quinta-feira, Julho 24, 2014

Ver + ouvir:
Lykke Li, Gunshot



Mais um teledisco para um tema do álbum editado este ano. A realização tem assinatura Fleur & Manu.

Novas edições:
La Roux

"Trouble in Paradise"
Universal
2 / 5

No começo eram um duo. E depois de um promissor single de estreia em 2008, o álbum La Roux foi mesmo uma das mais apetitosas revelações pop de 2009. Mas o tempo passou e um segundo episódio tardava a aparecer. Até que surgiram notícias de problemas de ansiedade e inclusivamente de um desentendimento entre a cantautora Elly Jackson e o produtor Ben Langmaid que terá ditado a sua saída. Agora La Roux é só mesmo Elly Jacskon. E o seu segundo álbum deixa claro que, mesmo com muito ainda em comum, a música procura agora juntar outras demandas. Entre canções como Bulletproof, Quicksand ou I’m Not Your Toy, três dos quatro singles extraídos do alinhamento do álbum de estreia, revelava-se uma escrita sobretudo influenciada pela pop electrónica da alvorada dos anos 80, nas marcas bem características do registo vocal (usando por vezes o falsete) afirmando-se a sonoridade que a fez notar entre os que naquela mesma altura também emergiam como novos talentos sob atenções generalizadas. Ainda com forte presença de Ben Langmaid na escrita, Trouble in Paradise deu-se a conhecer a partir de finais de maio com um primeiro single que cruzava memórias white funk com uma pop ainda visivelmente vitaminada por referências dos oitentas. O resto do alinhamento mostra que é ainda por esses tempos que Elly procura referências, mas desta vez mais perto de uma Grace Jones, umas Bananarama e o apelo do verão e não tanto a synth pop mais tensa de uns OMD ou Eurythmics de que o álbum de estreia estava mais próximo. O sabor fresco da novidade arrefeceu após um silêncio de cinco anos. E até mesmo os muitos prémios (entre eles um Grammy – para Melhor Álbum de Dança - em 2011) e nomeações são já memória distante, cabendo por isso às canções o músculo para tentar levar Elly Jackson de volta ao patamar de aclamação que já conheceu. O novo lote de canções, contudo, não é do mesmo calibre.

PS. Este texto é uma versão editada de um outro publicado na edição de 23 de julho do DN

Quando os símios se revelam afinal...
tão iguais aos seres humanos


A coisa agora chama-se reboot... Que é como quem diz, desligar e começar de novo. E convenhamos que, nos dois exemplos mais significativos em que o “reboot” operou sobre velhos franchises, os resultados foram cinematografica e comercialmente bem sucedidos. Um desses exemplos surgiu no universo Star Trek, do qual os dois mais recentes filmes de J.J. Abrams (que correspondem ao reboot) representam alguns dos melhores episódios da vida da saga no grande ecrã. Em 2011 o mesmo aconteceu com O Planeta dos Macacos (espaço que dez anos antes tinha sido visitado por um dos piores títulos da filmografia de Tim Burton). A ideia foi a de encontrar um início possível para a história. Uma narrativa que ligasse o mundo que conhecemos a um outro, dominado por símios inteligentes. Um começo que, sublinhe-se, rompe com algumas das ideias nas quais assentam tanto o livro de 1963 de Pierre Boulle como o filme de Franklin J. Schaffner, já que no primeiro estamos, na verdade (e basta ler o twist final) num mundo distante perto da estrela Betelgeuse e, no segundo, viajámos a um futuro longínquo.

Em Planeta dos Macacos: A Origem, encontrávamos um mundo presente, no qual é de um projeto científico que procura a cura do Alzheimer que surge um vírus que acaba por gerar o caos (e potenciar a conquista da inteligência, inclusivamente da fala, pelos símios). Guardados em laboratórios e jaulas de jardins zoológicos, alguns deles guardam ressentimentos contra a humanidade. As sementes do ódio, afinal, não são apenas coisa humana.

É nesse ponto que o novo filme apanha a narrativa, acrescentando uma mão-cheia de acontecimentos que não fogem a essa mesma maneira tão humana de pensar a relação com os outros. Planeta dos Macacos: A Revolta regressa a São Francisco, dez anos depois. A humanidade foi praticamente dizimada pelo vírus e a cidade californiana é uma pequena comunidade de sobreviventes com imunidade ao vírus. Com vitaminas de cinema de aventuras, o filme (realizado por Matt Reeves) tem como gancho narrativo a tentativa de reativação de uma barragem que está do outro lado da Golden Gate, em território controlado pelos símios. As suspeitas de parte a parte, os preconceitos (sobretudo os de uma antiga cobaia de laboratório) não ajudam o jogo de pesos entre a guerra e a diplomacia. Quem ganha?

Ao contrário das sequelas que se seguiram ao belíssimo filme de 1968, e longe dos caminhos explorados por Tim Burton em 2001, este segundo título da nova série volta a assentar sobre uma preocupação de uma certa verosimilhança científica. A exploração das afinidades de comportamentos entre humanos e símios são, contudo, a alma que corre pelo tutano de um filme que nos deixa a pensar sobre quem somos.

Para ouvir:
'A Man From The Future' dos Pet Shop Boys
nos Proms, em emissão da BBC

Uma das estreias do ano, sem dúvida: A Man From The Future, uma biografia musical de Alan Turing pelos Pet Shop Boys, estreada no quadro da programação de 2014 dos Proms. É um musical para orquestra, eletrónicas, coro e narração. O programa, apresentado na noite passada no Royal Albert Hall, incluiu ainda a interpretação, pela orquestra, da abertura de Performance, e quatro canções dos Pet Shop Boys, com novos arranjos orquestrais de Angelo Badalamenti, na voz de Chrissie Hynde (sendo que a ela se juntou Neil Tennant em Rent).

Podem ouvir aqui a gravação deste Prom 8, tal e qual a BBC Radio 3 a transmitiu ontem, em direto.

Para ler: Duran Duran processam empresa
que gere o clube de fãs

Nada como fazer jornalismo contado os factos como eles são e não usando títulos para efeito de choque e, depois, a ler, a coisa afinal não é bem assim. Os Duran Duran processaram a companhia que gere o seu clube de fãs. Não o clube de fãs exatamente (que não é mais como os que, nos oitentas, eram mesmo feitos por fãs), mas quem o geria empresarialmente. A notícia dá que pensar sobretudo no que são hoje os clubes de fãs. Não mais um espaço de reunião de gente com uma paixão partilhada, pelos vistos...

Podem ler aqui a notícia, na Spin.

Novo filme de Manoel de Oliveira
passa fora de competição em Veneza


A curta-metragem O Velho do Restelo, de Manoel de Oliveira, seleccionada para passar fora de competição a 71ª edição do Festival de Cinema Veneza, que decorre os dias 27 de agosto e 6 de Setembro de 2014. O elenco inclui os atores Luís Miguel Cintra (Camões), Ricardo Trepa (Dom Quixote), Diogo Dória (Teixeira de Pascoaes) e Mário Barroso (Camilo Castelo Branco). Na equipa técnica surgem Renato Berta na fotografia, Henri Maïkoff no som, Christian Marti na decoração, Adelaide Trêpa no guarda-roupa e Valérie Loiseleux na montagem. O filme é uma produção da O Som e a Fúria em co-produção com a Distribuidora Francesa Epicentre Films.

Segundo nota da produtora, a sinopse fala de "um mergulho livre e sem esperança na História tal qual como a conhecemos, como um sedimento fértil, na memória de Manoel de Oliveira. Oliveira reúne num banco do século XXI Dom Quixote, o poeta Luís Vaz de Camões e os escritores Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco. Juntos, levados pelos movimentos telúricos do pensamento, eles deambulam entre o passado e o presente, derrotas e glórias, vacuidade e alienação, em busca da inacessível estrela".


O filme de Manoel de Oliveira integra a programação da edição 2014 do festival, cuja programação foi anunciada esta manhã. Birdman, o novo filme de Alejandro G. Iñárritu, terá honras de abertura do festival. Thelma Schoonmaker e Frederick Wiseman receberão o Leão de Ouro honorífico pelo trabalho da sua obra.

Vejam aqui a lista dos 21 filmes restaurados que o festival vai apresentar.
Aqui podem ler sobre o filme de Iñárritu.
E aqui sobre os prémios carreira.


Locke, Violette, Omar e Ida

Agata Trzebuchowska, IDA
Quando é que uma personagem fala na primeira pessoa? Ou melhor: num filme, o que significa falar na primeira pessoa? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Julho), com o título 'Histórias na primeira pessoa'.

Vale a pena referir que, no espaço de poucas semanas, foram lançados nas salas portuguesas quatro filmes interessantíssimos, de origens bem diversas, que, para além das suas diferenças temáticas e estéticas, partilham um princípio de identificação: os seus títulos fazem-se com o nome da personagem central.
Assim, Locke (Steven Knight, Grã-Bretanha) desenha o retrato, “em directo”, de um homem que vê desmoronar-se a sua vida conjugal e profissional; Violette (Martin Provost, França) evoca as atribulações emocionais e literárias da escritora Violette Leduc; Omar (Hany Abu-Assad, Palestina) encena a aliança trágica de um jovem palestiniano e um elemento dos serviços secretos israelitas; enfim, Ida (Pawel Pawlikowski) revisita, a partir dos anos 60, as memórias cruéis de uma família de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
Dir-se-ia que o cinema resiste, assim, a qualquer efeito normativo de tratamento das personagens, impedindo-as de se dissiparem em “símbolos” mais ou menos universais que, não poucas vezes, tendem a escamotear as singularidades das histórias individuais. O que, assim, se joga é algo que o imaginário televisivo tende a recalcar, mascarando o labor específico de qualquer linguagem narrativa enquanto linguagem de (e para) uma determinada visão do mundo.
Curiosamente, outro filme recente — Na Terceira Pessoa, de Paul Haggis — desenvolve-se a partir do próprio jogo de espelhos, ambíguo, potencialmente infinito, entre a criação de uma personagem e o modo como nela, e através dela, se exprime a vontade (ou a resistência) do seu criador. O título alude, justamente, ao facto de um escritor, ao escrever histórias “na terceira pessoa”, estar sempre a relançar a presença mais ou menos detectável, mais ou menos consciente, do seu “eu”.
O caso do filme Ida envolve uma perturbação muito particular. Através da sua personagem, interpretada pela magnífica Agata Trzebuchowska, o realizador expõe a memória da aniquilação dos judeus pela máquina de guerra nazi a partir de uma história tão minimalista que, em boa verdade, nem a sua protagonista sabe situar. Em sentido literal: Ida é aquela que quer saber como é que os seus pais foram mortos e, mais do que isso, onde estão as respectivas sepulturas.
O filme de Pawlikowski ilustra uma tendência transversal a várias cinematografias: trata-se de continuar a contar histórias da Segunda Guerra Mundial, mas à margem das matrizes do tradicional “filme de guerra” (outro exemplo será Lore, também um título/personagem, produção de 2012 dirigida pela australiana Cate Shortland). Que tal aconteça através de imagens a preto e branco, eis o que talvez possa ser interpretado como uma dupla prova de resistência: por um lado, importa recusar as facilidades do “naturalismo” mediático do nosso presente; por outro lado, procura-se um realismo seco e primitivo, fiel a uma sensibilidade clássica.

quarta-feira, Julho 23, 2014

James Garner (1928 - 2014)

Figura muito popular do cinema e da televisão americana, o actor James Garner faleceu de causas naturais em sua casa, em Los Angeles, no dia 19 de Julho — contava 86 anos.
A série televisiva Maverick (1957-62), uma variação bem humorada dos clássicos westerns, terá sido a referência mais popular na carreira de Garner, emprestando-lhe a imagem de marca de cowboy elegante, mais ou menos irónico — viria, aliás, a protagonizar a respectiva versão cinematográfica, em 1994, contracenando com Mel Gibson e Jodie Foster, sob a direcção de Richard Donner.


A comédia dramática O Romance de Murphy (1985), de Martin Ritt, valeu-lhe uma nomeação para o Oscar de melhor actor. Num registo ligeiro, aparentemente sem esforço, Garner foi uma encarnação exemplar do herói pragmático ou, em termos de simbologia social, do cidadão médio. Vimo-lo, por exemplo, em sucessos como A Grande Evasão (1963), de John Sturges, Grande Prémio (1966), de John Frankenheimer, Detective em Acção (1969), de Paul Bogart, Victor/Victoria (1982), de Blake Edwards, ou Space Cowboys (2000), de Clint Eastwood. Publicou a autobiografia The Garner Files: A Memoir em 2011.

>>> Obituário no New York Times.

Brody Dalle, para além do cliché

É um cliché do punk: o intérprete vai sendo alvo dos mais diversos detritos, tintas, poeiras e seus derivados... e nasce uma personagem de teledisco. No caso de Brody Dalle, é tudo tão descarnado e genuíno, tão puro e visceral, dir-se-ia que o cliché só surgiu depois dela — começámos por descobrir a versão ao vivo, aqui está Don't Mess With Me em teledisco.

Ver + ouvir:
Spoon, Inside Out



Uma das canções do novo disco. O teledisco junta uma série de imagens de Todd Baxter, montadas e manipuladas por Mau Morgó.

Novas edições:
Herbert

“Part 6”
Accidental
4 / 5

Talvez não viva no centro mediático das atenções, mas Herbert é um nome que a história um dia recordará como uma figura marcante do nosso tempo. O seu trabalho tem procurado transcender fronteiras de género, desafiar formas e linguagens e pela sua discografia (editada sob vários nomes e impossível de dissociar também dos muitos em cujos discos já colaborou) encontramos títulos tão aclamados como o histórico Bodily Functions ou tão (ainda) quase desconhecidos, como sucedeu com a sua intrigante abordagem a Mahler no volume que assinou para a série Re-Composed da Deutsche Grammophon. Em 2013 uma extensa caixa antológica arrumava episódios anteriores da sua obra. Já este ano estreou em Londres a sua primeira ópera – The Crackle, baseada na lenda de Fausto. Agora apresenta um breve mergulho entre heranças do seu próprio passado, ao compor um EP de quatro temas que serve de sequela a uma série que originalmente apresentou nos anos 90. Sob o título Part 6, o novo EP é um pequeno monumento de travo retro, recuperando um relacionamento com ecos da house e de uma construção musical assente numa arquitetura ritmicamente bem estruturada, encontrando as composições espaço para a afirmação não apenas de cenografias que se desenham com colagens de acontecimentos sonoros ou até mesmo revisitando o território da canção, como escutamos em One Two Three, que abre o alinhamento. O disco, que passa ainda por heranças do acid house no tema que encerra o lado B, apresenta ainda dois novos exemplos de um trabalho de construção de estruturas através da utilização de elementos vocais que as electrónicas tomam como peças de jogos a que a composição dá bom destino. Desta vez Herbert não procura inventar nada de novo. Apenas dá quatro passos em terreno que já conhece. Mas aqui mostra como sabe do que fala...

Três meses, três discos (clássica)


Continuando a revisitar o que de melhor surgiu no segundo trimestre de 2014, passamos hoje pelos espaços da música clássica. Na verdade o que temos aqui são até obras do século XXI e um olhar por um nome do século XX que vale a pena conhecer melhor. Do nosso presente chega-nos Retrospective, uma caixa que junta em quatro discos a obra editada de Max Richter entre a sua estreia em Memoryhouse (2001) e a mais recente criação para a série Re-Composed da Deutsche Grammophon. Também bem recente é La Commedia, a mais recente ópera do compositor holandês Louis Andriessen, que resulta de uma colaboração com o cineasta Hal Hartley. Do século XX devemos assinalar um disco onde Gidon Kremer recupera uma série de peças de música de câmara e uma das sinfonias do compositor russo (de berço polaco) Mieczyslaw Weinebrg.

Das edições deste trimestre assinalem-se ainda novas gravações de City Noir, de John Adams e de The Sinking of The Titanic, de Gavin Bryars, assim como a estreia em disco de Richard Reed Parry, músico que muitos conhecerão mais do seu trabalho nos Arcade Fire.

Para ouvir: mais um tema dos Tweedy



Dupla de pai e filho, os Tweedy, apresentam mais um tema do seu álbum de estreia (que chega em setembro). A coisa promete mesmo...

Para ler: I Guerra Mundial
num documentário interativo

A edição online do Guardian apresenta hoje um documentário interativo que nos permite conhecer o que foi o grande conflito militar que ecoldiu há 100 anos.

Podem ler e ver aqui.

'House of Cards':
nos bastidores da política (3)

Esta é a segunda parte de um artigo que publiquei recentemente nas páginas do suplemento Q., do DN, sobre a edição em DVD da série House of Cards. 

Beau Willimon conseguiu transportar a essência de uma ideia de jogos de bastidores do Parlamento Britânico para os espaços do Congresso em Washington D.C. E é aí que centra uma narrativa que tem por centro de gravidade a figura de Frank Underwood (Kevin Spacey) e a ele junta, entre outros, a presença da sua mulher, Claire Underwood (interpretada por Robin Wright, que veste a pele da chefe de uma ONG e que navega nos meandros do poder com a mesma ginástica e saber do marido), uma jornalista (interpretada por Kate Mara e cujo papel revela uma figura-peão manipulada por Frank, que assim tem uma voz garantida nos media), um congressista com um problema de consumo de drogas (Corey Stall) e que acaba também como peão do protagonista ou um lobista (Mahershala Ali) que se comporta em função dos interesses daqueles que representa no momento... Frank é quem joga. Os que o rodeiam são as peças que move num tabuleiro que procura controlar, mesmo sabendo que aqui ou ali poderá perder uma peça ou mesmo batalha... Porque há eventualmente ganhos adiante. O jogo, esse, é quase sempre sujo. Mas apresentado com educação e cortesia. E uma dose valente de sarcasmo, sobretudo nos frequentes momentos em que a personagem interpretada por Kevin Spacey rompe a quarta parede, enfrenta a câmara e, olhos nos olhos com o espectador, comenta para quem está em casa o que sabe que não pode dizer às personagens que tem a seu lado ali mesmo, onde decorre a ação.

Apesar de algumas comparações que foram já traçadas entre a série e memórias de algumas das mais elaboradas tramas de Shakespeare, House of Cards é todavia um produto do presente e um fruto de um tempo em que a cultura televisiva fez dos espaços e dos protagonistas da política figuras e lugares que entram no nosso dia a dia ao premir de um botão.

Numa crítica publicada pela New Yorker em fevereiro de 2013 (quando o Netflix lançou toda a primeira série), Emily Nussbaum comentava que House of Cards era, na essência, “uma meditação sobre a amoralidade que nos diz acima de tudo o que já sabíamos”. As palavras de Barack Obama suavizam contudo o cenário ao estabelecer uma fronteira entre a ficção e a realidade quando nota que a “eficiência” de Underwood não corresponderá eventualmente ao que sucede nos bastidores da política. O sentido de realismo procurado pela série tenta todavia esbater essa linha de fronteira, que chega num tempo de desencanto generalizado dos cidadãos com os políticos (que teve curioso fenómeno de exceção no modo como os americanos aderiram, sobretudo em 2008, à mensagem de “mudança” proclamada pela primeira campanha de Obama). O gosto de cada um pelas teorias de conspiração que defina, agora, como nos podemos relacionar com a Washington D.C. de Frank Underwood. É mesmo assim?...

Herbie Hancock x 3

Greetings, Mr. H.
Os três prodigiosos álbuns que Herbie Hancock gravou para a Warner voltam a estar disponíveis, agora numa compilação intitulada The Warner Bros. Years (1969-1972).
São eles:
FAT ALBERTA ROTUNDA (1969)
Mwandishi (1971)
Crossings (1972)
Era uma época balizada, por assim dizer, pelas experiências do próprio Hancock, atraídas pelos domínios da electrónica — ouça-se a banda sonora que compôs para o filme Blow Up (1966), de Michelangelo Antonioni [trailer] — e a referência tutelar de Bitches Brew (1970), de Miles Davis. Mwandishi, justamente, inauguraria uma trilogia de álbuns intensamente electrónicos, prolongada por Crossings (1972) e encerrada com Sextant (1973), este já com a etiqueta Columbia.


Vale a pena referir que, em 1974, de novo sistematizando um novo paradigma, Miles lançaria o genial Get Up with It, coligindo gravações de 1970-74, e definitivamente afastando-se dos que o acusavam de infidelidade às raízes mais "sérias" do jazz. Eis um tema desse álbum, Red China Blues, num video criado David Duchow, disponível no YouTube.


Os músicos que vieram a partilhar esta aventura de Hancock — Buster Williams (contrabaixo), Billy Hart (bateria), Eddie Henderson (trompete), Julian Priester (trombone) e Bennie Maupin (saxofone) — ficaram mesmo conhecidos como o sexteto Mwandishi, depois um septeto, com a integração de Patrick Gleeson nos sintetizadores, incluindo a respectiva programação. São momentos singulares e fascinantes da história do jazz, desde já no top das antologias lançadas em 2014.
Eis o sexteto Mwandishi num registo da televisão francesa, de 1972, interpretando Sleeping Giant, tema de abertura de Crossings, aqui numa versão de 12 minutos, cerca de metade da duração da faixa original.


>>> Site oficial de Herbie Hancock.

terça-feira, Julho 22, 2014

Stallone & Cª.

Digamos, para simplificar, que a próxima estreia de Os Mercenários 3 (título original: The Expendables 3), marcada para 14 de Agosto, não será um dos acontecimentos mais aguardados do Verão cinematográfico... Os dois primeiros títulos desta saga com que Sylvester Stallone insiste em reciclar os restos de "Rambo & Cª." deixaram as nossas expectativas francamente abaixo de zero (tornando claro que a energia dramática dos tempos do primeiro Rocky, em 1976, já só existe no plano da mais ténue nostalgia). O certo é que os elencos reunidos continuam a surpreender, como se, num misto de desespero e ironia, assistíssemos ao envolvimento solidário de actores que foram perdendo o seu lugar na lista "A" de Hollywood — desta vez, além de Stallone, encontramos Antonio Banderas, Mel Gibson, Harrison Ford e Arnold Schwarzenegger.
Daí que valha a pena registar a curiosa exuberância com que tais figuras se expõem nos cartazes do filme. Dir-se-ia que estamos perante uma colecção de cromos. No duplo sentido que a palavra tende a suscitar: por um lado, apresentando-se como elementos de uma colecção cuja valor de troca o tempo esvaziou; por outro lado, aceitando que a pose "natural" que tentam manter se confunde com a mais cruel das caricaturas.

O apocalipse segundo Terry Gilliam

Terry Gilliam continua a falar de mundos futuros, habitados pelos fantasmas da tecnologia... Ou será apenas o nosso presente? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Julho), com o título 'O museu do apocalipse'.

Qohen Leth, figura central de O Teorema Zero, é um especialista em computadores a viver num mundo construído à imagem do “Big Brother” (não o horror televisivo do nosso presente, entenda-se, mas o futuro que George Orwell consagrou como padrão dos fantasmas de todas as evoluções tecnológicas). E se é verdade que os seus dotes lhe permitem enfrentar as mais delirantes configurações informáticas, não é menos verdade que há nele uma angústia radical: cada vez que o telefone toca, Leth espera que alguém, finalmente, o esclareça sobre... o sentido da vida!
Terry Gilliam
A simpatia que nutrimos pelo realizador de O Teorema Zero talvez nos leve a dizer que estamos perante mais um típico delírio cinematográfico com assinatura de Terry Gilliam (já agora, a meu ver, francamente mais interessante que os seus títulos mais famosos como Brazil ou 12 Macacos, respectivamente de 1985 e 1995). Assim será, mas com uma diferença que importa sublinhar. É uma diferença conceptual: a proliferação de ecrãs, a vida comandada pelos gadgets da tecnologia ou as relações humanas substituídas pelos links virtuais, tudo isso, sendo bizarramente futurista, não deixa de pertencer ao nosso presente.
O modo como o notável Christoph Waltz [foto em cima] compõe a personagem de Leth é revelador: descobrimo-lo como um anti-herói de um mundo cada vez mais desumanizado, ao mesmo tempo exibindo o anacronismo simbólico de um monge medieval obrigado a evoluir numa paisagem em que Deus teima em remeter-se a um pesado silêncio. Aliás, por alguma razão, Gilliam coloca-o a viver num espaço que tem tanto de igreja abandonada pelos fiéis como de museu fundido com a própria ideia de apocalipse. Dito de outro modo: o fulgor visionário de O Teorema Zero nasce da discussão das imagens e dos seus peculiares poderes.

Ver + ouvir:
Royksopp + Robyn, Do it Again



Depois do lyric video, finalmente um teledisco para o tema central do disco criado em colaboração entre os Royksopp e Robyn.

Três meses, três filmes


Continuando a fazer um balanço do segundo trimestre de 2014, hoje passamos pelos ecrãs de cinema. Entre os filmes que vi em sala merecem claro destaque Only Lovers Left Alive, espantoso olhar sobre um casal de outsiders (que escapa em tudo aos clichés dos "filmes de vampiros") por Jim Jarmusch (e belíssimo curto elenco onde se destaca Tilda Swinton) e para Tom na Quinta, filme que mostra como, depois do monumental Lawrence Anyways, Xavier Dolan usou pouco para fazer muito naquela que é a sua melhor longa-metragem já mostrada entre nós. Entre os festivais de cinema merece clara chamada de atenção o espantoso Stand Clear of The Closing Doors, de Sam Fleischner, a história de um rapaz autista perdido no metro de Nova Iorque que foi exibida na edição deste ano do IndieLisboa.

Entre o melhor cinema visto em sala entre abril e junho de 2014 vale a pena apontar ainda títulos como Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson, O Acto de Matar de Joshua Oppenheimer e Mistaken For Strangers, de Tom Beringer. Da colheita do IndieLisboa há que não esquecer ainda Mouton, de Gilles Deroo e Marianne Pistone.

Novas edições:
Marc Almond

“Ten Plagues – A Song Cycle”
SFE
3 / 5

Se há algo a esperar sempre na obra de Marc Almond é um gosto pelo inesperado. E por muito que o associemos à memória da pop electrónica dos Soft Cell ou ao registo da torch song em que criou alguns dos seus temas mais marcantes, a sua discografia é um espaço de invulgar variedade para um autor, sendo frequentes as ocasiões em que abordou temas de outros ou assinou parcerias criativas que alargaram os horizontes dos seus espaços musicais. De colaborações com Gene Pitney, Bronski Beat, PJ Proby ou Foetus a incursões pelas obras de Jacques Brel, Charles Aznavour ou do trovador russo Vadim Kozin, Almond sempre procurou contrariar uma rotulagem fácil da sua personalidade e obra. Este ano, ao mesmo tempo que apresenta um novo disco de originais em estúdio avança com mais duas parcerias que o transportam para lá das fronteiras do universo pop mais canónico. Uma dessas parcerias emergiu há já algumas semanas sob o título The Tyburn Tree, disco cujo protagonismo partilha com John Harle. Agora, e três anos depois de assinar um ciclo de canções ao lado de Michael Cashmore, leva a disco um outro ciclo originalmente estreado em 2011 em Edimburgo. Trata-se de Ten Plagues, ciclo para voz e piano com libreto de Mark Ravenhill e música de Conor Mitchell. O ciclo surgiu depois de Almond ter visto Mother Clap’s Molly House de Ravenhill em 2001, do entendimento entre os dois tendo nascido um novo libreto sobre a grande peste que assolou Londres em 1665 mas que juntou entre as suas fontes de inspiração o ensaio de Susan Sontag Aids and It’s Metaphors. Mitchell adaptou o texto a um formato de ciclo de canções que, dramatizadas, surgiram em palco protagonizadas pelo próprio Almond. Apesar de estarmos musicalmente longe dos terrenos da canção pop a que ligamos muitos episódios da obra do cantor, na verdade desde o início da sua obra a solo que mantém uma relação regular com programas para voz e piano. Aqui todavia sem uma visita a formas luminosas nem êxitos, antes procurando pelo negrume da música e o dramatismo da interpretação o estabelecer de pontes entre as memórias do século XVII e a proximidade da morte com que ele, como tantos outros, viveram quando, sobretudo nos anos 80, a sida começou a ceifar vidas.

Para ver: o trailer de 'The Imitation Game'


Filme sobre a figura de Alan Turing (matemático britânico a quem devemos passos significativos na história dos computadores e sobre quem, amanhã, os Pet Shop Boys apresentam um obra musical em Londres), The Imitation Game chegou a ser um dos títulos de topo na lista dos argumentos por filmar... Com realização do norueguês Morton Tyldum e protagonizado por Benedict Cumberbatch, o filme vai abrir em outubro o Festival de Londres, antes de começar a chegar às salas comerciais, o que deverá acontecer a partir de meados de novembro.

O trailer do filme acaba de ser apresentado. Podem vê-lo aqui.

E aqui um texto na BBC sobre a sua estreia no Festival de Londres.

'House of Cards':
nos bastidores da política (2)


Esta é a segunda parte de um artigo que publiquei recentemente nas páginas do suplemento Q., do DN, sobre a edição em DVD da série House of Cards. 

Se em House of Cards o poder está na mão dos democratas (norte-americanos), na origem esta foi uma ideia nascia em solo conservador. E no Reino Unido. House of Cards surgiu em 1989 como um livro de ficção assinado por Michael Dobbs, figura influente no Partido Conservador Britânico nos tempos de Margaret Thatcher e, mais tarde, elemento da direção do partido quando este esteve sob a chefia de John Major. Dobbs criou um romance político em volta da figura de um elemento da Câmara dos Comuns, deputado a quem era atribuída a tarefa de garantir que os seus colegas não só não faltassem às votações como votassem depois de acordo com as instruções do líder. A House of Cards seguiu-se To Play the King (1992) e The Final Cut (1994), trilogia que inspirou diretamente a criação de três séries televisivas produzidas pela BBC, com o ator Ian Richardson no papel protagonista de Francis Urquhart (que, por movimentações de bastidores, muitas delas envolvendo jogadas menos limpas, chega a primeiro-ministro), numa trama sinistra e que em nada se compara ao humor de Yes, Minister, outro exemplo histórico da presença do mundo político numa produção da BBC.

A adaptação britânica de House of Cards estreou-se na BBC em finais de 1990, a dois dias da escolha de um novo líder do Partido Conservador e, na sede de campanha de John Major (que seria o eleito), tudo parou para ver o episódio. No ar, com considerável aplauso da crítica, entre novembro e dezembro de 1990, a primeira série House of Cards conheceria continuação em novas épocas de produção que corresponderiam aos restantes livros de Dobbs, surgindo a adaptação de To Play the King em quatro episódios originalmente apresentados pela BBC em 1993 e The Final Cut em novo conjunto de quatro episódios estreados em 1995. A realização das duas primeiras séries foi assinada por Paul Seed, cabendo a Mike Varady a terceira. Já as figuras centrais do elenco cruzaram toda a narrativa.

Mais que os três romances de Dobbs, foram os episódios das três séries da BBC que cativaram a atenção de David Fincher, que as descobriu por alturas da rodagem de O Estranho Caso de Benjamin Button (2008). O interesse não partiu apenas da construção da narrativa mas também, como explicou ao HitFix em janeiro de 2013, de uma reflexão sobre as possibilidades que a ficção televisiva trazem ao desenvolvimento das personagens de uma forma que a duração (mais reduzida) de um filme não permite fazer. Ele mesmo ali acrescenta que há já algum tempo que vinha a notar que alguma da melhor escrita para atores estava a ser feita na ficção televisiva e que ele mesmo procurava algo para fazer em televisão. Talvez dessa procura tenha nascido também um interesse pela escrita de Aaron Sorkin, que acabaria por assinar o argumento de A Rede Social (2010), um dos mais bem escritos dos títulos da filmografia do realizador.

Quando David Fincher “descobre” House of Cards já os direitos da série tinham sido adquiridos pela Media Rights Capital, que procurava uma estação televisiva interessada em produzir uma adaptação americana desta ideia com berço britânico. A resposta com a maior licitação veio da Netflix, uma companhia fundada em 1997 e especializada em distribuição via DVD (enviado diretamente para casa dos subscritores) e entretanto com cada vez maior expressão online que pretendia lançar a sua própria produção. Já com David Fincher a bordo, a versão americana de House of Cards começou por procurar uma figura com experiência política que, tal como Dobbs no Reino Unido, conferisse à escrita um sentido de realismo e um conhecimento dos lugares onde decorre a ação. E encontraram o parceiro em Beau Willimon, que tinha já trabalhado no staff de Chuck Schummer (senador por Nova Iorque), Howard Dean (governador do estado de Vermont) e Hillary Clinton, todos eles do Partido Democrata. O núcleo duro de House of Cards encontrou a peça que faltava ao chamar Kevin Spacey, ator que assumiria o papel protagonista mas também um lugar na equipa de produção.

Além do conceito inovador de distribuição – o Netflix disponibilizou todos os episódios de cada uma das duas épocas já apresentadas sempre de umas vez só, cabendo aos canais mais “convencionais” um modelo de apresentação mais “clássico” ao ritmo de um episódio semanal –, House of Cards nasceu com um conceito criativo aberto à presença de um conjunto de vários realizadores. Na primeira época, a David Fincher, que assinou os dois primeiros episódios, juntaram-se James Foley (autor de Glengarry Glen Ross), Joel Schumacher (que assinou alguns filmes Batman nos anos 90), Charles McDougall (com experiência em The Office), Carl Franklin (que realizou episódios de Roma ou The Pacific) e Allen Coulter (que trabalhou em Os Sopranos). A segunda época a estes acrescentaria ainda Jodie Foster (atriz também com experiência na realização), John Coles (que trabalhou em Os Homens do Presidente), Robin Wright (a atriz que veste a pele da mulher de Frank Underwood, na sua estreia na realização), com Fincher desta vez apenas envolvido na produção.

(continua)

Para ler: colecionadores de discos de 78 rpm

O New York Times apresenta um livro que explora um espaço muito específico do colecionismo de discos: os 78 rotações. Trata-se de Do Not Sell It At Any Price, com o subtítulo The Wild, Obsessive Hunt for the World’s Rarest 78 rpm Records, assinado por Amanda Petrusich. O artigo junta ainda um outro título sobre colecionismo de vinil: Dust & Grooves, Adventures in Record Collecting, de Elion Paz.

Podem ler aqui o artigo.

segunda-feira, Julho 21, 2014

Masculino/feminino por Jenny Lewis

No seu tom intimista, pontuado por derivações suavemente folk, Jenny Lewis está a lançar o terceiro álbum a solo: The Voyager [disponível, para audição, na NPR]. Enfim, a solidão é relativa, já que o produtor de quase todos os temas é Ryan Adams, não faltando a colaboração do habitual Johnathan Rice e até, no tema Just One of the Guys, a presença de Beck. Esta canção, justamente, está tratada através de um magnífico teledisco que funciona como um belo exercício de ironia sobre as barreiras masculino/feminino — com a colaboração preciosa de três atrizes: Brie Larson (que vimos em Temporário 12), Anne Hathaway e Kristen Stewart.


>>> Site oficial de Jenny Lewis.

A máscara de Cristiano Ronaldo

A. Evitemos o comodismo hipócrita: não faz sentido reprovar o mais recente gesto de Cristiano Ronaldo no Instagram — a publicação de uma imagem sua, com uma máscara de tratamento estético facial — como se fosse a manifestação de uma qualquer excepção.

B. Em boa verdade, ele surge apenas como a ilustração de uma regra que o imaginário dos "famosos" consagrou. A saber: ser "famoso" é também promover uma visão caricata da intimidade. Porquê caricata? Por duas razões muito lineares: ou a intimidade é vivida como um circo anedótico de intermináveis formas de exposição — e é isso que todos os dias nos querem impingir; ou, então, a intimidade não pode deixar de ser aquilo que, por definição, não se expõe — e esse valor está, também todos os dias, ameaçado pelas formas de estupidez "informativa" que o espaço mediático acolhe e potencia.

C. Nada disto seria uma questão relevante se este tipo de "mensagens" não fosse, afinal, matéria automática de todo um conceito (dominante) de "comunicação" — é ver como a máscara de Ronaldo se espalhou, em poucos minutos, como um verdadeiro vírus informático. O que está em causa não é a pele sob a máscara, até porque, neste universo, se evita lidar com as singularidades ontológicas dos corpos. O que está em causa é, isso sim, esse aparato de "informação" que tende a reduzir a vida vivida a uma histeria de imagens alimentadas por um "eu" prisioneiro dos media, obrigatoriamente exuberante na sua pueril felicidade.

Monty Python em directo


* MONTY PYTHON LIVE (MOSTLY)
> UCI / El Corte Ingles — 20 Julho, 19h00

J. L.: Podemos perguntar: afinal, que foi exactamente o espectáculo ao vivo dos Monty Python? Um fabuloso evento que, na O2 Arena, em Londres, soube revisitar e recriar toda uma nobre tradição do entertainment que, sendo eminentemente teatral, passa tanto por Shakespeare como pelo cinema de Powell/Pressburger? Um exemplar show televisivo, realizado com a eficácia muito british de quem, de facto, sabe mostrar a vivência específica de um palco? Ou ainda, por obra e graça da tecnologia que passou a permitir (já há alguns anos...) transmissões directas para salas de todo o mundo, um evento também cinematográfico, de uma nova e contagiante dimensão? As respostas são, todas elas, afirmativas: os Monty Python fizeram-nos sentir que o seu "velho" humor, metodicamente surreal e escatológico, cruel e poético, possui a sofisticação necessária e suficiente para, como agora se diz, mudar de plataforma e manter-se fiel à sua energia primitiva. Além do mais, reduzindo a pó todos os conceitos de stand-up que confundem as mais requintadas exigências do espectáculo com a acumulação de anedotas brejeiras...

N. G.: Numa altura em que surgem novos comediantes como cogumelos pelos campos, nada como ver como é a coisa verdadeiramente boa, inteligente e bem feita. Foram uma escola. Uma referência que estruturou uma nova maneira de fazer humor, aliando a força do nonsense e um sentido crítico sobre o mundo ao seu redor com um conhecimento profundo das heranças do teatro musical. Ajudaram a inventar uma nova forma de fazer humor na televisão, conseguiram depois encontrar um modo de transpor essa visão para o cinema e criaram descendências. Em 2014 despedem-se. E depois de uma sucessão de datas (sempre esgotadas) na O2 Arena, em Londres, a noite de ontem levou-os a salas de cinema do mundo inteiro. Se o feliz (e tecnicamente bem sucedido) modelo de "transmissão" seria só por si interessante fonte de reflexão - na medida em que liberaliza o acesso aos eventos, lançando um novo debate entre o que acontece "ao vivo" e a "experiência pela presença" - o espetáculo em si evidencia que, antes de terem criado uma linguagem que fez história na TV, havia as tais heranças que ali assimilavam. E foi do domínio dessas mesmas heranças, da canção, da dança, da mise-en-scène, que viveu uma noite absolutamente memorável. Sketches e animações vintage foram recriadas entre novos momentos e sem travão à pontual improvisação ou gargalhada incondicional (o sketch do papagaio morto, entre John Cleese e Michael Palin, foi mesmo um dos momentos da noite, com breve janela de crítica sobre o panorama dos media no Reino Unido do presente). Juntamente com alguns convidados - de Eddie Izzard a Stephen Hawking (presente em vídeo e também na sala) - os cinco Monty Python (que não deixaram de, discretamente, homenagear a memória do sexto) despedem-se da melhor forma. E ao fim da noite, depois de nos ecrãs se ler "Monty Python (1969-2014)", acenam, muito ao seu jeito, o seu último adeus, em grandes letras no mesmo ecrã sobre o palco: "Piss off"... 

PS. O leitor Miguel Botelho contactou-nos, especificando que o que acontece durante o sketch do Papagaio não é exatamente uma crítica ao panorama dos media no Reino Unido, mas uma ideia com foco muito mais específico. O que "Palin e Cleese fazem, de facto, é insultar o crítico teatral do Daily Mail, Quentin Letts, em 'revanche' pela crítica demolidora que Letts publicou sobre o show", escreveu no email que nos enviou e que agradecemos. Aqui podem ler a crítica publicada no Daily Mail.  

Três meses, três discos (pop/rock)


Depois da relativa dieta que vivemos nos três primeiros meses de 2014, o segundo trimestre do ano foi farto em grandes edições discográficas. E a ter de destacar três, apontaria desde logo In Conflict, álbum de Owen Pallett no qual o músico canadiano alarga horizontes e integra as eletrónicas concebendo um disco que representa o seu melhor momento até à data. Depois teremos de passar pelo belíssimo World Peace Is None Of Your Business, o primeiro álbum de inéditos que Morrissey grava depois de editada a autobriografia (lançada internacionalmente em 2013 e com edição local prevista para o fim do ano). E ainda Someday World, magnífico exemplo de domínio sobre a canção pop por Brian Eno, devidamente acompanhado por Karl Hyde, dos Underworld.

A lista dos bons discos da colheita pop/rock internacional deste trimestre não pode contudo deixar de referir o álbum ao vivo dos LCD Soundystem (apenas disponível em lançamento digital e em vinil) e os novos discos de nomes como os de Tori Amos, Eels, Fujyia & Myiagi, Silva ou os Teleman.

'House of Cards':
Nos bastidores da política (1)


Esta é a primeira parte de um artigo que publiquei recentemente nas páginas do suplemento Q., do DN, sobre a edição em DVD da série House of Cards. 

Um entre os mais entusiastas dos seguidores de House of Cards é alguém que, ao contrário do protagonista Frank Underwood, conhece de facto (e bem) os recantos da Casa Branca e da própria Sala Oval. Chama-se Barack Obama e, quando os episódios da segunda época estavam a caminho de ser apresentados, pediu aos produtores que o deixassem ver a série por antecipação. E na altura, com o humor que lhe é conhecido, terá comentado: “Era bom que as coisas fossem assim tão impiedosamente eficientes”... E acrescentou que, ao ver a personagem interpretada por Kevin Spacey, deu por si a pensar: “Este tipo consegue que as coisas aconteçam”... Palavras que, nas entrelinhas, ecoam os momentos difíceis que o Presidente dos EUA viveu não apenas desde que o Congresso tem maioria republicana, mas até antes das mid-terms [eleições intercalares] de 2010, quando os números de representantes lhe eram favoráveis nas duas câmaras do Congresso.

A série é a mais recente de uma linhagem de ficções televisivas de grande produção que tomam o espaço político contemporâneo norte-americano como pano de fundo e tutano para a evolução de histórias e personagens que se movem nos meandros do poder, porém com características distintas de Os Homens do Presidente ou, sobretudo, Newsroom, duas criações de Aaron Sorkin a segunda procurarando mesmo uma ligação mais próxima de factos reais.

A produção televisiva recente descobriu com Os Homens do Presidente um filão que Sorkin ali soube explorar numa série que, ao longo de sete épocas, revelou o que seria o pulsar do coração de uma Administração democrática (curiosamente num tempo em que, salvo nos dois primeiros anos de produção, a Casa Branca era ocupada por George W. Bush). A série – que tinha a ‘west wing’ (a ala executiva) da Casa Branca como centro da ação – terminou em 2006 com a eleição de um presidente latino, sucessor do protagonista Bartlett (um grande papel de Martin Sheen), antecipando assim em dois anos a eleição “real” do primeiro presidente de uma minoria étnica norte-americana.

Aaron Sorkin regressaria à política norte-americana como matéria-prima para uma outra série (ainda em produção) estreada em 2012, também na HBO. Desta vez com um republicano como protagonista – o jornalista Will MacAvoy (interpretado por Jeff Daniels) –, The Newsroom tem em muitos dos seus episódios acontecimentos reais tomados como ponto de partida para em seu redor criar cenas do quotidiano de uma redação televisiva (e incursões pelos bastidores das vidas de quem nela trabalha). O protagonista corresponde a um espaço político conservador mas crítico das visões mais extremadas do Tea Party, representando a série uma reflexão sobre não apenas o jornalismo mas também as mudanças recentes do mapa político norte-americano.

Se a estas duas séries criadas por Aaron Sorkin juntarmos a comédia Veep (da HBO, sobre uma vice-presidente desinformada e impreparada para o cargo) e Boss (produção da Starz, sobre os bastidores de uma grande autarquia) ou os telefilmes, realizados por Jay Roach para a HBO, Recount (2008) – sobre o caso de recontagem dos votos na Florida em 2000, que acabaria por dar a vitória a George W. Bush – ou Game Change (2012) – sobre a figura de Sarah Palin, com a atriz Julianne Moore no papel principal –, ficamos com uma ideia clara de como o mundo político norte-americano encontrou na produção de ficção um espaço de reflexão que não deixa de ser uma extensão do interesse pelos meandros da política que a mesma televisão veicula nos espaços informativos.

House of Cards é contudo uma ideia mais ousada e diferente. Toma como tempo e espaço de ação a chegada à Casa Branca de um novo presidente eleito pelo Partido Democrata, mas foca atenções na figura do líder da maioria no Congresso, Frank Underwood (um dos maiores papéis da vida de Kevin Spacey), a quem não é entregue a supostamente prometida pasta de Secretário de Estado... Situação que, narrativamente, será o motor para uma vingança que, episódio atrás de episódio, mostrará como este usa o poder a seu favor, desde a forma como manipula uma jornalista ao modo como estabelece um jogo seguro de aliados, subalternos e inimigos que faz mover no tabuleiro dos acontecimentos.

(continua)

Para ver: Pitchfork Music Festival em 'streaming'

O Pitchfork Music Festival promove um modelo de 'streaming' em direto de alguns dos concertos que terão lugar no Union Park, em Chicago.

Podem acompanhar a partir de aqui.

Uma revista com 140 emoções

Saíu com data de Maio (por altura do Festival de Cannes): o nº 700 dos Cahiers du Cinéma é uma muito especial e contagiante antologia de depoimentos de 140 cineastas de todo o mundo. Não exactamente sobre a sua experiência profissional. E também não solicitando as sempre apetecíveis profecias (para onde vai o cinema?...). Antes regressando a uma espécie de estado anterior à própria consciência do cinema como trabalho ou expressão artística, solicitando a cada um que evocasse uma emoção cinematográfica primordial, fundadora e insubstituível. Como escreve Stéphane Delorme na apresentação da edição, foi-se impondo o desejo de "que cada convidado contasse uma emoção de cinema, um momento que o assombrasse, de modo a que este nº 700 se parecesse com um caderno de emoções íntimas, uma grande tapeçaria ou um conjunto de imagens, um filme sonhado."
Vale a pena ler — e ver os muitos fotogramas que acompanham os textos. Aqui fica o momento citado por Martin Scorsese: os minutos finais de Citizen Kane/O Mundo a Seus Pés (1941), de Orson Welles, em que o espectador fica a conhecer a origem da palavra "Rosebud", pronunciada por Kane/Welles na cena de abertura. Aos que, eventualmente, não conheçam o filme, aconselha-se a passar à frente, sugerindo, já agora, que comecem pelo princípio — e descubram a sua emoção.

domingo, Julho 20, 2014

Mike Weis ou a arte de caminhar

Mike Weis, percussionista, tem o essencial da sua actividade ligado ao conjunto Zelienople, de Chicago. O seu álbum a solo, Don’t Know, Just Walk, foi gerado por uma revelação chocante, ocorrida em 2013: a de que sofria de um cancro da próstata. Dito de outro modo: esta música, de uma só vez secreta e cristalina, foi gerada num clima de ambígua reconfiguração pessoal — "Costumava pensar que a música era a minha fuga à realidade, agora penso que é uma fuga para a realidade."
Eis um pequeno filme, realizado por Donald Prokop, sobre os primeiros minutos do tema The Temple Bell Stops [em baixo: o som integral do álbum]. Ou como a energia para continuar a caminhar, expressa no título do disco, envolve a arte de procurar o coração das emoções.



Televisão, passado e futuro

O tempo, esse mistério que a televisão insiste em tratar como coisa transparente... Afinal, que medidas tem o tempo televisivo? — esta crónica foi publicada na revista "Notícias TV", do Diário de Notícias (18 Julho), com o título 'Sem passado nem futuro'.

1. A partir do dia 19 de Julho (até 24 de Agosto), o canal franco-alemão Arte propõe uma programação especial de Verão. Chama-se “Summer of the 90s” (porquê o título inglês?...) e, como a designação sugere, envolve as mais diversas memórias da década de 1990, desde os modelos de espectáculo aos valores e comportamentos. Há, aqui, uma lógica perversa que importa referir e sopesar, para além da questão mais simplista de saber se os programas serão “bons” ou “maus”, mesmo se, por certo, podemos apostar na qualidade e quantidade dos materiais de arquivo do Arte. Precisamente, o que está em causa é a banalização da própria noção de “arquivo”, a ponto de se organizar um enorme painel de memórias sobre eventos protagonizados não por gerações passadas, não ocorridos durante a Revolução Francesa ou nas cavernas da pré-história, mas convocando referências que têm vinte anos (ou menos). A opção diz bem da profunda crise conceptual que afecta o espaço televisivo: por um lado, esse espaço vive assombrado pela fixação pueril nos acontecimentos “em tempo real”, a ponto de quase todas as estéticas de informação divinizarem o “directo” como ridícula instância de comunicação (“temos lá uma câmara e um repórter que vos vai repetir exactamente o mesmo que dissemos aqui no estúdio...”); por outro lado, dir-se-ia que tudo aquilo que aconteceu há mais de um mês pode ser objecto de impulsos arquivistas mais ou menos mecânicos, obrigatoriamente “nostálgicos”. Consequência principal: em televisão, o tempo deixou de ter medida e espessura, não passando de um gadget para fazer dossiers.

2. Explorando o modelo consagrado pela Netflix, a Amazon prepara-se para disponibilizar num mesmo dia (em Setembro, nos EUA) todos os dez episódios da sua produção Transparent (série dirigida por Jill Solloway, com Jeffrey Tambor). O futuro do consumo televisivo parece, assim, cada vez mais dominado pela instantaneidade da Internet, cada vez menos dependente dos rituais clássicos do tempo... televisivo.

Evocar Dante em pleno século XXI


O cruzamento entre os espaços do cinema e da ópera, que nos anos mais recentes passou por experiências como as que ligaram a música de Philip Glass ao histórico La Belle et la Bête de Jean Cocteau ou uniram os esforços de Steve Reich e Beryl Korot em Three Tales, conhece mais uma importante edição em disco. Trata-se de La Commedia, ópera do compositor holandês Louis Andriessen que é um trabalho conjunto de música e imagem coassinado com o cineasta Hal Hartley.

Tendo como ponto de partida a Divina Comédia de Dante, juntando ainda outros textos de outros autores como o teólogo alemão do século XVI Sebastian Brant ou o dramaturgo holandês do século XVII Joost van den Vondel, a ópera de Andriessen (que a Nonesuch agora lança no formato de duplo CD com um DVD como extra), La Commedia é, musicalmente, um trabalho de uma visão rara, concentrando um mundo de referências e experiências que passaram já por outras obras do compositor mas que aqui alcançam um patamar de espantosa síntese. De ecos do minimalismo e do jazz, de memórias da música antiga a espaços do musical da Broadway, juntando ainda a presença da assimilação pessoal de escolas da segunda metade do século XX na qual foi formado – e escute-se a Parte IV da obra, com o subtítulo The Garden of Earthly Delights para saborear de forma bem evidente tão coesa e pessoal manifestação de diversidade -, Louis Andriessen (que conta neste momento 75 anos) assinala aqui uma importante contribuição para a construção (em progresso em várias frentes) do que possa ser uma música do século XXI.

Importante contribuição para o atestar da vitalidade da ópera como forma viva da música do nosso tempo – quadro que além de Andriessen junta figuras como Glass, Adès, Adams, Saariaho, Golijov, Pinho Vargas, Albarn ou os The Knife, entre outros – La Commedia (que teve estreia mundial em palco em 2008) conhece primeira gravação em disco numa produção da holandess De Nationale Opera, contando com os ensembles Asko e Schönberg, dirigidos por Reinbert de Leeuw, com as vozes solistas de Claron McFadden (Beatrice), Cristina Zavalloni (Dante), Jeroen Willems (Lucifer/Cacciaguida) e Marcel Beekman (Casella) e ainda o coro Kinderkoor De Kickers, dirigido por Jan Maarten Koeman.

Monty Python, em direto num grande ecrã


É hoje que se despedem. E é hoje que, em direto, os podemos ver em 25 salas de cinema entre Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro, Braga, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Rio Tinto, Viseu, Torres Vedras, Odivelas, Oeiras, Almada, Montijo e Tavira. O último espetáculo da residência que os Monty Python realizaram ao longo dos últimos dias na O2 Arena, em Londres, representa sem dúvida um dos episódios maiores da história dos palcos em 2014.

Nuno Sousa, diretor de operações da UCI Portugal (que se associa a esta transmissão), fala aqui sobre esta aposta na sua programação e enquadra-a num conjunto de transmissões que ali vão continuar a acontecer.

A transmissão do espetáculo dos Monty Python prevê algum extra?
De momento está apenas planeado a transmissão live do evento concentrando todas as atenções nas surpresas que os Monty Python reservaram para a noite que será a última apresentação deste espetáculo. Ainda assim, aproveitando a oportunidade a UCI estreou esta semana, em exclusivo, o novo filme do Terry Guilliam, The Zero Theorem

Tem havido outro tipo de transmissões para os ecrãs das salas de cinema. Como tem evoluído a adesão do público a este tipo de eventos que não correspondem a sessões “tradicionais” de cinema?
A UCI tem projetado com muito sucesso os espetáculos do Ballet Bolshoi, do Teatro Alla Scalla de Milão e da Royal Opera House. Estamos a falar de médias de 200 espectadores por sessão, o que é francamente bom e coloca Lisboa com uma das melhores médias de espectadores na Europa neste tipo de transmissões em salas de cinema. As novas temporadas, 2014 - 2015 de todos eles estão já asseguradas, muitos dos espetáculos com transmissão em direto. E estamos neste momento a negociar direitos de outros espetáculos que estejam disponíveis. Conseguir estar em direto com eventos únicos como este dos Monty Python é algo que queremos continuar a fazer! 

Este tipo de programas – como o dos Monty Python – enquadram-se naturalmente no que é a estratégia de exibição das vossas salas ou representa, como as sessões de bailado e ópera, uma agenda alternativa pontual? 
É estratégia da UCI proporcionar ao espectadores conteúdos alternativos ao cinema, nunca esquecendo um programação cinematográfica de qualidade, e aproveitando as nossas capacidades de projeção digital. E não apenas Temporadas Clássicas, como já fazemos, mas também concertos, eventos desportivos, apresentações únicas a que o espectador português não teria fisicamente acesso.


Um teaser do que nos espera mais logo, a partir das 19.00 nas salas que vão assegurar a transmissão em direto para Portugal deste derradeiro espetáculo dos Monty Python.

O amor (moderno) segundo Bowie


Modern Love, o terceiro single extraído do alinhamento do álbum Let’s Dance chegou em tempo de velocidade de cruzeiro da Serious Moonlight Tour, a digressão com a qual um David Bowie de nova imagem então se apresentou (o teledisco que acompanhou o lançamento do single resultava precisamente de imagens captadas durante um dos concertos da digressão, mais concretamente em Filadélfia). O próprio lado B do single não era senão um registo ao vivo da mesma canção.

Recentemente a canção ganhou nova vida ao surgir numa das sequências mais marcantes do belíssimo Frances Ha, de Noah Baumbach.