quarta-feira, Outubro 01, 2014

Ver + ouvir:
Robyn + Royksopp, Monument



Teledisco para um dos temas do EP recentemente lançado em conjunto pela dupla norueguesa Royksopp e a cantora sueca Robyn. A realização é assinada por Max Vitali.

Sound + Vision Magazine
hoje às 18.30 na Fnac Chiado


Uma verdadeira multidão de edições em DVD de filmes com mais de 20 anos de vida é o tema central da edição deste mês do Sound + Vision Magazine, que tem lugar mais logo, pelas 18.30, na Fnac Chiado. Entre a série de lançamentos de Ingmar Bergman, o célebre Plein Soleil de René Clement e Sugarland Express, a primeira longa-metragem de Steven Spielberg criada para o grande ecrã, há imagens e temas de conversa.

Além disso passaremos pelas novas edições em disco de Perfume Genius, Tweedy e Lady Gaga com Tony Benett, pelo (novo) álbum ao vivo dos Abba e haverá ainda espaço para uma memória de um disco que faz 30 anos de vida... Logo verão qual.

Novas edições:
Tweedy

“Sukirae”
dBpm Records
3 / 5

Com quase 30 anos de carreira, sobretudo feita entre os Uncle Tupelo e, depois, os Wilco, Jeff Tweedy quase que chegou a lançar, finalmente, um disco a solo que, a princípio, foi pensado como coisa para voz e guitarra acústica, despindo assim as canções à essência de uma relação entre a escrita e a voz que a interpreta. Mas ainda não foi desta. Spencer Tweedy, o seu filho, começou por dar uma ajuda na bateria e em algumas das canções... E na hora de pensar o disco eram já uma banda a dois, para o nome não sendo necessário senão ver o que tinham em comum nos seus documentos: Tweedy. Contando com mais algumas colaborações em estúdio Sukierae não deixa de ser um espaço de expressão muito pessoal da arte de fazer canções (e de através delas assinar pequenos ensaios sobre o universo ao seu redor). Mas entre uma primeira parte (de um extenso alinhamento de 20 temas) animada com um mais evidente fulgor elétrico e uma segunda feita de uma mais tranquila placidez, o álbum é uma imponente coleção de canções de recorte clássico onde são evidentes as marcas de identidade que Jeff Tweedy tem expressado nos espaços onde tem trabalhado. Houve já quem ensaiasse alusões com as dimensões e visões de All Things Must Pass de George Harrisson (sendo que em Low Key não é de todo descabida a procura de eventuais afinidades com a música do ex-Beatle). Sukierae não é exatamente um monumento com a ambição majestática desse que é talvez o melhor álbum a solo de um ex-Beatle. Mas traduz uma vontade em ensaiar a voz (a que canta e a que escreve) para lá do espaço de uma banda sem contudo caminhar muito para lá de uma certa zona de conforto. O alinhamento ganhava contudo com uma seleção mais apertada, a extensão excessiva do corpo de canções representando o maior senão de um álbum a que não faltam belos momentos, mas que ganhava com uma concentração mais aprumada de temas.

Os Radiohead, segundo Steve Reich


Foi hoje editado o álbum Radio Rewrite, de Steve Reich, que apresenta como peça central a primeira gravação dessa obra que nasce de uma abordagem do compositor a Everything in Its Right Place e Jigsaw Falling into Place, duas canções dos Radiohead.

O disco, lançado pela Nonesuch, inclui ainda novas gravações das obras de Steve Reich Electric Counterpoint (1987) e Piano Counterpoint (esta última uma transcrição de Six Pianos). Estas duas obras são respetivamente interpretadas por Johnny Greenwood (dos Radiohead) e Vicky Chow (que integra o coletivo Bang on a Can All-Stars).

O regresso ao mono dos Beatles (parte 1)

Este texto é parte de um artigo originalmente publicado no suplemento Q., do DN, com o título 'Em busca de autenticidade na memória dos Beatles' e apresenta a caixa que junta, em novas edições em vinil, a obra em ‘mono’ que o grupo registou entre 1962 e 1969.
O exercício da memória tem os seus caprichos (e justificações). E contra a massificação de uma memória de dieta, que é tantas vezes veiculada por modelos greatest hits que reduzem o que outrora aconteceu apenas a excertos das obras dos que ultrapassaram as mais altas fasquias da popularidade (quantas vezes confinando a uma ou uma escassa mão-cheia de canções todo um percurso criativo), há quem procure, sob uma outra lógica, uma busca de um mais rigoroso sentido de verdade que a música de outros tempos em si guarda, para que a possamos reencontrar tal e qual a descobriram os ouvidos de quem a escutou à nascença. Na música clássica ganhou fôlego – sobretudo nos anos 90 – uma forma de entender o reencontro com obras de um passado mais remoto (sobretudo nos repertórios barroco e clássico) através de estratégias “de época”, visando muitas vezes não apenas uma utilização de instrumentos da altura, mas também formações de músicos distintas das atuais e até mesmo optando por modelos de direção de orquestra decorrentes de um ponto de vista definido pelo estudo histórico das obras, dos compositores e do seu tempo. A história da música popular conta-se com menos calendários no arquivo, muita da que falamos datando mesmo de um tempo em que as gravações registaram retratos fiéis (segundo a tecnologia disponível, é certo) das épocas em que essas obras surgiram. A evolução da tecnologia ao serviço do som mudou contudo a forma de ouvir música. E obras que foram registadas há 50 anos chegam hoje até nós em suportes que não eram sequer imaginados então. Uma nova caixa dos Beatles pode assim representar uma importante contribuição para a definição definitiva de um novo paradigma na forma de entendermos a música gravada antes da generalização da gravação estereofónica e a liberalização do acesso do grande público a sistemas de alta fidelidade.

As primeiras canções dos Beatles surgiram em disco há pouco mais de 50 anos e a forma como então chegavam às casas de quem as escutava era completamente diferente. A gravação em “mono” (ou seja, monofónica, concentrando o som num único ponto) era – apesar do estéreo ser então há já muito conhecido – o paradigma vigente, não apenas para quem ouvia discos, mas também quem escutava rádio ou via televisão. Um único altifalante, em todos esses aparelhos caseiros, era a fonte de som. E a mistura dos elementos sonoros era pensada então para assim ser arrumada.

Os temas dos Beatles conheceram edição simultânea com misturas em mono e estéreo desde o início da sua discografia, as primeiras sendo então as que correspondiam às maiores solicitações do mercado – era assim a esmagadora maioria dos gira-discos da altura – e, de resto, até aos dias de St. Pepper’s, a mistura em mono era a prioridade maior para os fab four, muitas das misturas em estéreo para os seus discos de então tendo sido feitas muitas vezes praticamente sem a sua presença. Se nos EUA a Capitol (que editava localmente os Beatles) deixou de apostar no mono a partir de 1968 (o que corresponde ao álbum The Beatles, muitas vezes referido como o “álbum branco”), no Reino Unido semelhante política chegou em 1969, o que, na obra do grupo, fez dos álbuns Abbey Road (1969) e Let It Be (1970) peças exclusivamente misturadas em estéreo.

A progressiva transferência da audição de música gravada para aparelhagens estereofónicas – dos sistemas de alta-fidelidade aos pequenos leitores portáteis de cassetes que surgiriam no final dos anos 70 – foi deixando as velhas edições em mono sair de catálogo. As novas reedições em vinil partiam assim das versões em estéreo, o mesmo acontecendo com a chegada do CD, apesar de George Martin ter, no caso dos Beatles, insistido que as versões em Compact Disc dos álbuns Please Please Me, With the Beatles, A Hard Day’s Night e Beatles for Sale deveriam ser feitas a partir dos masters em mono.

Mesmo assim, e com o tempo, aquelas que tinham representado as misturas às quais os próprios Beatles tinham dedicado as suas maiores atenções tinham acabado arredadas do mercado. Eram coisa para colecionadores, que disputavam as velhas cópias originais dos álbuns em vinil. Tudo mudou contudo em 2009. Na sequência de uma profunda campanha de trabalhos sobre os masters originais do arquivo dos Beatles feita por técnicos dos estúdios Abbey Road – onde a esmagadora maioria das gravações do grupo foram feitas – o acervo em mono acabou por revelar memórias esquecidas e, ouvidas as diferenças, inúmeros pontos de vista diferentes que as mais novas gerações desconheciam.

Ao mesmo tempo que era preparada uma remasterização, o mais fiel possível dos originais, da discografia em estéreo – que entretanto se tornara o cânone para a obra dos Beatles –, os técnicos de Abbey Road trataram de igual forma os masters das edições em mono. E ao mercado chegaram também assim (nessa fase apenas em CD) as versões em mono que, mesmo essencialmente dedicadas a colecionadores e admiradores mais dedicados ao conhecimento profundo da obra do grupo, acabaram por abrir um precedente que, entretanto, deu frutos. À caixa de CD The Beatles in Mono seguiram-se The Original Mono Recordings de Bob Dylan (caixa de 2010 com registos entre 1962 e 67) ou The Kinks in Mono (caixa de 2011, em edição limitada, com os álbuns que o grupo lançou entre 1964 e 69). Agora, cinco anos depois dessa edição que semeou um desejo de reencontro de verdades que a era do estéreo esquecera, uma nova caixa dos Beatles aproxima ainda mais do presente a experiência de um reencontro de facto com as memórias originais destes discos em mono, apresentando-os em vinil.

(continua)

Para ouvir: álbum de Vashti Bunyan

O novo álbum de Vashti Bunyan - na verdade é o seu terceiro e surge nove anos após um segundo que interrompeu uma longa ausência - pode ser já escutado via Pitchfork Advance. Boas notícias para interessados na folk e pelos muitos que a descobriram num EP conjunto com os Animal Collective.

Podem ouvir aqui as canções de Heartleap.

Para ler: Björk em disco produzido por Arca

Soube-se hoje que a islandesa Björk vai regressar aos discos e que o seu novo álbum de originais contará com a produção a cargo de Arca, venezuelano que trabalhou já com Kanye West.

Podem ler a notícia do Guardian aqui.

Do realismo ao romanesco

Há também no cinema português um gosto por olhar à sua volta. Sempre houve, na verdade. E Os Gatos Não Têm Vertigens, de António-Pedro Vasconcelos, é mais um exemplo nesse sentido — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 Setembro), com o título 'Romanesco e cinefilia'.

A dificuldade em abordar o quotidiano português é, não poucas vezes, apontada como uma limitação do cinema que se faz no nosso país. Mas a formulação do problema tende quase sempre para um maniqueísmo redutor — de facto, as telenovelas andam a “retratar” esse quotidiano há décadas e não passam de um formato rotineiro, combinando simplismo temático e indigência estética. Seja como for, há uma questão de fundo que importa reconhecer: a vitalidade artística de uma cinematografia passa também (entre muitas outras coisas) por essa vontade de olhar à sua volta.
Desde a sua primeira longa-metragem, Perdido por Cem (1973), António-Pedro Vasconcelos é um cineasta que se tem mantido fiel a tal vontade. E através de histórias que podem ir desde uma desencantada nostalgia política, em Oxalá (1981), porventura o seu filme mais pessoal, até à fria contemplação de alguns mecanismos de corrupção política, em Call Girl (2007).
Os Gatos Não Têm Vertigens é mais um passo na mesma direcção. A meu ver, a sua maior virtude passa, paradoxalmente, pela calculada “inverosimilhança” dramática do respectivo ponto de partida: a insólita aliança de uma viúva (Maria do Céu Guerra) e um jovem à deriva (João Jesus) escapa a qualquer naturalismo típico de telenovela, acabando por desvendar um tecido social que se revela em dorida ebulição.
Há, aqui, um grau de realismo que, em qualquer caso, não pode ser desligado de um obstinado gosto romanesco. E tendo em conta (também) o trabalho de crítico de cinema que António-Pedro Vasconcelos desenvolveu ao longo de muitos anos, creio que não será abusivo considerar que tal romanesco abraça a herança plural de um classicismo simultaneamente europeu e americano. A identidade nacional é, afinal, apenas uma das componentes da paixão cinéfila.

terça-feira, Setembro 30, 2014

Ver + ouvir: Teleman, Mainline



Mais um teledisco para uma das canções do álbum Breakfast, que nos apresentou este ano os Teleman... Já agora podiam fazer filmes para as poucas canções ainda sem imagens, ok?...

Novas edições:
Aphex Twin

“Syro”
Warp
5 / 5

Conta-se que é um regresso após um álbum que, editado em 2001, deixou então o nome Aphex Twin em modo de pausa. Mas Richard D. James, de quem devemos reconhecer o histórico Selected Ambient Works 85-92 como um dos mais marcantes episódios na história da música electrónica, na verdade não fez silêncio, optando antes por lançar discos através de muitos outros heterónimos, nomeadamente assinado-os como AFX, The Tuss ou Caustic Window (sob este último nome tendo surgido este ano a notícia de uma rara prensagem que acabou leiloada a preços de mercado de arte). Syro, novo disco que edita como Aphex Twin é contudo, e de facto, o primeiro disco que nos apresenta sob este nome (central à sua obra) desde Drukqs (2001) e, mesmo não exibindo – como o fizeram outros discos seus editados nos anos 90 – sinais de olhar no gume da linha da frente da composição com electrónicas, representa um dos mais cativantes conjuntos de composições que, sob estas mesmas ferramentas, chegaram a disco nos últimos tempos. O disco – que surge numa altura em que não é segredo que Richard D. James tem um extenso volume de gravações inéditas em arquivo – pode representar uma primeira amostra do trabalho que foi acumulando ao longo dos últimos anos. Por isso mesmo, em vez de procurar uma eventual ordem conceptual, Syro opta antes por apresentar uma coleção de composições que juntam beats e bleeps em construções onde o músico lança memórias sobretudo captadas nos oitentas (particularmente luminosas quando visita o eletro e, pontualmente, um delicioso eletro-funk), ocasionalmente ensaiando diálogos com paisagismos rítmicos definidos pelo drum’n’bass ou assimilações de ensinamentos do techno, assimilando ainda o glitch como janela de comunicação com o presente. O alinhamento encerra ao som do belíssimo Aisatsana, tema dominado por um piano que aceita heranças remotas de um Satie mas nada mais faz senão o aprofundar de um esbatimento de fronteiras entre espaços e géneros musicais que afinal não é surpresa num músico que em tempos pediu um arranjo (para o tema Icct Hedral) a Philip Glass e que já viu a sua música a ser interpretada pela London Sinfonietta (e quem sabe ainda por aí haverá mais surpresas um dia...). Para já, e mesmo sem procurar inventar o próximo passo, a verdade é que entre a mestria na concepção arquitectónica do som (sob um exemplar labor de produção) e a unidade que consegue encontrar entre a versatilidade de ideias aqui ensaiadas, Aphex Twin consegue fazer de Syro o mais entusiasmante disco de música electrónica de 2014 até este momento.

Os meus 100 livros (2)

Joseph Mitchell
'Sou Todo Ouvidos' (1931)

Nova Iorque já deve perdido a conta da quantidade de vezes que foi falada entre histórias reais e narrativas de ficção. Porém, poucos a olharam como o fez Joseph Mitchell (1908-1996) em Sou Todo Ouvidos. Como aqui já em tempos referi, estes são pequenos textos, que nos levam a caminhar por entre as outras faces da cidade, os bares menos falados, os aldrabões, os palcos secundários, as ruas menos iluminadas onde, acima de tudo, escutou histórias.

Jornalista, com parte significativa do seu trabalho publicado na New Yorker, recorda aqui cenários da cidade que descobriu por alturas do crash de 1929 e que viveu e descreveu em textos que publicou nos anos seguintes, alguns deles aqui reunidos. A sua é uma escrita rica em figuras, histórias e imagens, mas sob uma contenção que sabe, com pouco, dizer muito. Porque, dizia ele mesmo, ““não pode haver mais praga para um jornal que um jornalista que se põe a tentar escrever literatura”. Como tem razão!

Autor de O Segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell trabalhou, em início de carreira, nos anos 30, como jornalista para diversos jornais nova-iorquinos. Natural de Iona (na Carolina do Norte), tinha chegado a Manhattan em 1929 com 21 anos, já sob um futuro universitário fracassado pela absoluta inaptidão com a matemática. Salvo os meses em que atravessou o mar, até Leninegrado (hoje São Petesburgo), a bordo de um navio, regressando logo depois, viveu e descobriu Nova Iorque em busca de histórias e suas personagens, que este livro assim retrata. Apesar de, no final do volume, se registarem encontros com George Bernard Shaw, Gene Krupa e algumas mais figuras públicas - a quem Mitchell chamava “moedores de ouvidos” – Sou Todo Ouvidos vive essencialmente de histórias e retratos de anónimos com “uma intimidade velha de anos com a pobreza”.

Outros destaques da sua obra: 
McSorley's Wonderful Saloon (1942)
O Fundo da Baía (1959)
O Segredo de Joe Gould (1960)

Para ouvir: O último disco dos Royksopp

Os noruegueses Royksopp, que recentemente lançaram um disco em conjunto com a cantora sueca Robyn, anunciaram o lançamento de The Inevitable End, um novo álbum que, tudo parece, indica que a carreira em disco do duo colocará assim um ponto final, apesar de terem já revelado que continuarão a lançar música por outros meios.

Podem escutar aqui um dos temas do novo álbum.

Para ler: novo filme de Paul Thomas Anderson

Uma primeiro olhar sobre Inherent Vice, o novo filme de Paul Thomas Anderson, que nasce de uma adaptação do romance homónimo de Thomas Pynchon. Aqui fica um texto publicado no Guardian que apresenta o filme, com o trailer logo a seguir.

Podem ler (e ver) aqui.

segunda-feira, Setembro 29, 2014

Sinais dos tempos (televisivos)

Futebol, meteorologia ou os horrores da Casa dos Segredos: a televisão é um universo normativo que não se reconhece — esta crónica de televisão foi publicada na revista "Notícias TV" (Diário de Notícias), com o título 'Sinais dos tempos'.

1. No final do empate a uma bola entre Manchester City e Chelsea (Benfica TV), os adeptos do Chelsea aplaudiram calorosamente Frank Lampard. Surpresa? Não exactamente. Afinal de contas, ele é uma das lendas vivas do clube e um dos jogadores mais queridos dos adeptos da equipa treinada por José Mourinho. Em todo o caso, importa lembrar que Lampard já não está no Chelsea: mudou-se para os EUA, para o New York City Football Club, tendo regressado por alguns meses a Inglaterra através de um empréstimo ao... Manchester City. Além do mais, convém ainda referir que o Chelsea esteve a ganhar até cinco minutos do fim, tendo o City conseguido empatar através de um golo marcado por... Lampard! A atitude dos adeptos do Chelsea é um exemplo cristalino de fair play [video: comentário de José Mourinho] que, pelo que me foi dado ver, não encontrou ecos muito significativos nas televisões. Não mereceu, pelo menos, as dezenas de repetições com que continuam a ser tratados os “polémicos” lances de cada fim de semana lusitano. Dito de outro modo: os privilégios informativos (?) vão para tudo o que possa alimentar centelhas de conflito no universo do futebol. Bem pelo contrário, qualquer evento que reflicta um entendimento pacifista do futebol e das suas relações humanas é secundarizado, quando não liminarmente ignorado.


2. A generalização de algumas formas de linguagem “especializada” é um bizarro sinal de formatação cultural. O futebol, com os seus golos “contra a corrente do jogo” e outros admiráveis delírios é, nesse aspecto, um manancial de retórica. Mas a meteorolgia não lhe fica atrás: passámos a viver num universo de “alertas” de várias cores, a ponto de o conhecimento ou desconhecimento da aproximação de mau tempo poder ser pretexto para tempestuosos conflitos institucionais.

3. Em a Casa dos Segredos (TVI), diz-se (e está escrito no respectivo site): “Somos um falso casal lésbico”. Quando tudo é falso, tudo é permitido — eis a democracia que importa questionar.

Ver + ouvir:
Tweedy, Low Key



Mais um teledisco para acompanhar o álbum que nos apresenta o projeto Tweedy. Um pequeno filme com humor q/b e um trabalho de construção narrativa, foi rodado em Chicago e conta com cameos de nomes como Michael Shannon, Chance the Rapper, Conan O'Brien, Andy Richter, Mavis Staples, Steve Albini e Glenn Kotche (dos Wilco) entre outros mais.

Novas edições:
Thom Yorke

“Tomorrow’s Modern Boxes”
ed. Autor
4 / 5

A surpresa começa a ganhar peso de norma na hora de lançar álbuns de nomes de relevância maior no panorama atual da música popular. E poucos dias depois de termos visto os U2 a oferecer, via iTunes, um novo álbum de originais a todos os utilizadores desse serviço da Apple, agora, e também sem qualquer anuncio formal prévio, foi a vez de Thom Yorke  ter apresentado um novo disco de originais da noite para o dia. A grande diferença é que o faz usando um método novo: via BitTorrent, mas a troco de um pagamento.
Com o título Tomorrow’s Modern Boxes, o segundo álbum a solo do vocalista dos Radiohead surge oito anos após The Eraser – o seu primeiro disco em nome próprio – e um ano após a experiência no projeto paralelo Atoms For Peace, que lançou em 2013 o álbum Amok. A edição do novo disco convoca contudo memórias do que houve de pioneiro – e desafiante – em In Rainbows, álbum de 2007 dos Radiohead que teve um primeiro lançamento digital (pedindo a cada um que pagasse o que entendesse, prevendo mesmo o preço zero como viável) antes de ter conhecido, mais tarde, uma edição em suportes físicos mais convencionais.
O disco de aprofunda a sua relação com um labor de fino detalhe nas electrónicas e apresenta oito novos temas entre os quais A Brain In a Bottle, a melhor canção de Thom Yorke (a solo ou em grupo) em largos anos. O disco tem nas memórias de Kid A e Amnesiac importantes pontos de referencia para parte do alinhamento e assinala uma vontade em explorar espaços de composição onde voz e texturas desenham linhas que avançam num regime algo líquido, envolvendo-se num corpo de formas que, mesmo aparentemente turvas num primeiro contacto, se revelam afinal mais claras e consequentes que em outros episódios da obra mais recente do músico. Parte do alinhamento traduz, num outro sentido, preocupações de arrumação ditada pelo ritmo, aproximando-se aí de eventuais heranças do trabalho coletivo via Atoms For Peace. 
Num comunicado que emitiu, juntamente com o produtor Nigel Godrich (que há muito trabalha não apenas com os Radiohead mas também nas experiências a solo do vocalista do grupo), Thom Yorke explicou que este modelo de edição discográfica, que usa uma nova versão do BitTorrent, é assumido como uma experiência para avaliar se “as mecânicas do sistema são algo com que o público em geral possa lidar” acrescentando que, se correr bem, “este poderá ser um meio eficaz para devolver algum do comércio através da Internet às pessoas que criam as obras”, permitindo assim encontrar um modelo que permita ao artista “que faz música, jogos ou quaisquer outros conteúdos digitais vendê-los ele mesmo”. A declaração aponta ainda que este sistema “finta” assim os “auto-eleitos guardiões” e lembra que o mecanismo usado “não requer custos de uploading ou arquivo” e que a rede que assim opera “não só permite o tráfego como ela mesma contém os ficheiros”.
O BitTorrent é um dos mais populares protocolos de partilha de ficheiro peer to peer e tornou-se conhecido na década passada em casos de troca de conteúdos pirateados. É reconhecido como um protocolo que torna mais rápidos os downloads de grandes ficheiros uma vez que usa os vários computadores onde estão alojados como fontes onde são colhidos elementos que depois são agrupados e ordenados no computador que os recebe. Não é a primeira vez que músicos usam o sistema, mas ao associar este modelo de distribuição a um pagamento (sem o qual não se acede aos ficheiros) representa uma novidade. E, como se infere pelas palavras de Thom Yorke, uma declaração de esperança numa nova forma de viabilizar não apenas a venda de músico mas de estabelecimento de uma relação mais direta entre quem faz a música e quem a quer escutar.

Apesar da surpresa que surgiu com a chegada do álbum (e o modo de o vender) a verdade é que nas últimas semanas tinham surgido nas redes sociais várias pistas indicando movimentações possíveis em terreno próximo do vocalista dos Radiohead. O próprio Thom Yorke revelara, esta semana, que os Radiohead estão a terminar uma etapa de gravações de um novo álbum. Tomorrow’s Modern Boxes junta-se assim a títulos recentes de David Bowie, Beyoncé ou U2 que usaram também a surpresa em favor de uma capitalização de atenções, contrariando assim modelos clássicos de marketing.

PS. Este texto é uma versão editada e acrescentada de um outro publicado na edição de 29 de setembro do DN

'Something Must Break' vence Queer Lisboa 18


O filme sueco Something Must Break, de Ester Martin Bergsmark venceu o prémio de Melhor Longa Metragem de Ficção, entregue na noite de encerramento do festival, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge.

A lista completa dos prémios é esta:

Longas-Metragens de ficção:
Melhor Longa-Metragem: Something Must Break (Suécia, 2014) de Ester Martin Bergsmark
Menção Honrosa: Atlantida (Argentina, França, 2014) de Inés María Barrionuevo
Melhor Interpretação: Saga Becker, em Something Must Break (Suécia, 2014), de Ester Martin Bergmark, Kostas Nikouli, em Xenia (Greece, France, Belgium, 2014) de Panos H. Koutras, e Angelique Litzenburger em Party Girl (France, 2014,) de Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis.
Prémio do Público: Rosie (Alemanha, Suíça, 2013), de Marcel Gisler

Documentários:
Melhor Documentário: Julia (Alemanha, Lituania, 2013), de J. Jackie Baier
Prémio do Público: São Paulo em Hi-Fi (Brasil, 2013), de Lufe Steffen

Curtas-Metragens:
Melhor Curta-Metragem: Mondial 2010 (Líbano, 2014), de Roy Dib
Melhor Curta-Metragem Portuguesa: Frei Luís de Sousa (Portugal, 2014), de Silly Season
Prémio do Público: Cigano (Portugal, 2013), de David Bonneville

Competição In My Shorts:
Melhor Curta-Metragem: Bonne Espérance (Suíça, 2013), de Kaspar Schiltknecht
Menção Honrosa: Gabrielle (Bélgica, 2013), de Margo Fruitier e Paul Cartron.

Para ler '2001' em 1500 exemplares

Uma das mais atraentes (mas algo inacessíveis) edições em livro deste ano é uma caixa metálica, com quatro volumes, que conta ao mais pequeno detalhe como surgiu o clássico filme 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Limitada a 1500 exemplares (todos eles autografados por Christiane Kubrick), esta edição especial do livro The Making of Stanley Kubrick’s '2oo1: A Space Odyssey', de Piers Bizoni, esteve à venda (para encomenda) ao preço de 750 euros e está já esgotada.

A caixa inclui quatro livros. O primeiro apresenta fotogramas do filme. O segundo mergulha nos bastidores da produção e inclui novas entrevistas com atores, designers e especialistas em efeitos visuais. O terceiro volume é um facsimile do guião. E o quarto apresenta, em versão também facsimilada, as notas de produção.


Podem ler aqui sobre a edição e ver algumas imagens.

Para ver: David Bowie, agora em Chicago

A exposição David Bowie Is, que esteve patente em 2013 no Victoria & Albert Museum, em Londres, tem andado a viajar. E está agora em Chicago (EUA).

Podem ver aqui imagens das salas da exposição e de algumas peças.

domingo, Setembro 28, 2014

Satyajit Ray x 6

Madhabi Mukherjee
CHARULATA (1964)
As reposições em cópias novas de grandes clássicos da história do cinema continuam, felizmente, a marcar presença no mercado português: agora é a vez do mestre indiano Satyajit Ray (1921-1992) — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 Setembro), com o título 'À redescoberta de um clássico da Índia'.

Subitamente, o nome de Satyajit Ray — através da reposição de seis títulos da sua filmografia — está na actualidade do mercado português (desde o dia 25, em Lisboa, no Espaço Nimas). É uma oportunidade de redescoberta de um mestre do cinema indiano que, em boa verdade, as gerações mais jovens não têm tido muitas oportunidades de conhecer.
Por cruel ironia, a sua maior visibilidade pública ocorreu poucas semanas antes do seu falecimento. Foi a 30 de Março de 1992, quando Ray, doente no seu leito, surgiu na 64ª cerimónia dos Oscars através de uma gravação realizada poucos dias antes, em Calcutá, agradecendo o prémio honorário com que a Academia de Hollywood o distinguiu “pela sua visão profundamente humanitária” [video] — viria a falecer poucas semanas mais tarde, a 23 de Abril, contava 70 anos.


Dos filmes agora repostos em cópias novas, cinco deles correspondem à fase de consolidação do universo do realizador, revelado ao mundo através da célebre “Trilogia de Apu” (1955-59). Os dois mais antigos, A Grande Cidade (1963) e Charulata (1964) serão os mais divulgados (tanto mais que ambos lhe valeram prémios de realização no Festival de Berlim), reflectindo a preocupação em analisar o confronto da pulsão amorosa com os valores tradicionais do espaço familiar, sempre com especialíssima atenção às singularidades da paisagem feminina.
Os títulos que se seguem cronologicamente — O Santo (1965), O Cobarde (1965) e O Herói (1966) — ajudam-nos a perceber que a invulgar delicadeza melodramática do olhar de Ray (especialmente sensível em Charulata) não basta para caracterizar o seu trabalho. Há nele uma versatilidade que, não poucas vezes, o leva a explorar os caminhos da comédia social, no limite desmontando os clichés do cinema do seu próprio país.
O Santo coloca em cena a utilização demagógica da religião, através da personagem quase burlesca de um homem que se faz passar por um ente divino, enquanto O Cobarde e O Herói observam de forma metódica, por vezes cáustica, os bastidores da indústria cinematográfica. O Herói, em particular, reflecte uma temática que está longe de ter perdido actualidade: a percepção íntima de um actor/vedeta, levado a reavaliar a distância que separa o sucesso público das atribulações da vida privada.
O Deus Elefante (1979), realizado logo após O Jogador de Xadrez (1977), um dos maiores sucessos internacionais de Ray, ilustra uma dimensão quase picaresca, indissociável de alguns livros de aventuras que escreveu. Trata-se, aliás, da adaptação de um dos seus romances centrados nas actividades do detective Feluda, dir-se-ia uma espécie de Hercule Poirot “à indiana”. A sua investigação em torno do desaparecimento de uma valiosa estatueta do deus Ganesh tem tanto de comédia de costumes como de fábula social.
Outro mestre asiático, o japonês Akira Kurosawa, proferiu um dia uma frase sobre Ray, mil vezes evocada nos mais diversos contextos: “Não ter visto os filmes de Ray é ter vivido no mundo sem nunca ter visto a lua e o sol”. Celebrando a sua universalidade, poderemos dizer que regressaram às salas portuguesas seis planetas da galáxia de Satyajit Ray.

Brigitte Bardot, 80 anos

No dia em que Brigitte Bardot festeja 80 anos — nasceu a 28 de Setembro de 1934, em Paris —, somos levados a recordar imagens emblemáticas como esta, provavelmente da segunda metade da década de 70. Há uma ironia desconcertante em tal memória: foi antes disso, mais precisamente logo após a rodagem de A Vida Alegre de Colinot (1973), de Nina Companeez, que Bardot, aos 39 anos, abandonou a carreira de actriz.
Bardot está ligada a títulos que, pelas mais diversas razões, há muito transcenderam qualquer pitoresco nostálgico da época em que foram produzidos. Ela foi, afinal, a musa de E Deus Criou a Mulher (1956), dirigido pelo seu primeiro marido, Roger Vadim, e também a presença ao mesmo tempo carnal e etérea de O Desprezo (1963), viagem poética pelas seduções e enigmas dos bastidores do cinema, por certo o mais conhecido dos filmes de Jean-Luc Godard [trailer]; além do mais, o seu nome surge associado a fenómenos populares da década de 60 como Viva Maria! (1965), de Louis Malle, ou Shalako (1968), de Edward Dmytryk, em que contracenou, respectivamente, com Jeanne Moreau e Sean Connery.


Ainda assim, a persistência da sua figura decorre de uma verdadeira dimensão de star que, não sendo estranha ao seu trabalho na defesa dos direitos dos animais, envolve um poder muito particular do cinema: o de transfigurar os seus protagonistas em personagens intemporais, maiores que a vida. Será também por isso que, para além dos altos e baixos de uma vida sempre exposta ao labor populista de algum jornalismo, Bardot se pode confessar "sem arrependimentos nem remorsos".

sábado, Setembro 27, 2014

Telediscos dos Pet Shop Boys
e documentário sobre The Gift
no encerramento do Queer Lisboa 18



A 18ª edição do Queer Lisboa chega hoje ao fim com a cerimónia de entrega dos prémios e a exibição do filme brasileiro Flores Raras, de Bruno Barreto, a partir das 21.00 horas na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge.

O dia vai ter contudo mais sessões, duas delas com a música por protagonista e ambas com entrada gratuita (mediante disponibilidade de bilhete, a levantar no cinema São Jorge).

A Sala Montepio vai acolher às 17.00 a presença dos quatro elementos dos The Gift, que ali estarão para apresentar o documentário The Gift: A Single Hand Documentary, de Gonçalo Covacivic, numa sessão que assinala o aproximar da celebração dos 20 anos do nascimento do grupo.

Pelas 18.30 a mesma sala recebe uma sessão de telediscos dos Pet Shop Boys, com comentários feitos pelos dois autores deste blogue.

Em busca da música do século XXI (2)


Este texto é um excerto de um artigo sobre cinco compositores do nosso tempo originalmente publicado no suplemento Q do Diário de Notícias com o título 'Para descobrir a música do século XXI'. Nomes como os de Max Richter, Richard Reed Parry (que integra os Arcade Fire), Johnny Greenwood (dos Radiohead), Bryce Dessner (dos The National) ou Nico Muhly, estão aqui na berlinda.

Max Richter é neste momento o mais representativo deste grupo, a já expressiva expressão da sua obra sublinhando o estatuto que entretanto conquistou. Nele encontramos tanto um herdeiro de tradições clássicas que remontam a Vivaldi, passam por Varèse ou Stockhausen e também pelos minimalistas – Reich, Riley e Glass – como um atento ouvinte dos ensinamentos de um, Brian Eno ou John Foxx.

Nasceu na Alemanha mas cresceu e foi educado no Reino Unido, fazendo uma viagem de descoberta musical que parte do punk, num percurso que pelos estudos o levaram da Universidade de Edimburgo à Royal Academy of Arts, e mais tarde a Florença. “Tive uma educação clássica mas estava totalmente atento ao que acontecia à minha volta no Reino Unido, em inícios dos anos 80”, confessa o compositor (2). Os primeiros concertos que viu foram dos Clash e Kraftwerk, tinha então 14 anos. Todas estas experiências, para si, sempre “flutuaram juntas”.

A sua carreira profissional começou a bordo do coletivo Piano Circus, um grupo que interpretava obras de nomes como Reich, Glass, Pärt ou Eno. Seguiram-se colaborações com os Future Sound of London e Roni Size & Reoprazent, respetivamente em meados dos anos 90 e no ano 2000. Em 2001, fazendo assim soar a alvorada de um novo século, editou em nome próprio Memoryhouse, álbum que este ano foi reeditado (e apresentado ao vivo no Barbican, em Londres). O disco junta a presença de elementos texturais e cénicos criados por electrónicas ao corpo de uma orquestra. Presente e memórias juntavam-se numa música onde os ecos do passado eram traduzidos num patamar presente que olha o futuro. O jornalista Paul Morley (3), num texto que encontramos na caixa antológica Retrospective, defende que “esta Memoryhouse era apenas a mente, a imaginação, o interior do indivíduo” e ali reconhece ecos tanto de Bartók, Satie ou Harold Budd como de Aphex Twin, Burial ou dos Sigur Rós.

Ao discurso de apresentação do disco Richter associou a expressão pós-clássico que, Morley identificou como possível afinidade com o termo pós-rock, “género que inventou um novo tipo de grupos de guitarras infectados pelas experimentações em estúdio, pela invenção electrónica, as abordagens de improvisação” (4). No fundo também ali se cruzavam barreiras. A utilização de excertos de Memoryhouse em cinema – no trailer de To The Wonder de Malick – e em televisão – na série da BBC Auschwitz – The Nazis and the Final Solution – ajudou a dar visibilidade a Richter, numa mesma altura em que o seu trabalho para cinema (5) começava também a conquistar atenções.

Depois de Memoryhouse Max Richter procurou ir ele mesmo para lá de uma noção (potencialmente restritiva) do que essa expressão “pós-clássico” poderia significar. E ao disco fez suceder uma sucessão de peças que – tal como o histórico Glassworks (1982) de Philip Glass – não eram senão composições criadas para o espaço concreto de um disco. Ideia mais próxima de vivências pop que da tradição da música orquestral. Em The Blue Notebooks (2004) juntou palavras de Kafka na voz de Tilda Swinton, em Songs From Before (2006) colocou Robert Wyatt a ler Murakami, em 24 Postcards in Full Colour (2008) propôs uma reflexão de micro-composição a partir da noção de ringtone e em Infra (2010) convocou heranças de Schubert e aprofundou a busca de caminhos pessoais. Estes quatro discos fazem agora a “retrospetiva” (no formato de uma caixa de 4 CD) que assinalam a associação do compositor à editora Deutsche Grammophon.

Contudo, e apesar da presença recorrente das eletrónicas nessas novas composições, a viagem em que Richter então embarcou aprofundou sobretudo a sua relação com a escrita para piano, para ensembles de câmara e para orquestra. Viagem que teria o seu momento maior no volume que assinou para a série Re-Composed, da Deutsche Grammophon, no qual reinventou – recompondo – as Quatro Estações de Vivaldi, obra na qual ensaia uma outra forma de explorar heranças da tradição clássica ocidental. Aí, como explicou ao DN, o que lhe “interessava mais era o texto”. E continuou: “Claro que é possível manipular o áudio de muitas maneiras, com um computador ou em estúdio, mas o que me interessava mesmo era o texto. E para poder trabalhar com isso precisei de reescrever antes de poder gravar. De certa forma esta foi assim uma remistura em papel, uma remistura analógica. Como compositor trabalho muito com música eletrónica, mas a minha preparação original e o meu universo de partida era o da música feita com pontos num papel. Por isso esta perspetiva”.

2 in ‘Biography’, pag 18 do ‘booklet’ da caixa ‘Retrospective’ 
3 um dos rostos da editora ZTT Records, que editou tanto os Frankie Goes to Hollywood ou Anne Pigalle como o compositor Andrew Poppy. 
4 in ‘A New Way To Listen’, de Paul Morley, pág. 14, texto que integra a caixa ‘Retrospective’. 
5 entre outras, Max Richter assinou já as bandas sonoras de filmes como Valsa com Bashir de Ari Folman ou Lore, de Cate Shortland.

sexta-feira, Setembro 26, 2014

Ver + ouvir: Beck, Wah-Wah



O programa de Conan O'Brien dedicou esta semana as suas atenções musicais a memórias da obra de George Harrisson, contando em estúdio com vários convidados. Entre eles Beck, que aqui recorda um tema do álbum All Things Must Pass.

Reedições:
David Bowie

“Sound + Vision”
PLG UK Catalog
4 / 5

Se James Bond nos disse em tempos que só se vive duas vezes, David Bowie mostra-nos que a sua antologia Sound + Vision já soma, pelo menos para já, três vidas. Originalmente lançada em 1989 no formato de três discos (mais um CD-Rom extra, coisa moderna na altura), conheceu segunda versão em 2003 numa caixa maior, com quatro discos e alinhamento a ter em conta alguns episódios (não muitos, de facto) do tempo que entretanto passara. Agora, e num compasso de espera para o lançamento da muito aguardada compilação (tripla) Nothing Has Changed – que inclui um tema novo e duas faixas das sessões do álbum (nunca editado) Toy – eis que entra em cena uma terceira versão da caixa Sound + Vision. Na verdade o que aqui há de novo é apenas uma nova forma de arrumar o mesmo alinhamento da versão lançada há onze anos, sob um grafismo que recorre à mesma fotografia para a capa mas opta por um formato mais próximo das dimensões habituais do CD. Com memórias mais antigas achadas no alinhamento de Space Oddity (1969) – e vale a pena lembrar que a antologia que vem a caminho será a primeira a cruzar esse período posterior a 1969 com alguns momentos da discografia anterior, que remonta a primeiros singles lançados em 1964). Mas mesmo deixando cinco anos de discos de fora, e ignorando o que sucedeu depois de Buddha of Suburbia (1994), apesar de incluir um lado B da fase Earthling (mas com uma versão ao vivo de um tema de 1993), Sound + Vision acaba por ser um dos mais interessantes olhares de conjunto sobre a obra de Bowie, juntando mesmo alguns temas que antes nunca tinham conhecido expressão em CD – nomeadamente duas faixas do EP Baal de 1982, dois lados B até então apenas representados em vinil, uma remistura inédita de Nite Flights (um original dos Walker Brothers) e versões menos habituais em compilações como a gravação do single de 1970 (com Marc Bolan na guitarra) de The Prettiest Star ou Helden (a versão em alemão de Heroes). Musicalmente não acrescenta nada à caixa de 2003. Historicamente fica aquém da visão mais alargada que Nothing Has Changed vai propor. Tem presença acima do que seria desejável (seis temas) da etapa Tin Machine. Mas não deixa de ser uma bela antologia de Bowie.

Queer Lisboa 18 - dia 8


Hoje, penúltimo dia do Queer Lisboa 18, as sessões a apresentar no Cinema São Jorge e Cinemateca Portuguesa são essencialmente centradas em secções não competitivas (apesar de haver ainda exibição de duas longas de ficção e um documentário em competição, assim como duas sessões da secção In My Shorts, dedicada a filmes de escola.

Na Cinemateca passam ainda três filmes de John Waters - Hairspray (15.30), Polyester (19.00) e Pink Flamingos (22.00). Recorde-se que em Polyester haverá distribuição de cartões "odorama", fazendo desta uma sessão de cinema com cheiro... Também na Cinemateca encerra o ciclo dedicado a África com Touki Bouki (19.30).

Entre os títulos fora de competição que passam no S. Jorge ficam aqui três exemplos, acompanhados pelas respetivas sinopses.

Eastern Boys, de Robin Campillo
Eles vêm de todo o leste da Europa: Rússia, Ucrânia, Moldávia. Os mais velhos não parecem ter mais de 25 anos, quanto aos mais novos, não há maneira de adivinhar a sua idade. Eles passam o tempo na Gare du Nord em Paris. Talvez sejam prostitutos. Daniel, um homem discreto nos seus cinquentas tem a atenção virada para um deles, Marek. Com coragem acumulada, ele fala com ele. O jovem aceita visitar Daniel na sua casa no dia seguinte… - 22.00 horas, Sala Manoel de Oliveira

Honeymoon, de Jan Hřebejk
Honeymoon tem lugar nos três dias da festa de casamento de Radim e Tereza. Segredos do passado regressam à vida de Tereza durante o seu próprio casamento, e a festa transforma-se num pesadelo. Tereza já tentara casar antes; e ela está naturalmente hesitante em relação ao actual casamento. Decidiu casar com Radim depois de muita ponderação, tendo vivido com ele durante bastante tempo. O noivo é um tipo amigável que trata Tereza com compreensão e carinho. Todos pensariam que eles eram o casal perfeito… - 17.15 horas, Sala Manoel de Oliveira

Queen Antigone: Three Acts, de Telémachos Alexiou
ma jovem vive com o seu pai gravemente doente e o seu irmão adolescente numa pequena cidade costeira grega. Há já algum tempo que ela deixou de receber o ordenado na loja de moda onde trabalha, há meses que não consegue pagar a assistência médica ao pai e desesperadamente tenta proteger o irmão mais novo de bullying na escola. Ela quer gritar mas não encontra as palavras. Ela quer fugir, mas as pernas entrelaçam-se. Um dia, à procura de cigarros na mochila do irmão, ela encontra a Antígona de Sófocles e, aos poucos, deixa-se identificar com a Heroína. Descontrolada e autodestrutiva, torna-se vítima do seu destino, caminhando o caminho para a sua própria queda trágica e catarse final, com um coro de três rapazes que a conduzem no percurso. - 19.15 horas, Sala 3

Podem ver aqui toda a programação de hoje (com respetivos trailers)

Pink Floyd na 'Blitz' deste mês

O novo disco dos Pink Floyd, juntamente com memórias de um concerto em Portugal e uma história da sua etapa vivida após a saída de Roger Waters (esta última assino eu). Neste número escrevo também sobre o novo disco de Leonard Cohen. E depois há ainda uma reportagem na estrada com a Gisela João, entrevistas com Perfume Genius e B Fachada e histórias de alguns músicos que o cinema já visitou, de Nick Cave e James Brown aos Talking Heads e Jimi Hendrix.

Para ouvir: Trent Reznor e Atticus Ross
revelam música para novo filme de Fincher



A banda sonora do filme Em Parte Incerta representa a terceira colaboração de Trent Reznor e Atticus Ross com David Fincher. Fica aqui um dos momentos que surgirão em disco muito em breve.

Para ler: Paul Morley sobre a relevância
da música clássica no futuro

Num artigo recentemente publicado no Guardian o jornalista Paul Morley descreve a música pop como uma realidade do século passado e aponta azimutes da sua atenção no futuro à música clássica...

Podem ler aqui o artigo.

quinta-feira, Setembro 25, 2014

Ver + ouvir:
Volcano Choir, Tiderays



O projeto Volcano Choir, de Bon Iver, acaba de apresentar um teledisco criado para uma das canções do álbum que foi editado em 2013. Este pequeno filme tem realização de Kyle Buckley e Andi Woodward, e inclui bailarinos do Milwaukee Ballet.

Novas edições:
Perfume Genius

“Too Bright”
Caroline International / Popstock
5 / 5

Há quatro tempos era um rosto com um olho negro, aparentemente esmurrado, aquele que nos encarava quando começávamos a ler sobre um jovem cantautor norte-americano que enfrentava os seus medos para, através de delicadas canções de deliciosa fragilidade, ousar falar-nos de si e do seu mundo. Quatro anos depois, as imagens que acompanham o lançamento de Too Bright, o seu terceiro álbum, revelam a pose de quem, em vez de ser sovado, é agora aquele que dá os murros e aponta o dedo. Não que tenha conquistado todos os patamares na escala da segurança (sendo contudo um facto que editar discos, levar as canções ao palco e falar com muita gente pelo mundo fora terá ajudado), mas o homem que agora nos apresenta este novo (e maravilhoso) conjunto de canções ganhou fôlego para, depois de encarado o mundo, o comentar e criticar. E a verdade é que se está a fazer ouvir. Se Learning (2010) trouxe a surpresa e Put Your Back N2 It (2012) sublinhou que havia ali muito mais que um primeiro punhado de canções, ao chegar ao terceiro álbum que edita sob o nome Perfume Genius, Michael Hadreas confirma em pleno que não só é um dos mais inspirados cantautores do nosso tempo e que conseguiu já inscrever através da sua obra uma personalidade demarcada que dele faz uma voz única e claramente distinta, mas revela-se mais que nunca uma figura de referencia, valendo a sua obra musical e visual como uma das mais importantes contribuições recentes para uma mais plural representação das sexualidades e da identidade de género através da arte. E porque a arte é política, Too Bright acaba assim por ser um dos mais importantes contributos neste mesmo espaço, se bem que sem uma agenda tão focadamente ativista como o fizeram os The Knife no mais recente Shaking The Habitual. Ao apresentar o álbum com canções como Queen (onde há uma intensidade cénica que convoca memórias de um Bowie de finais de 70) ou Grid (que experimenta uma pulsão rítmica como a sua música antes nunca ensaiara), Perfume Genius deixou claro o alargamento de horizontes que este disco propõe, sem que tal implique uma rutura com o espaço da balada em que a voz dialoga quase solitária com o piano, algo que o tema de abertura I Decline assegura assim que se mantém como parte do corpo desta obra em construção. Há contudo entre as canções novos desafios no plano da instrumentação e produção (e a presença de Adrian Utley, dos Portishead, ajudou certamente a assegurar a nitidez de novas formas mais elaboradas e intensas), mantendo-se contudo bem firme uma escrita que convoca memórias e cruza personagens em que a dor e as lutas estão patentes (como nos discos anteriores), desta vez todavia com ira onde antes muitas vezes havia mais murmúrios e uma autoconfiança em busca de vencer assombrações de outros tempos. Liricamente seguro, musicalmente mais ousado e implicando uma relação física mais intensa na interpretação Too Bright é daqueles raros terceiros discos que deixam claro que por aqui há já uma obra e uma clara perspetiva de carreira. Um dos discos do ano, sem qualquer dúvida!

30 segundos de Pink Floyd

Ao que parece, tudo começou numa revisão/reaudição de The Division Bell (1994). Vinte anos depois, os Pink Floyd anunciam, para Novembro, o seu 15º álbum de estúdio. Chamar-se-á The Endless River e, para já, temos direito a 30 segundos... O mínimo que se pode dizer? Soa a Pink Floyd...