegância da mise en scène de Burton, importa não esquecer que estamos perante um projecto indissociável das singularidades de escrita dos respectivos argumentistas: Scott Alexander e Larry Karaszewski. Foram eles que negociaram os direitos de tratamento da história de Margaret Keane, acabando por surgir como parceiros de Burton na produção de Olhos Grandes. Na sua carreira encontramos, aliás, vários títulos “não-alinhados”, quase sempre abordando personagens com histórias de alguma marginalidade social ou emocional: é o caso de Ed Wood (1994), também realizado por Burton, Larry Flynt (1996) e Homem na Lua (1999), ambos de Milos Forman.
Num registo que não apresenta a dimensão espectacular dos seus títulos mais conhecidos, a começar por Alice no País das Maravilhas (2010), Burton reencontra, assim, uma obsessão fulcral do seu universo. A saber: a incompletude de personagens como o cândido herói de Eduardo Mãos de Tesoura (1990) ou o realizador Ed Wood que vivem, por assim dizer, no limbo da sua própria imaginação.
É pena que o impacto de Olhos Grandes tenha ficado limitado pela sua total ausência das nomeações para os Oscars (Amy Adams ganhou o Globo de Ouro de melhor actriz em comédia ou musical). Dir-se-ia que uma certa imagem de marca de Burton — como criador de universos bizarros — não se adequa à contenção poética deste filme. Em última análise, há em Margaret Keane a contagiante energia de alguém que nunca desiste da sua arte, mesmo quando o marido a tenta reduzir a uma desenhadora de rostos de proporções “erradas”.

Leonard Nimoy (1931-2015)


Afastando o anelar do dedo médio, palma da mão para a frente, dizia ao som das palavras “live long and prosper” a saudação que, de origem vulcaniana, ganhou lugar na história da nossa cultura popular. Expressão de um trabalho de composição de uma personagem que interpretou pela primeira vez em 1966 e que acompanhou em diversas etapas e gerações, surgindo mesmo nos dois filmes mais recentes da saga Star Trek, realizados por J.J. Abrams, Leonard Nimoy tornou-se quase indistinto de Spock. É com essa mesma frase, que evoca o papel de uma vida, que muitos hoje dele se despedem em mensagens que começaram há pouco a inundar as redes sociais, desde que chegou a notícia da sua morte, hoje, em sua casa em Bel Air (Califórnia) aos 83 anos, vítima de uma doença pulmonar crónica que o levara de urgência ai hospital há poucos dias.

Não podemos contudo reduzir Leonard Nimoy ao papel de ator e muito menos fechá-lo no universo Star Trek se bem que talvez fosse ele o paradigma maior da ideia que o criador da série Gene Rodenberry, levara pela primeira vez aos ecrãs num episódio-piloto rodado em 1966 nos pequenos estúdios Desilu, ligados à Paramount. Depois da primeira vida de Star Trek surgiu em várias outras séries, de Missão Impossível a Marco Polo. Mas a reativação do franchise com o primeiro filme Star Trek (em 1979, com Robert Wise como realizador) aprofundou a sua relação – e a do mundo inteiro – com a figura de Spock. A carga icónica da personagem era já suficientemente evidente em 1967 quando editou o primeiro dos vários álbuns que gravou. Chamou-lhe Mr Spock’ Music From Outer Space e encetou uma carreira em paralelo que incluiu canções como Highly Illogical (mais uma alusão a Spock) ou The Ballad of Bilbo Baggins. Às canções a discografia de Leonard Nimoy junta ainda álbuns spoken word onde leu As Crónicas Marcianas de Ray Bradbury, A Guerra dos Mundos de H.G. Wells e The Green Hills of Earth de Robert A. Heinlein.



Estas são algumas capas de títulos da obra em disco de Leonard Nimoy.

O texto que aqui apresentamos é um excerto de um obituário que ontem publiquei na Máquina de Escrever.

Podem ler aqui o texto completo.

Julian Cope, 1985



As imagens são de uma atuação realizada um pouco mais tarde, mas evocam uma canção da etapa inicial da carreira a solo de Julian Cope que conheceu edição num EP lançado em finais de fereveriro de 1985. Há precisamente 30 anos.

Depois do fim dos Teardrop Expolodes o vocalista Julian Cope encetou um percurso em nome próprio que deu primeiros passos em disco num primeiro EP a solo lançado em 1983. Em 84 Cope apresentou, separados por poucos meses, os álbuns World Shut Your Mouth e Fried. Este segundo, lançado em novembro, incluia no seu alinhamento este Sunspots, canção que ganharia protagonismo maior pouco depois, ao ser o tema central do Sunspots EP, lançado já em 1985.

Fica aqui a memória de uma das suas grandes canções desta etapa inicial de um percurso que ainda está ativo e, aqui e ali, tendo revelado belos novos momentos a reter.

Para ler: a queda de Madonna nos Brit Awards

Há muitas maneiras para abordar o que aconteceu durante a cerimónia de atribuição dos prémios Brit este ano. Madonna caiu em palco durante a atuação que encerrava a gala, facto que ofuscou mediaticamente tudo o que demais tinha acontecido naquele palco naquela noite. Pelas redes sociais abundaram as reações minimais (e repetitivas). Houve até quem levantasse teorias da conspiração (não entremos nunca por aí). O acontecimento estava nos noticiários todos no dia seguinte. E vale por isso notar não só o que aconteceu e, sobretudo, como anos de experiência em palco fizeram com que uma aparatosa queda não significasse o fim de uma performance. The show must go on, já diz a velha regra do showbiz. Assim foi. E não vamos por isso reduzir a um incidente, resolvido na hora, toda a narrativa sobre um álbum que vem a caminho (se bem que, naturalmente, este episódio fará parte da sua história).

Podem ler aqui a notícia que publiquei na edição de quinta-feira do Expresso Diário sobre este tema.

Sem querer "pregar" ao leitor - e lembrando que o que foi publicado se trata de uma notícia e não um texto de opinião - vale a pena pensar agora, e como de resto o título da notícia desde logo sugere, porque ficou "ofuscado" o que ali mais aconteceu? Será só o mediatismo de Madonna? Ou também a total inconsequência a que chegaram os Brit Awards em 2015?...

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Fernando Alvim (1934 - 2015)

Músico, compositor, figura ímpar da viola, Fernando Alvim faleceu em Lisboa no dia 27 de Fevereiro — contava 80 anos.
A sua imagem na capa do álbum Fados e Canções do Alvim (2011) terá correspondido, para muitas pessoas, a uma descoberta quase absoluta. De facto, essa colecção de 35 temas de sua autoria, interpretados por Carlos do Carmo, Ana Moura, Camané e muitos outros, correspondeu apenas a um dos derradeiros episódios de uma carreira tão discreta quando admirável, acompanhando nomes como Carlos Paredes (com quem manteve uma parceria de 25 anos), António Chainho, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso ou Manuel Freire.
E se é verdade que Alvim fica como uma personalidade fulcral da história do fado, não é menos verdade que havia nele um gosto plural e versátil que o levou, por exemplo, a interessar-se pelo jazz (tocou com músicos do Hot Club) e a bossa nova (que divulgou na década de 60, no programa Nova Onda, da Emissora Nacional). Em 2012, foi agraciado com a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores.

>>> Dança da Aldeia, por Carlos Paredes e Fernando Alvim (Teatro São Luiz, Lisboa, 1992), e Jardim da Saudade, por Ana Moura, do álbum Fados e Canções do Alvim.




>>> Obituário no Diário de Notícias.

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

A ideologia de Christian Grey

A dimensão ideológica de um filme não resultado do facto de poder haver personagens que assumem um discurso... ideológico: importa discutir a visão do mundo que se constrói, globalmente, através de cada narrativa — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Fevereiro), com o título 'Christian Grey ou a ideologia da performance'.

Quando se discute a avalancha mediática, em particular televisiva, que acompanhou o lançamento de As Cinquenta Sombras de Grey não se está necessariamente a fazer juízos moralistas sobre o trabalho deste ou aquele jornalista. O que está em jogo não é a “quantidade” de notícias que se fizeram (muitas delas absolutamente inanes, é um facto). Trata-se, isso sim, de discutir o modo como um objecto sustentado por um marketing tão simplista e agressivo acaba, em muitos casos, por ser apresentado através da linguagem posta a circular pelo próprio marketing.
Há muitas outras maneiras de dizer isto. Eis uma variante justificada pela própria actualidade do mercado: há dias, chegou às salas o prodigioso Vício Intrínseco, de Paul Thomas Anderson, filme que, a partir do romance homónimo de Thomas Pynchon, evoca os fantasmas da década de 1970 através de uma narrativa toda ela marcada por um visão muito crua do sexo e de uma cultura de exaltação do prazer... Pois bem, o leitor poderá corrigir-me se eu estiver enganado, mas não me parece que tenha havido algum noticiário televisivo que lhe tenha dedicado um milésimo do tempo concedido a algemas, chicotes, estreias e ante-estreias de As Cinquenta Sombras de Grey, para mais com as contribuições de exasperante banalidade de “famosos” a quem continua a faltar o bom senso de reconhecerem que não têm nenhuma ideia para partilhar com os outros.
Seria, aliás, interessante que os dispositivos de leitura de determinados filmes fossem também aplicados a As Cinquenta Sombras de Grey. O contraponto, neste caso, pode ser Sniper Americano, de Clint Eastwood. Confesso que me espanta a severidade “política” com que algumas abordagens (emanadas de sectores da esquerda americana) têm condenado o filme pela sua visão da guerra. De facto, o aparato ideológico com que Eastwood aborda a morte em combate, o valor irrisório que pode assumir uma vida e o impossível resgate de qualquer solidão individual é rigorosamente idêntico ao que sustenta o seu sempre mitificado Imperdoável (1992)... Como a mesma visão do mundo suscita paixões tão contraditórias, eis um mistério por esclarecer.
É desconcertante observar como essa severidade “ideológica” se aplica a determinados filmes, enquanto As Cinquenta Sombras de Grey passa, entre os pingos da chuva, como se a única questão pertinente fosse a avaliação métrica das zonas de nudez com que podemos ser gratificados. É mesmo chocante que, num contexto em que tudo se “problematiza”, desde a justiça dos resultados do futebol até aos colarinhos sem gravata de Yanis Varoufakis, pouco ou nada se diga sobre o modo de encenação da personagem de Christian Grey.
Porquê? Porque com ele, e através dele, triunfa a ideologia da pura performance técnica. Christian Grey ficará mesmo como a corporização de um conceito meramente instrumental das actividades humanas, incluindo o sexo, colocado, aliás, exactamente no mesmo plano simbólico da acumulação de riqueza. Ora, não parece que os valores mediáticos dominantes queiram discutir o triunfo desta ideologia anti-humanista. Perante o alarido circundante, podemos até supor que estão empenhados em consagrá-la.

O marketing dos Oscars

Neste mundo saturado de formatações publicitárias, ainda há, apesar de tudo, mecanismos subtis e inteligentes de marketing que não degradam o "produto" nem o espectador. Estes quatro clips encomendados pela Academia de Hollywood à agência 180LA constituem um caso exemplar de gestão de memórias, celebrando a diversidade dos rostos, gestos e emoções que também fazem a história dos Oscars — that's entertainment!