segunda-feira, agosto 31, 2015

Oliver Sacks (1933 - 2015)

Neurologista inglês, famoso pelos livros em que abordou histórias dos seus pacientes, Oliver Sacks faleceu em Nova Iorque, a 30 de Agosto, vítima de melanoma — contava 82 anos.
O facto de ter transformado muitos casos que acompanhou em obras literárias conferiu-lhe uma dimensão, e também uma popularidade, muito para além do seu domínio de especialização. O cinema constitui um eco fundamental do seu trabalho, nomeadamente através da adaptação do livro Awakenings (1973), transformado em filme em 1990, com Robert De Niro e Robin Williams sob a direcção de Penny Marshall — foi lançado entre nós como Despertares. Já em 2015, editara a autobiografia On the Move - A Life.

>>> A intervenção de Oliver Sacks nas TED Talks.


>>> Obituário no New York Times.

O futebol contra a língua portuguesa

REMBRANDT
Auto-retrato
1630
As agressões contra a língua portuguesa continuam a proliferar no espaço tele-futebolístico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 Agosto), com o título 'Contra a língua portuguesa'.

1. A violência contra a língua portuguesa vinda da área televisiva do futebol é cada vez mais chocante. Escusado será repetir que não se trata de penalizar os erros de construção ou concordância que se cometem naturalmente, em especial na tensão dos directos. Não é esse o problema. O problema é a normalização de lamentáveis atentados à riqueza do nosso falar.

2. Como é possível que, em debates sobre futebol ou transmissões de jogos, haja cada vez mais vozes que aplicam o infinito dos verbos como se fosse uma matriz gramatical para todas as situações? “Dizer que a equipa vai começar o jogo em 4x3x3...” Como é possível que tal monstruosidade tenha ganho estatuto de norma? “Lembrar que se disputa outro jogo importante...” Dentro das televisões, já ninguém escuta? Pior um pouco: já ninguém se escuta?

3. E que dizer do ridículo anglicismo que leva a generalizar a tradução do “you” inglês por “tu”?... “Se jogas com três defesas, tens de organizar o resto da equipa...” Mais do que isso: em nome de quê se anda a traduzir a palavra espanhola “ilusión” por “ilusão”? “Temos a ilusão de poder ganhar o jogo...” Como? Ainda ninguém reparou que, muitas vezes, a palavra significa “esperança”, “expectativa”, “forte desejo”?

4. Um dias destes, algures na televisão, assistiremos a um debate muito sério sobre a dimensão histórica, social e cultural da língua portuguesa. E não tenhamos dúvidas: se alguém fizer notar que há protagonistas do futebol televisivo que estão a destruí-la, haverá sempre um moderador atento para lembrar que “não é isso que estamos a discutir”...

5. Na televisão inglesa, José Mourinho fala inglês. Na televisão espanhola, Cristiano Ronaldo fala espanhol. Na televisão portuguesa, Julen Lopetegui fala... espanhol. São factos que nada nos dizem sobre os méritos dos respectivos protagonistas. Em todo o caso, são bastante reveladores dos valores que (não) prevalecem no nosso espaço audiovisual.

Ver e ouvir segundo Pascal Niggenkemper

FOTO: Natasha Lébedeva
Poderá parecer uma desqualificação, mas é antes uma apaixonada valorização que está em jogo no primeiro registo a solo do contrabaixista germano-francês, sediado em Nova Iorque, Pascal Niggenkemper. Ou seja: quando escutamos os magníficos contrastes do seu contrabaixo, somos impelidos a redefinir o instrumento como um objecto que está muito para além da sua sonoridade "oficial", por assim dizer oscilando entre os mistérios do violino e a contundência da bateria, passando pelo magnanimidade do piano — 'Look with Thine Ears', edição com chancela Clean Feed, é uma apoteose de transfigurações que, em boa verdade, se podem escutar como compassos de uma longa frase de introspecção musical. Em direcção a quê? Pois bem, aproximando-se, e aproximando-nos, desse "ver com as orelhas" que está no título que Niggenkemper foi buscar ao Rei Lear:

GLOUCESTER
I do understand, by touch.

LEAR
What, are you crazy? You don’t need eyes to see how the world works. Look with your ears [texto original: Look with thine ears]. Look how the judge yells at a simple thief. Listen. But mix them up, have them switch places, and do you think you’d be able to tell which one is which? Have you seen a farmer’s dog bark at a beggar?

Na tradução portuguesa do Dr. Domingos Ramos (Lello & Irmão, Porto, 1988):

GLOUCESTER
Vejo-o, porque o sinto.

LEAR
Pois quê? estais doido? Um homem pode ver sem olhos como vai o mundo. Olhai com as vossas orelhas: vedes como aquele juiz se zanga com este ratoneiro? Prestai atenção: trocai os lugares e depois adivinhai qual é o juiz e qual é o ratoneiro. Tendes visto um cão de quinta ladrar a um mendigo?

Eis, justamente, a faixa 1 que dá o título ao álbum:


Nas magníficas notas de apresentação do disco, Stuart Broomer evoca a herança do Free Jazz (1961), de Ornette Coleman. E não é caso para menos: dir-se-ia que a duplicidade que Coleman colocou em cena, com dois quartetos, cada um para um dos canais do stereo — os contrabaixistas foram Scott LaFaro e Charlie Haden — se prolonga, aqui, através da múltipla "esquizofrenia" do contrabaixo, num labor tão radicalmente concreto que se revela capaz de tocar as fronteiras da mais fina abstracção. Um exemplo mais, para ver com as orelhas bem abertas: o apoteótico This Shall Not Be Revoked; logo a seguir, um registo de Niggenkemper, em 2009, em ambiente de trio, com Robin Verheyen (saxofone) e Tyshawn Sorey (bateria).



domingo, agosto 30, 2015

Elogio de T. S. Spivet (1/2)

Apesar de chegar às salas portuguesas quase dois anos passados sobre o seu lançamento em França, O Jovem Prodígio T. S. Spivet é um dos grandes acontecimentos do Verão cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Agosto), com o título 'Jean-Pierre Jeunet celebra os prodígios da imaginação infantil'.

É bem verdade que, para o melhor ou para o pior, o Verão cinematográfico continua a ser dominado pelo lançamento das grandes máquinas de Hollywood. Ao mesmo tempo, o panorama das novidades surge sempre marcado por contrastes mais ou menos desconcertantes. Assim acontece, agora, com O Jovem Prodígio T. S. Spivet [estreia: 27 Agosto], dirigido por Jean-Pierre Jeunet a partir do “best-seller” de Reif Larsen, entre nós publicado com o título As Obras-Primas de T. S. Spivet (ed. Presença).
Uma aventura épica de uma criança de 10 anos, uma produção sofisticada aplicando os mais modernos recursos digitais, enfim, um objecto pensado para a dimensão espectacular dos ecrãs das grandes salas — dir-se-ia, precisamente, uma produção de um estúdio americano visando o período de férias. Mas não: para além de ser assinado por um cineasta francês, O Jovem Prodígio T. S. Spivet resulta de uma aliança de entidades da França, Canadá e Austrália.
A história da sua difusão daria, por certo, para fazer um outro filme, igualmente épico, porventura não tão radioso. Isto porque se passaram quase dois anos desde a primeira apresentação pública do filme no Festival de San Sebastián. O Jovem Prodígio T. S. Spivet teria a sua estreia francesa em Outubro de 2013, aparentemente antecipando um lançamento americano antes do final desse ano, de modo a poder concorrer às nomeações para os Oscars.
Nada disso aconteceu. O filme foi sendo estreado em diversos países, na Europa e na Ásia, mas o distribuidor americano, a Weinstein Company, dos irmãos Harvey e Bob Weinstein, quis alterar a montagem. Jeunet não abdicou das suas opções, tanto mais que, por contrato, garantira o controle da montagem final (final cut). Na prática, abriu-se um conflito cujo desenlace ocorreu há poucas semanas, a 31 de Julho, quando O Jovem Prodígio T. S. Spivet surgiu, finalmente, nas salas dos EUA (Portugal é, assim, um dos derradeiros países a poder descobri-lo).
Em entrevistas recentes, Jeunet reafirmou que nunca abdicaria da sua montagem, ao mesmo tempo não poupando os Weinsteins — segundo ele, o filme só foi mesmo lançado nos EUA para cumprir a cláusula contratual que obriga a uma passagem por um determinado número de salas para depois ser integrado nas listas de programação da Netflix.
Conflitos à parte, seria uma pena que o trabalho de Jeunet fosse reduzido às peripécias dos bastidores industriais. De facto, estamos perante um dos poucos projectos recentes que procura recuperar uma certa dimensão encantada e encantatória do cinema, sem passar pelas sagas “obrigatórias” de super-heróis ou personagens mais ou menos excêntricas de galáxias distantes.
T. S. Spivet (Kyle Catlett, brilhante) é o nome do mais heterodoxo dos aventureiros. Porque é uma criança, mas sobretudo porque o seu génio científico o leva a “entrar” no mundo dos adultos de forma bizarra. Os trabalhos científicos que envia para diversas instituições e competições (sem esclarecer a sua idade) acabam por lhe valer uma chamada do Instituto Smithsonian: a sua prodigiosa invenção, uma “máquina de movimento perpétuo”, foi distinguida com um prémio altamente prestigiado, sendo convocado para discursar na respectiva cerimónia de entrega... Daí a sua odisseia: como viajar das paisagens rurais do estado de Montana, onde vive com os pais, até Washington?
Jeunet celebra a prodigiosa imaginação do seu pequeno herói, não apenas no plano científico, mas na sua aplicação a todas as circunstâncias da vida. Esta é, de facto, uma fábula sobre a arte de viver através daquilo que apetece chamar imaginação científica: por um lado, aplicando o conhecimento racional para compreender o mundo; por outro lado, mostrando a máxima disponibilidade para adequar esse conhecimento aos detalhes mais enigmáticos, sem dúvida mais poéticos, dos destinos individuais.
Para além das peculiaridades de cada um dos seus filmes, Jeunet sempre foi um apaixonado por estas histórias que envolvem os limites, físicos ou espirituais, da experiência humana. Bastará lembrar os títulos que dirigiu em associação com Marc Caro — Delicatessen (1991) e A Cidade das Crianças Perdidas (1995) —, sem esquecer, já a solo, essa enorme sucesso internacional que foi O Fabuloso Destino de Amélie (2001). Para ele, o cinema está colado às emoções vividas por cada um, mas é sempre maior que a vida.

A herança viva do 11 de Setembro

A 9/11 Day é uma organização de solidariedade inspirada no espírito de comunhão e partilha gerado em reacção aos atentados do 11 de Setembro. Recentemente, divulgou um notável video centrado naqueles que nasceram no dia 11 de Setembro de 2001 — eis um exemplo admirável de uma estratégia enraizada no universo publicitário (com chancela da agência Grey), recusando a facilidade dos clichés ou das efemérides, celebrando antes a herança viva das pessoas e das suas ideias.

sábado, agosto 29, 2015

David Bowie + Mick Jagger
30 anos depois...



A ideia inicial era a de fazerem um dueto no Live Aid. Bowie em Londres. Jagger em Filadélfia. Mas a ligação por satélite obrigava a um segundo de delay. E para não obrigar nenhum deles a fazer um playback, optaram por um plano B. Bowie estava então a gravar em Abbey Road as canções para a banda sonora de Absolute Beginners e, numa tarde, Mick Jagger voou e ali passou para que gravassem uma versão de Dancing in The Streets, original de 1964 de Martha and The Vandellas. Na mesma noite, com David Mallett, foram para a rua e, nas Docklands, numa série de takes, nascia o teledisco. Em meio dia um single e um teledisco nasceram assim. As imagens foram exibidas no Live Aid. Semanas depois era o single que estava na rua. Faz agora 30 anos.

sexta-feira, agosto 28, 2015

Cécile McLorin Salvant, "Look at Me"

É mesmo a sério: depois de WomanChild, a americana Cécile McLorin Salvant aí está com For One to Love, reafirmando a sua radiosa conjugação de composições pessoais com recriações de referências do mais depurado classicismo. Numa galeria de doze faixas, encontramos, assim, cinco novas composições, a par, por exemplo, de The Trolley Song (Hugh Martin/Ralph Blane), cantada por Judy Garland no musical Meet Me in St. Louis/Não Há como a Nossa Casa (1944), de Vincente Minnelli, e Something's Coming (Sondheim/Bersntein), tema de West Side Story aqui recriado numa verdadeira jam session de mais de 10 minutos. O álbum pode ser escutado na NPR; este é o teledisco, simples e sedutor, de Look at Me, uma das peças compostas pela própria cantora.

Zac Efron à procura de Zac Efron

Dir-se-ia que, tal como a sua personagem em Nós Somos Teus Amigos, Zac Efron continua à procura de um lugar em Hollywood — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Agosto), com o título 'Aventuras de um DJ no país de Hollywood'.

Ciclicamente, cedemos a uma certa nostalgia que nos leva a lamentar o desaparecimento do musical como matriz regular do cinema. Temos mesmo esse vício que, face a um musical isolado, nos leva a perguntar: será desta que o género é relançado?... Não é, não pode ser. E uma das (muitas) razões que pode ajudar a explicar o seu esvaziamento é o facto de as gerações mais novas não terem sido educadas nos seus artifícios e valores de espectáculo.
O assunto ressurge a propósito da estreia de Nós Somos Teus Amigos, primeira longa-metragem de Max Joseph, ele próprio de uma geração “thirtysomething” (nasceu em 1982, em Nova Iorque) que já não conheceu o musical como presença regular nas salas. Na verdade, os protagonistas são símbolos de uma outra relação (bem diferente!) com as matérias musicais: esta é a saga de Cole Carter, um DJ especializado em música electrónica de dança que, juntamente com os três melhores amigos, alimenta o sonho de transcender os limites da sua zona de Los Angeles, conquistando um lugar na indústria e na mitologia de Hollywood.
O filme tem a seu favor a energia de alguns actores. E não deixa de ser curioso sublinhar que o intérprete de Carter é Zac Efron (n. 1987), precisamente um nome cujo talento descobrimos através de um musical — foi em 2007, em Hairspray, de Adam Shankman (inspirado num espectáculo da Broadway que, por sua vez, tinha como ponto de partida o filme homónimo de 1988, dirigido por John Waters). O certo é que, apesar de alguns momentos invulgares — lembremos a participação em The Paperboy (2012), de Lee Daniels, contracenando com Nicole Kidman —, a carreira de Efron tem sido tudo menos consistente.
Nós Somos Teus Amigos pode ser tomado como um emblema perverso da indefinição a que Efron chegou — e que, afinal, o filme duplica. Por vezes, Max Joseph parece querer citar o negrume de sexo e drogas que perpassa na visão de um Bret Easton Ellis, em particular no seu primeiro romance, Menos que Zero (adaptado ao cinema em 1987, por Marek Kanievska); noutros momentos, o filme confunde-se com uma colagem de telediscos mais ou menos agitados e pueris; enfim, a relação de Cole com o seu mentor, James (Wes Bentley), constitui uma derivação dramática saturada de clichés.
Estamos perante um filme cujo valor sintomático nunca consegue transcender uma certa superficialidade “sociológica”. É pena, tanto mais que, por detrás do esforço de Max Joseph, pressentimos a vontade de conseguir criar um objecto de culto da (e para a) geração retratada.

Uma canção para o verão (2015.05)


C Duncan e o seu álbum Architecture são uma das grandes revelações de 2015. Este é um dos temas do alinhamento do álbum. Garden é um belo tema para ouvir por estas tardes de verão:

Quando Tati pensou filmar os Sparks

A edição especial de verão da revista “Sofilm” é dedicada a histórias de relacionamento entre o cinema e a música pop/rock. Sparks, Bob Dylan, Neil Young, Elvis Presley ou Jim Jarmusch passam por estas páginas.


Em 1975, numa reunião no Hotel Hilton, em Paris, o realizador francês Jacques Tati encontrava-se com dois músicos norte-americanos que, nos últimos anos, tinham dado sinais de personalidade (e grande sentido) de humor ao vestir os encantamentos do glam rock não em busca de um lugar no comboio lançado por Bowie e Bolan, mas assimilando antes ecos de tradições do cinema norte-americano, nomeadamente Charlie Chaplin. Desafiava então os Sparks para tomarem um lugar de protagonismo em Confusion, um novo projeto a filmar para televisão no qual encenaria a morte de Mr. Hulot durante um direto e, na lógica do show must go on, a emissão não seria interrompida. E a 15 de março desse ano era emitido um comunicado de imprensa, revelando o novo projeto, confirmando que a rodagem teria início ainda esse ano e que os papéis principais caberiam a Tati e a Ron e Russel Mael. O projeto de financiamento acabou por ser mais longo do que o esperado e, quando em 1982 as condições estavam finalmente reunidas para filmar, a morte do realizador, aos 75 anos, deixou o projeto por concluir, sobrevivendo o argumento, a canção-tema (que surgiu no álbum Big Beat, de 1976 – ouvir em baixo) e as memórias dos que lhe chegaram a dedicar tempo e atenção. Algumas dessas figuras são ouvidas em “La Confusion des Genres”, um dos artigos que podemos encontrar na edição especial de verão da revista francesa Sofilm, integralmente dedicada à relação da música com o cinema.

Nas suas 116 páginas, esta edição dedica artigos a Henry Mancini, ao filme Spice World com as Spice Girls (o tiro ao lado desta edição) a Straight To Hell (filme de 1986 de Alex Cox com Joe Strummer, Courtney Love, Grace Jones e Elvis Costello), a Human Highway (que Neil Young co-realizou sob o pseudónimo Bernard Sharkey), a Renald and Clara (realizado em 1978 por Bob Dylan) ao histórico Space is The Place (com Sun Ra), um pequeno feature sobre bandas sonoras rejeitadas e uma inevitável referência aos documentários sobre Amy Winehouse e Nina Simone recentemente estreados, entre outros mais temas.

A revista inclui uma entrevista com Jim Jarmusch, um texto sobre um álbum punk de Ben Stiller e apresenta um portfólio dedicado a Elvis Presley e ainda uma série cronologias e listas Top 10… E vale a pena passar por algumas dessas listas, goste-se ou não das escolhas feitas (como manda a regra de quem gosta de ver listas).

Há uma dedicada às piores cenas de dança e outra aos piores biopics musicais, por onde passam filmes dedicados a Lully, Frankie Valli ou Beethoven… Havia piores, convenhamos. Há um outro sobre “cameos” de músicos em filmes.

Fica claro, por indicação na capa, que estas histórias de cinema e música são focadas em terreno rock’n’roll. Não era má ideia que, numa outra ocasião, outras músicas e outros filmes com música venham a merecer uma tão variada seleção de artigos par ir lendo nestes dias mais quentes e longos de verão.

Para ler: Laibach falam
da ida à Coreia do Norte

A um dia de atuarem em Leiria vale a pena ler o que contam os Laibach da sua passagem (histórica) por Pyongyang. Ent.revista à Rolling Stone.

Para ler aqui

Lance Armstrong por Stephen Frears

A saga de glória e impostura do ciclista Lance Armstrong já está filmada por Stephen Frears, com Ben Foster no papel central. Faz parte do alinhamento do Festival de Toronto (10-20 Set.) — cartaz e trailer.

quinta-feira, agosto 27, 2015

Frank Zappa, opus 100

Digamos, para simplificar, que algures em 1993 Frank Zappa desembocou num trabalho em que a acumulação de sons (electrónica, ambientes, água a escorrer...) se conjugou com a visita de um grupo de cantores da República de Tuva, na Sibéria do sul. Isto para além de um apaixonado regresso aos sentimentos tradicionais (?) da guitarra, cruzados com o uso obsessivo do Synclavier e a presença clássica (?) do piano. Estranho? Muito estranho, caro leitor. E apetece dizer: tanto mais fascinante quanto mais estranho.
Na prática, aí está, finalmente editado no ano da graça de 2015, o álbum nº 100 da discografia oficial de Zappa, terminado pouco antes da morte do músico, a 4 de Dezembro de 1993 (contava 52 anos). Dizer que se trata de um exercício que encaixa no género experimental é quase uma ofensa, de tal modo aquilo que aqui acontece se distancia de qualquer noção estabilizada de género. Fiquemo-nos, para já, pela ideia de que se trata de um apelo/desafio à dança, festivamente formulado no título Dance Me This. E evitemos a facilidade de repetir que Zappa está sempre à frente do seu tempo. Acontece que o seu génio inventa a medida do seu próprio tempo — resta-nos acertar o relógio.


>>> Dance Me This no PopMatters.

quarta-feira, agosto 26, 2015

A cultura segundo António Costa

YASUJIRO OZU
(1903-1963)
De que falam os partidos quando (dizem que) falam de cultura? E, no espaço cultural, como pensam (ou não pensam) o poder cultural televisivo? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (23 Agosto).

Com típica euforia mediática, sobretudo televisiva, proliferaram as citações da afirmação de António Costa (em entrevista ao jornal Sol) segundo a qual encararia a possibilidade de um Bloco Central “só se houver uma ameaça de invasão de marcianos”... Enfim, num país de imagens pitorescas, é natural que a informação seja muitas vezes tratada como hipótese de pitoresco.
Poucos foram os que destacaram o facto de o líder do Partido Socialista ter manifestado a vontade de refazer um ministério para a área da cultura. Aliás, Costa não se limitou a revalidar esse modelo que vigorou até José Sócrates (inclusive); ao mesmo tempo, definiu como tarefa prioritária de tal ministério a integração das áreas de “audiovisual, imprensa, rádio e novos media”.
Essa possível abrangência de um novo ministério da Cultura envolve um fascinante desafio ideológico. Na verdade, nos últimos anos, todos os partidos políticos (incluindo o PS) foram metodicamente evitando qualquer tomada de posição sobre o desenvolvimento do audiovisual, em particular remetendo-se a um silêncio cúmplice face ao triunfo da obscenidade populista em muitas zonas do território televisivo. Ora, pede-se à classe política algo mais do que a acumulação de frases de pueril exaltação do legado de Manoel de Oliveira — o cinismo ofende e a gestão política da Cultura não se faz por soundbytes.
O assunto é delicado, recomendando alguma desdramatização legislativa. De facto, pensar — e, primeiro que tudo, pensar politicamente — o populismo televisivo não é o mesmo que dizer que as empresas dessa área devam ser sujeitas a qualquer interdição decorrente de alguma legislação autoritária sobre os “conteúdos” que produzem ou difundem, mesmo os que são apenas lixo.
Acontece que o Estado (salvo melhor opinião, tal “coisa” ainda existe) deve encarar os desequilíbrios que podem afectar a dinâmica de todas as áreas sociais, incluindo a cultura. Só mesmo as boas almas esperarão que os espectadores educados pelo modelo telenovelesco há quase quatro décadas (desde 1977, para sermos precisos) terminem o serão descobrindo as cópias restauradas dos filmes de Yasujiro Ozu...
A caricatura é, infelizmente, realista. De um realismo que exige ao Estado a criação de condições para a continuada diversificação da produção, difusão e também, hélas!, promoção dos produtos audiovisuais. O projecto de um novo ministério da Cultura constitui, por isso, uma perversa caixa de Pandora que forçará todos os partidos (a começar pelo PS) a testar a sua visão da vida cultural portuguesa, nem que seja através de uma típica atitude de demissão.
Para já, sublinhemos o facto de alguém da área política reconhecer aquilo que, há décadas, tem sido humildemente dito e repetido por alguns dos menos bafejados pelo talento da arte política. A saber: a televisão é um território de permanente confronto de valores, não um paraíso isento de implicações culturais — é mesmo um dos espaços vitais da nossa identidade cultural.

terça-feira, agosto 25, 2015

"Born to Run", 40 anos

Era (e continuou a ser...) o tempo em que as capas dos discos de vinyl, para além da sua dimensão específica, podiam integrar um conceito visual que ligasse capa e contracapa. Assim acontece em Born to Run, de Bruce Springsteen, através da lendária fotografia registada por Eric Meola: a pose de Springsteen com o saxofonista Clarence Clemons (1942-2011) só é visível quando se abre a capa; adquiriu tal valor iconográfico que, muitas vezes, nos concertos da época, os dois aproveitavam algum momento de transição para a "reproduzir" em palco.
Born to Run foi lançado a 25 de Agosto de 1975 — faz hoje 40 anos. Depois de Greetings from Asbury Park, N.J. (1973) e The Wild, the Innocent & the E Street Shuffle (1973), Springsteen apostava num som menos experimental, mais susceptível de mobilizar grandes audiências. E o menos que se pode dizer é que a transfiguração o impôs como uma nova estrela, sem alienar as raízes patrimoniais do seu rock. Canções como Thunder Road, Born to Run e Jungleland materializam uma ultrapassagem de qualquer resquício de temáticas da adolescência, abrindo para uma dimensão ao mesmo tempo vibrante e confessional que prosseguiria através de Darkness on the Edge of Town (1978), The River (1980) e Nebraska (1982), para atingir o seu cume em Born in the U.S.A. (1984). É assim, por exemplo, que o tema-título abre com estes versos:

In the day we sweat it out on the streets of a runaway American dream
At night we ride through mansions of glory in suicide machines
Sprung from cages on Highway 9, chrome-wheeled, fuel-injected, and stepping out over the line
Whoah baby, this town rips the bones from your back, it's a death trap
It's a suicide rap, we gotta get out while we're young
'Cause tramps like us, baby we were born to run

Hoje mesmo, Bruce Springsteen partilhou uma breve memória de Born to Run. Entretanto, aqui ficam Thunder Road (registo do álbum) e Born to Run (ao vivo).



Eve Risser — cidade, neve e piano

Dizem as notas biográficas da francesa Eve Risser que o piano não foi uma prioridade na sua expressão: foi surgindo e, de alguma maniera, impondo-se como linguagem dominante. Não admira que, ao escutarmos um álbum tão estranho e fascinante como Des Pas Sur la Neige, sintamos o seu empenho em conduzir o piano (preparado) a zonas de expressão que parecem desmentir a sua identidade, tanto quanto, paradoxalmente, confirmar a sua especificidade. A metáfora da neve, misto de instabilidade e firmeza, envolve uma arquitectura que, no limite, se confunde com o imaginário da cidade: as três faixas do disco chamam-se mesmo, por esta ordem, Des Pas Sur la Neige, Des Pas Sur la Ville e La Neige Sur la Ville — eis a última, um elaborado exercício de mais de meia hora testemunhando a solidão habitada do piano.


>>> Site de Eve Risser.

Foi você que disse "economia real"?

1. A crise económico-financeira de 2008 e os seus muitos ecos são tudo menos simples ou transparentes. A respectiva percepção, difusa e ansiosa, pelo "cidadão comum" (lugar que, na ambivalência das simbologias agregadoras, todos ocupamos) é mesmo uma das grandes questões culturais e comunicacionais do tempo presente — vale a pena ler, a esse propósito, o leque de reflexões de Daniel Carrapa, começando por um de vários posts no seu blog 'A Barriga de um Arquitecto'.

2. Apesar disso — corrijo: precisamente por causa disso —, creio que seria pertinente questionar as linguagens correntes, nomeadamente no espaço televisivo e na Internet, que os analistas tendem a empregar. Veja-se este video de dois jornalistas do jornal Le Monde sobre as convulsões da bolsa chinesa. Respeito da complexidade do que está em jogo? Certamente. Rigor e seriedade? Não é isso que está em causa. De onde vem, então, a persistência (mais do que isso: o automatismo) da noção de "economia real"? A economia, perversa e predadora, que está a matar os nossos valores de civilização será, então, "irreal"?


Chine : pourquoi la bourse dévisse por lemondefr

3. Não é, entenda-se, um mero problema de perspectiva analítica que está em jogo. Um pouco como a utilização anédotica (a meu ver, em última instância, culturalmente irresponsável) da noção de "justiça" para avaliar os resultados dos jogos de futebol... A questão, nunca respondida pelos comentadores, é outra: que sistema legal torna "injusto", logo passível de emenda e punição, o facto de uma equipa jogar "mal" e ganhar um jogo? Como é que os comentadores se atrevem a proclamar que um resultado é "aceitável"? Não o sendo, sugerem que a equipa derrotada recorra aos tribunais? Em nome de que conceito social e moral põem a circular a ideia segundo a qual uma equipa (e os seus adeptos, hélas!) pode não aceitar um resultado?

4. Para além da miséria conceptual do anedotário futebolístico, os modelos correntes das reportagens televisivas, com os relatores inseridos (embedded) numa determinada "acção", são intensamente reveladores. Assim, o permanente e demagógico subtexto proclama que o "nosso" repórter está lá a transcrever os acontecimentos... Será preciso relembrar que, ao longo dos últimos 120 anos, quem tenha gasto cinco segundos de inteligência a reflectir sobre o que é uma câmara (filme, video, etc.), sabe que não existe transcrição audiovisual? Dito de outro modo: as imagens (e os sons!) não repetem o real, antes o ampliam e reconvertem, em última análise reconfigurando as nossas relações com tudo aquilo que representam.

5. O drama analítico da "economia real" é, por tudo isso, também um drama de linguagem. A maior parte dos protagonistas do espaço mediático não quer pensar a sua própria linguagem porque sabe que a persistência do valor de imanência do seu "naturalismo" constitui uma visceral forma de poder. Sobre quem? O espectador.

À chegada das Mil e uma Noites

Miguel Gomes
Chega, finalmente, às salas, As Mil e uma Noites, de Miguel Gomes: uma aventura realista portuguesa elaborada através de uma aposta máxima na fantasia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Agosto), com o título 'Quando o cinema fala do nosso aqui e agora'.

O primeiro volume de As Mil e uma Noites, intitulado O Inquieto, estará nas salas a partir de quinta-feira (dia 27). O segundo (O Desolado) e o terceiro (O Encantado) chegarão a 24 de Setembro e 1 de Outubro, respectivamente. Ao surgir esta primeira parte, talvez seja inevitável dizer que o filme de Miguel Gomes se oferece ao seu espectador enredado numa teia simbólica sem um fim à vista. Aliás, em rigor: sem procurar “solução” para a sua deriva. No sentido mais desconcertante, e também mais fascinante, que tal opção pode envolver.
Que se passa, então? É preciso conhecer o primeiro filme para compreender o segundo? E o segundo para decifrar o terceiro?... E que vai acontecer aos espectadores que vejam os três de forma não linear?
São interrogações que não encontrarão nenhuma resposta de senso comum, quanto mais não seja porque As Mil e uma Noites é um filme feito contra o senso comum, quer dizer, contra os mecanismos que trabalham para criar uma pueril ilusão comunitária. Quais? As chamadas redes “sociais” em que, tantas vezes, deixa de haver indivíduos para apenas existirem links e likes. E também, claro, o império da telenovela, essa matriz narrativa que impôs a sua estética ditatorial há mais de três décadas.
Num certo sentido, As Mil e uma Noites é uma novela ou um folhetim (e escusado será dizer que a sua divisão em capítulos envolve tal sugestão). Mas é-o no sentido em que a acumulação de episódios gera, não uma normalização de temas e personagens, antes a sua frondosa diversificação, num processo em que a seriedade da narrativa é sempre cúmplice de um contagiante humor.
O próprio Miguel Gomes encena-se neste primeiro volume como um cineasta em fuga. Não exactamente da realidade, mas da própria equipa. É, obviamente, um intermezzo paródico que, em qualquer caso, envolve uma sugestão pedagógica: não se trata apenas de mudar de histórias, mas de arriscar mudar as maneiras de contar histórias.
Crista Alfaiate
Daí a convocação das Mil e uma Noites e da sua personagem emblemática, Xerazade (Crista Alfaiate) — ela ressurge, afinal, como aquela em que o desejo de contar histórias é tão só uma variação da vontade de sobrevivência. Daí também o paradoxo maior do trabalho de Miguel Gomes: por um lado, tudo se organiza em nome da fantasia inerente à colagem festiva das mais contrastadas peripécias; por outro lado, desde a crueza da situação dos desempregados até ao primeiro banho do ano, passando por um exterminador de vespas que atacam as abelhas, a fantasia não rasura, antes parece atrair, as marcas de um país que reconhecemos como o território, real ou imaginado, do nosso aqui e agora.
É um facto: sentimo-nos algo perdidos no meio destas Mil e uma Noites. Mas se queremos narrativas certas, formatadas, empenhadas em promover uma linguagem de intermináveis estereótipos, será melhor ligarmos o televisor por volta das nove e meia da noite... Aqui, somos convocados para uma perdição que implica a discussão de todos os padrões narrativos — como filmar este país que é o nosso? E também uma reavaliação do próprio prazer de ser espectador — como sermos dignos da loucura branda de Xerazade?